Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Apago de estrelas

11 de Julho, 2018
No desporto vencem as equipas e vencem as individualidades. Seja como for, o individualismo nunca se sobrepôs ao colectivismo. Claro está que uma equipa com um jogador de referência tem, regra comum, maior dose favoritismo em relação ao adversário.
Porque jogadores de outra galáxia não só tratam de mostrar as suas qualidades, como também jogam e fazem jogar as respectivas equipas. Ainda assim, ele, o jogador astro, precisa de ser bem assessorado, para poder levar a sua equipa à frente.
Fora isso, ou se esperar só por ele será meio caminho andado ao fracasso. O astro influência as incidências do jogo, motiva os colegas, amedronta o adversário, mas sozinho é nada.
Não é sem razão que se diz que futebol é um jogo de equipa. Quando o Brasil venceu o mundial de 1970 tinha Pelé, conotado como melhor jogador do mundo, no plantel. Mas o Escrete Canarinho não andava na dependência deste.
Podia ser, e como foi, um grande activo. Mas bem referenciados estavam outros, como Rivelino, Jairzinho, Mané Garrincha. Não havia nenhuma Pele-dependência.
Escapa, porém, nos últimos tempos, a sensação de que as equipas com as maiores referências do momento, pensam, erradamente,que são candidatas a tudo.
É um conceito errado pensar-se desta forma. Ter um Cristiano Ronaldo na equipa, um Messi ou um Neymar não pode e nunca deve ser sinal de favoritismo total. Aliás, se assim fosse Angola não teria se estreado no CAN apenas em 1996.
Se calhar, devia ter chegado nesse ano já com um título continental, porque antes teve referências como Ndunguidi e Jesus que em nada ficavam a dever aos lendários Roger Milla, Teófilo Abega, Abdul Razaky, Opuku Nti e outros que marcaram o futebol africano na década 80. O individualismo joga, devemos reconhecer está particularidade, mas sempre menos que o colectivismo.
Em 1996, quando o Campeonato Africano das Nações se disputam na África do Sul, a Libéria não passou na fase grupos. Entretanto, integrava aquele que meses antes(1995), tinha sido eleito o melhor jogador do mundo: Jorge Weah. Serve isto para dizer que enganaram-se aqueles que supunham que o Russia\'2018 seria conquistado por Portugal de CR7, Argentina de Messi ou Brasil de Neymar. Foi, na verdade, um engano redondo e rotundo.
Nenhuma destas selecções encantou, apesar de se reconhecer o esforço por elas evidenciadas para cumprirem com o que representava as suas netas. Os campeonatos do mundo não são ganhos por figuras individuais, estas se destacam, fazem a diferença, lá isto sim, mas é o colectivo que assume a determinação.
Por isso, é que vimos Portugal a cair aos pés do Uruguai, ainda nos oitavos-de-final. A Argentina e o Brasil a seguirem-lhe o trilho. Os astros que se destaquem, mas o grupo é sempre determinante. Se quisermos podemos buscar exemplo na Espanha.
A Roja foi campeã da Europa em 2008 e venceu com a mesma equipa o Campeonato do Mundo de 2010. O grupo as ordens de Vicente Del Bosques, vivia mais do colectivismo e marcou de facto uma época.
Iker Casilla, Xavi, Xaby, Iniesta, Piqué e demais, foram verdadeiros heróis. Mesmo que Maradona tenha ganho o mundial de 1986, no México, não se lhe deve atribuir o mérito na totalidade. Pois, o êxito só foi possível com a presença de outras unidades que, não estando ao nível deste, porém foram também de grande serventia na estratégia de mister Carlos Bilardo. Valdano, Jorge Burruchaga, Caniggia integravam a orquestra.
Com o afastamento precoce das seleções de Portugal, Argentina e Brasil, que integram aqueles que são hoje por hoje conotados como os melhores do mundo, ficou provado por A+B que o futebol é um desporto colectivo, onde a capacidade explosiva de um pode ser importante, mas não determinante.
Quanto a CR7 e Messi deixaram evidências de estarem à beira do encerramento de um ciclo. Pelo menos é quase um dado adquirido que a 24 de Setembro próximo quando for eleito o melhor do mundo, este não será o português tampouco o argentino. Pode ser a hora da troca de geração.
Matias Adriano

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