Jornal dos Desportos

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Opinio

Angolanizaao do futebol

07 de Julho, 2017
É uma discussão que já fez correr muita tinta. Há muitos que consideram ser altura de se angolanizar o futebol nacional, no que aos treinadores diz respeito. Sou dos tais, que embora defensor da citada tese, reconheço porém que não se consegue por decreto. O futebol é alérgico as tais barreiras. Carrega uma linguagem universal, que irrompe essas limitações administrativas.

Para os adeptos não importa quem seja o treinador. Basta que a sua equipa vença, jogos e competições. É por conta dessa inexplicada linguagem universal que os adeptos do Barcelona, em Angola como na Espanha, podem chorar nos mesmos termos quando são eliminados na Liga dos Clubes Campeões. Quantas notícias ouvimos de agressões físicas, no final do clássico Real-Barcelona, com vitória dos catalães?

Em Angola como em Espanha o sentimento que invade os adeptos nessa hora é semelhante. Não conheço qualquer abordagem sociológica ou psicológica que explique cabalmente esse fenómeno. O futebol é simplesmente o ópio do povo, basta isso se nenhuma outra explicação existir. No meio de tudo isso como se pode ter mais treinadores angolanos nas grandes equipas nacionais? A primeira questão, que não é descoberta nenhuma pessoal é formar o maior número possível.

Defendo que os dirigentes podiam ajudar e muito a desenvolver esse sector, que condiciona tudo o resto. Não havendo escolas de treinadores como noutras realidades, os presidentes dos clubes podiam negociar com os treinadores a inclusão nos seus contratos de uma obrigação de participar em formações anualmente num país à sua escolha. Entendo que essa pode ser uma das saídas. A outra prende-se com o facto dos próprios ganharem consciência da necessidade de se formarem sempre, com vista a responder as exigências do futebol actual.

Muitos participaram no primeiro curso, que os fez treinadores, e nunca mais regressaram à formação. É natural que possa de algum modo estar descontextualizado. É verdade que muitos ganham apenas e só o dinheiro suficiente para alimentar os filhos enquanto estiverem empregados, porque no dia seguinte não se sabe se continua a treinar. É uma actividade imprevisível, depende muitas das vezes de outros, de jogadores e dirigentes, que podem condicionar a sua continuidade.

Por exemplo, se não houver condições de trabalho, e motivação dos jogadores é natural que não se consegue nada, por mais conhecimento ou táctica que o treinador tenha. Essa situação explica em parte o facto de treinadores nacionais não frequentarem formação permanente.

Por outro lado, o nosso futebol, quando digo isso quero dizer os nossos dirigentes, seguem muito à risca a máxima de que os santos de casa não fazem milagres. A prática diz que é relativo. Oliveira Gonçalves, nas selecções nacionais, conseguiu o que ninguém mais fez. Ndunguidi Daniel guarda consigo a honra de ser o único treinador na história do 1º de Agosto que conseguiu levar a equipa a uma final continental, que perdeu “tragicamente” na Cidadela, por conta de um dia menos inspirado do então médio Assis.
É uma máxima para registar nos livros, pois a prática diz nos que basta os dirigentes valorizarem o treinador nacional, que esses poderão fazer o que os estrangeiros fazem. Infelizmente, o dirigente do futebol nacional acha que pagar bem a um treinador nacional é fazer favor. Não assusta por isso que se gabem depois de serem eles os principais responsáveis pelos títulos, e não os treinadores.
A exigência de um treinador “nacional” é compreendida como chatice, já do estrangeiro significa profissionalismo.

Quando um treinador nacional exige uma sala de trabalho com ar condicionado, acham que quer luxo, e condicionam a cedência dessas condições aos resultados. Os seus colegas são sempre bem-sucedidos. É natural que com essa desigualdade de tratamento a possibilidade do treinador nacional ser a primeira opção dos grandes é remota.

Os grandes pensam primeiro em ir buscar um tuga ou brazuca, e quando não são bem sucedidos viram-se para o mercado interno, mas fazem-no quase sempre contrariados.A chave do problema está na tomada de consciência dos dois lados. Dos treinadores para a necessidade de se auto-valorizarem, aproveitando todas as oportunidades para investirem no conhecimento, e dos dirigentes, dado que da qualidade dos treinadores nacionais dependem os bons resultados de todo o futebol nacional.

Não podemos exigir qualidade na formação quando os treinadores carecem dele. Portugal, uma realidade com a qual convivemos todos os dias, é exemplo disso. A qualidade dos seus treinadores têm tido reflexo nas suas selecções, em particular as mais jovens. E agora a principal, conquistou finalmente o título depois da agreste final que perdeu em casa com os gregos.
Teixeira Cândido

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