Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Apertar o cinto ou morrer

12 de Fevereiro, 2016
Como seria de esperar, vibramos vigorosamente com a abertura, no passado domingo, da nova época futebolística, porque pelos vistos o defeso já causava uma espécie de desconforto àqueles que têm o futebol no sangue e vivem-no com redobrada paixão faça chuva ou sol, e muitas vezes alheios ou fazendo, propositadamente, vista grossa aos defeitos e às incongruências que, em certos casos, lhe beliscam a beleza, arte e engenho.

É a festa do povo que está de volta. Porém, quanto custa a organização desta festa, quanta ginástica fazem os clubes para manter as respectivas equipas em competição é o lado que poucos ou quase ninguém procura saber ao mínimo detalhe. Na verdade, com a competição de volta, voltam também as coceiras dos dirigentes de clubes, exigindo unhas aguçadas, diga-se de passagem.

Embora cá entre nós não haja cultura de os clubes auditarem as suas contas e torná-las pública, sabe-se, à partida, que é uma pipa de dinheiro que se gasta para fazer face a uma época que compreende não só o Girabola e a Taça de Angola, mas também outros compromissos como as Afrotaças, por exemplo, para quem tenha tido a honra e o mérito de se apurar para estas competições africanas.

Aliás, está-se perante duas situações dúbias: a não divulgação das contas correspondentes à época, que seria feita nas assembleias de balanço, e a proveniência das receitas, sendo de conhecimento geral que os nossos clubes não têm carácter empresarial que levasse à concluir que ele são produtoras, logo detentoras de fonte de receitas próprias.

Existem casos de clubes como Petro de Luanda, 1º de Agosto, ASA, Interclube e Sagrada Esperança, cujos patrocinadores estão bem identificados. Mas clubes há que vivem quase de doações dos seus principais sócios, vezes sem conta submetidos a uma tremenda ginástica para se poderem aguentar numa determinada competição.

Deixar "preto no branco" quanto se gasta no cômputo de uma época desportiva, e aqui estamos quase a excluir disciplinas para lá do futebol, deixaria sensibilizado os agentes económicos e o sector empresarial, e, se calhar, conseguir patrocínios seria mais fácil em relação àquilo que é hoje. Porque regra comum, quem patrocina, às vezes, procura saber como é aplicado o capital por si disponibilizado. Afinal há exemplos de clubes à mingua por ter dado mau destino os dinheiros de patrocínios. Não interessa aqui a nominalização.

Agora que as coisas financeiramente tomam outro cariz, agora que o lema é apertar o cinto, se exige um pouco mais de transparência na política de gestão. Quem aplica o seu capital, independentemente de ter garantia de contra-partida, que consiste, em regra, na publicitação da sua marca, também lhe interessa um bom proveito do seu patrocínio.

Os gestores desportivos devem saber definir prioridades ou separar o útil do supérfluo. Não me parece que seja isto que ocorria até antes da famigerada crise económica despoletar. Agora sim, como o cerco começa a apertar, já se descortina uma nova mentalidade de actuação, sendo a prova acabada disto o facto de muitas equipas de futebol terem renunciado à preparação de pré-época fora do país.

O momento aconselha para uma política de parcimónia, porque terminado o tempo das vacas gordas os próprios patrocinadores precisam também eles rever um conjunto de factores para dizer sim ou não às solicitações que lhes chegam à mesa. Aqui a minha preocupação vai mais para os clubes sediados fora de Luanda, sendo afinal os que, no caso do Girabola, têm mais despesas.

De resto, é por falta de cálculos daquilo que se gasta durante o campeonato que determinadas equipas partem para o jogo com o pouco que tiverem nos seus cofres. Este pouco, como a experiência já provou, às vezes chega apenas para suportar um quarto do campeonato, para depois virem a terreiro com reclamações e ameaças de retirada do campeonato, o que na verdade não é um exercício de bom tom.

É imporante que os clubes tenham a noção de quanto precisam para cobrir uma época em que estarão apenas no Girabola e na Taça de Angola ou em que estarão igualmente noutras competições fora destas. Não há necessidade de esconder os números, porque já se sabe à partida que o nosso futebol não dá lucro. Mas quem nele anda deve saber quanto custa e que exercício deve fazer para suportar os encargos, sobretudo hoje que o lema é apertar o cinto ou morrer.
Matias Adriano

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