Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Angola, um paradoxo desportivo

18 de Janeiro, 2018
O encontro da direcção do MINJUD com os Clubes do ‘Girabola’ mostrou uma faceta que andava escondida na direcção desportiva do país; se o Ministério tivesse promovido, na passada semana, uma reunião com os clubes sem acento no facto de serem os ‘Clubes do Girabola’ teria sido uma coisa.
Ao frisar-se clubes do ‘Girabola’ e, portanto, priorizar os clubes, e não a federação, nessa primeira reunião, ou abordagem do género, ficou patente que o próprio MINJUD ou tem uma política ainda por nos apresentar, ou mergulhou também no preconceito de que desporto é (só) futebol.
Não estou a ver o Ministério com peito para vir defender que desporto não é só futebol, porém, o futebol será para a instituição o mais importante. É que se assim for, o elo que o futebol representa na cadeia desportiva é a podridão dos clubes, salvo muito raras excepções, pois, aquilo que não evolui, regride e apodrece – a corrupção que grasse no desporto-rei é prova disso – está-se a adulterar a nossa realidade desportiva e a enviar um triste sinal ao resto.
Nem se pode dizer que a realidade sociológica do desporto em Angola aponte para o futebol como o essencial; os Angolanos já foram campeões de muita coisa, tanto na época colonial como agora, na pós-colonial. E se deixaram de ser foi por incúria e incompetências que se apoderaram politicamente do desporto.
O que não devemos é agravar esse estado de coisas, nem libertar essa mentalidade redutora. E muito menos falsear a realidade. Numa altura em que até Gana e Nigéria vão sãos Jogos Olímpicos de Inverno, demonstrando assinalável ganho cultural, é retrógrado queremos capitalizar o desporto na modalidade de que menos percebemos, que é o futebol. Se achar mentira, recapitule-se os nossos resultados em 40 anos.
Se o país prefere o futebol como realidade desportiva, subalternizando os outros desportos, será a expressão de uma vontade política que, mesmo sem passar por um ‘referendo’, merecia então que os clubes fossem chamados para explicar o futebol que preparam, e não que futebol que teimam fazer e que é forte em doses de disparate, até como estratégia. De clubes, e se persistirmos na via em que estamos, também do ministério, mas não só de agora.
A falta de democracia entre os agentes do desporto é a primeira nota saliente; não sei se haverá clubes que façam eleições, pelo menos os grandes e mais visíveis; são como que, nomeados, os dirigentes; e nuns casos raros eles são uma jóia, mas, noutros, um calo de todo o tamanho. Depois as suas assembleias não têm voz, mas se têm, mal a usam. Então é uma alegria dirigir mal e destemidamente.
A maior parte dos actuais dirigentes desportivos parecem pseudo-tecnocratas, além de que comportam com pouca excepção, como autocratas; eles é que sabem e, então, mal ouvem alguém. Estão no seu pseudo-direito, enquanto as suas assembleias-gerais não executam os seus direitos e os chamam aos seus deveres. Então o clubismo e sua gestão é parte do imbróglio do desporto angolano em geral.
Por outro lado, a ausência daquela reunião com o MINJUD, de muitos outros clubes do país, que também parecem só saber-se expressar-se na linguagem do futebol, destapa a certeza que já havia de que, já não só agora a nível de selecções, mas também de preocupações gerais da modalidade, revelam uma sensibilidade maior para os ‘grandes emblemas’, a maioria dos quais só da capital, em inequívoca subestima dos clubes no geral, e que há pelo país inteiro.
Ao ver-se as coisas assim cruamente e em pratos limpos, não estou a julgar os critérios e nem as fraquezas políticas do MINJUD, mas, a tentar descortinar para onde vai esta nova direcção do ministério apostar em levar avante o desporto nacional, que é naturalmente muito mais que futebol.
O primeiro grande problema do nosso desenvolvimento desportivo vai ser mesmo a dimensão cultural do mesmo, tido que os exemplos precisos devem vir primeiro de cima. Por isso e em função da pobreza crescente do futebol, acredito que se caminha cada vez mais para uma asfixia de desportos que poderiam dar mais envoltura ao desporto angolanos, do que morte lenta.
Ainda assim, é cada vez mais gritante a falta de primazia dada à formação daqueles que fazem o futebol.
De maneira bastante significativa, e por ventura influenciada pela escolha acertada da AFA, pela direcção técnica espanhola, o esteio nacional, que o Petro Atlético representa no desporto, entre outros ‘grandes’, parece ter igualmente adoptado e apostado num novo rumo para o futebol do clube, que se distancia assim das escolas do Brasil e Jugoslávia que tanto marcaram a história do futebol na Angola pós-colonial.
O quisto da questão está em que os clubes continuam a olhar para os séniores como a menina dos olhos que têm, e a direcção do ministério veio corroborar esta tendência e opção clubista. Seja como for, uma intervenção cimeira como a que representa a convocatória dos clubes pela ministra, sem a presença da federação, corre o risco de ganhar rumos diferentes daqueles que possa preconizar a direcção da federação e da modalidade.
Não acho que tenha sido ingerência, mas apenas um despropósito. O ministério devia primeiro avaliar com que linhas se cose o futebol, e depois auscultar os clubes; ao invés, terá ouvido as preocupações materiais dos clubes, sem sancionar a forma como é feita sua gestão, dado que eles consomem muitos fundos do erário púbico que sobrariam para podermos ter, por exemplo, melhor saúde ou educação.
Se o futebol é visto como desporto, o MINJUD parece-me mais ter apadrinhado a distorção da pirâmide, do que corrigido os rumos de desenvolvimento para a modalidade; se, diferentemente, o que preocupou o ministério foi a salvaguarda do espectáculo popular, que tem perdido o poder atractivo que outrora granjeava, então, o caso foi mesmo de política, neste caso política de entretenimento para o fim-de-semana do cidadão.
Se ao contrário, a ocasião serviu para falar da ressurgida figura do contrato-programa, então era pertinente saber quanto desses fundos para o futebol, serão efectivamente para o seu desenvolvimento, e não apenas para a manutenção de uma estado de coisas que em termos económicos, tem sido uma ruína para os cofres dos clubes, pois, a exemplo da nossa prática de preferirmos importar, a plantar, estaremos no futebol a preferir distrairmo-nos, do que verdadeiramente evoluirmos.
Os clubes angolanos – não é preciso aguardar muito – vão voltar a borrar a escrita nas taças de clubes da CAF e a comprovar que o dinheiro não traz a desejada felicidade, sendo um falso problema e explicação da falta de qualidade, pois, os nossos clubes perdem com outros de países menos frondosos e com emblemas financeiramente menos poderosos que os nossos, porém, com mais ciência da modalidade, do que nós mostramos ter.
E os orçamentos dos clubes não são a única coisa que sai a perder destas comparações. Os quadros técnicos tambéme tal como outrora o país só aceitava cooperantes com capacidade comprovada, também no desporto só se deviam ‘tolerar’ mestres desportivos que deixassem alguma escola mais, para o país. Cada vez se recorre menos aos técnicos nacionais e isso deveria merecer um estancamento.
As outras modalidades sentem-se justamente enciumadas pela ‘futebolização’ do desporto, pois, elas existem dentro dos mesmos clubes, ou quase todos, e sabem que são segregadas a favor de um quisto.
O futebol angolano está infectado e prova isso cada vez mais, se fizermos o balanço dos resultados a que chegamos com o despesismo que tem havido. E ao invés de nos entreter, o estado de coisas no futebol leva-nos a regredir, ano após ano.
E quem fala de futebol, poderia falar de outras modalidades, que além de orçamentos a minguar, não desfrutam das oportunidades que deveria haver nos clubes para poderes também crescer.
O CHAN está a decorrer no Marrocos e as evidências do país mostram que não só a sua base desportiva é mais cuidada – a formação desportiva no Marrocos chega a ponto de terem dos mais procurados centros de estádio do mundo – que o digam o atletismo, andebol, desportos de combate e lutas – como também uma ciência desportiva de quem vêm beber técnicos inclusive de fora de África. Mas quando voltar a reunir a comissão mista dos nossos países, é quase tido e certo que a parte da agenda pouco ou nada tenha de desporto.
Assim e para concluirmos, o problema já passou da falta de visão dos clubes, para a falta de estratégias e prioridade e políticas do nosso país para o sector desportivo. E tal como o hábito não faz o monge, também a militância não nos outorga sempre o saber necessário.
Cada vez ficam para trás as esperanças de quem achava que ter um antigo basquetebolista no governo iria devolver as faces rosadas à nossa bola ao cesto, pois, por mais que queira um indivíduo, não é sozinho que se muda a mentalidade que criou raiz na juventude e desporto, cuja fórmula de sucesso não se pode colocar em pé de igualdade com a simplicidade com que outros países crescem desportivamente fazendo políticas simples, práticas e eficientes.
Uma política prática, mas simples e eficiente, já sabemos, é lançar o desporto nas escolas para dar de beber talento, aos clubes. E às selecções. E como isso tarda a tirar as rodas da posição inerte em que estão ainda, é preciso estimular outras correntes. Assim e na posse da pasta da juventude, parecia fácil unir o útil ao necessário, mas, ainda não se imagina que a juventude reúna com as associações e movimentos juvenis, com a mesma agenda com que o desporto reuniu primeiro com os clubes de futebol.
Falando dos recursos para o desenvolvimento que se pretende, mas que não se vê preconizar ainda, temos na lista de necessidades para tal, a revisão da legislação do desporto e a possibilidade de libertar a veia empreendedora das comunidades e jovens que tenham a capacidade de fazer acontecer desporto. E a braços com presumível défice orçamental, o desporto não pode ambicionar mesa farta enquanto novas receitas ele não engendrar.
Então não era natural que as lotarias, o jogo e o totobola já tivessem recuperado o seu lugar e papel? Esse monopólio, entretanto silenciado, seria uma contribuição à receita fiscal, se não houvesse emperros por parecer que ainda não se entenderam sobre quem deva reger isso, ou possuir isso. E é um sinal de que a nossa clarividência só existe para certas coisas, mas não para todas. E nem é das matérias onde se pudesse aventar haver óbices de natureza política, mas apenas patrimonial.
E patrimonial parece ser o momento do desporto, com cada vez mais infra-estruturas a serem privatizadas sob a capa de estabelecimento de parcerias público-privadas, que tornaram mais acaro ainda, o desporto que mal fazemos. No Cazenga, Kilamba, ou Zango, existe um potencial humano que não usufrui como preciso, da infra-estrutura pública que já existe ou nem vai tão cedo aparecer, porque os interesses divergem.
Recordo o caso dos países onde não se admite que se cobre pelo uso de estruturas pagas com dinheiro do Estado, embora das receitas de jogos se retire parte para as despesas de manutenção. De igual modo, a manutenção dessas estruturas não custa os olhos da cara como em Angola nos querem fazer crer.
Exemplo outro disto é o do estádio onde Angola está a competir no CHAN. A comparação é difícil de fazer por nunca se ter dito com clareza quanto custou o estádio 11 de Novembro, mas o equivalente estádio de Agadir, mais velho que o nosso, tem um aspecto saudável e sem fissuras, com uma manutenção inclusive da
pista de atletismo, que não arrebenta com os cofres do desporto, nem custa o equivalente a 25 mil dólares para á se fazer um jogo. No Marrocos ficam por 6 mil euros..., 4 vezes menos. Mas na África Central e do Oeste, os clubes destituiriam quem fosse preciso se, para meios pagos com dinheiros públicos, lhes cobrassem depois para poderem acessar e utilizar.
Nunca vou esquecer que, para o CAN’2010 que Angola organizou, até para se varrer e limpar os estádios vieram mais de 100 ganeses com vassouras, como se o país não tivesse desemprego, nem vassouras. Mas também sei que o empreiteiro ganês acabou por lançar depois do CAN, outro negócio que florescia em Angola, e não sei como ficou depois dos dólares não abundarem na nossa economia oficial.
Tamanhos casos concretos são a prova de que continuamos a andar torto e só não acertamos o passo porque não há vontade política para isso, ou então, e não quero nem pensar, não haverá lucidez politica no sector do desporto e para esse efeito correctivo. Mal de nós a renovar votos na mesma senda auto-destrutiva dos patrimónios culturais nacionais que são o primeiro elo da cadeia nacional de povos territorialmente irmanados.
A nação uma e indivisível costuma ter no desporto uma das suas reais expressões e nós precisamos de ver, ou reaver a nossa.
Então estamos perante um imbróglio em que ainda parece que se afecta a particulares e se dividem entre si as oportunidades, que são cada vez menos de todos. E isso ou é parte do processo da construção desigual de uma classe média à custa de meios patrimoniais usurpados ao estado, ou é o prolongamento de um atestado de incapacidade de se fazer coisas normais em Angola à custa de tantas desculpas enteadas da guerra.
O nosso país precisa de rumos novos, é consabido, mas, o desporto também, e com urgência.

Últimas Opinies

  • 19 de Agosto, 2019

    Como causar impacto atravs do marketing?

    De facto, para que se crie um impacto forte e eficaz através do marketing desportivo, é indispensável que os clubes e federações deem atenção ao formato comunicativo a ser utilizado.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    Petro escorregou Vasiljevic j era

    O grande Petro já  atemoriza os seus adeptos em poder continuar a fazer travessia no deserto neste seu “hibernar” sem título desde 2009: empatou mesmo depois de o presidente.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    Cartas dos Leitores

    Penso, que não há  muitas alterações  em relação aos candidatos, o 1º de Agosto procura o Penta e o Petro luta para quebrar o jejum de 10 anos, sem conquistar o campeonato.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    Girabola de todos

    Soltaram-se assobios, no último fim-de-semana. Voltou aos palcos nacionais, o futebol de primeira grandeza. Ou seja, o campeonato nacional da primeira divisão, o nosso Girabola.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    O segundo pecado da FAF

    A direcção de Artur Almeida e Silva acaba de cometer o segundo pecado, na gestão dos destinos da Federação Angolana de Futebol(FAF). O primeiro, assenta na desorganização que já a caracteriza.

    Ler mais »

Ver todas »