Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Aprender com os prprios erros

01 de Julho, 2019
A esta altura já teremos percebido todos, que o futebol é um mobilizador de massas, que o país realmente paralisa para ver os “Palancas Negras” – e até o Primeiro Casal do país, mesmo em meio a uma visita oficial.
Tudo teria sido diferente, se quem dirige o desporto tivesse antes esta experiência incomparável. E que pela falta disso, se pode autenticamente borrar a escrita.
Inclusive não sou eu quem inventa discussões em torno de provedores de tv por satélite, diferenciadas entre quem tem, ou não, o quinhão e exclusividade das transmissões do ‘CAN’; nem sou eu quem inventa relatos de episódios do mercado geradas pelo futebol – neste caso pela Taça de África das Nações da CAF – como quando houve uma encomenda maciça de descodificadores para uma cidade em que os mesmo depressa caíram no paralelo e ‘mataram’ o bolso de quem os tentasse adquirir.
Tudo isto porque o futebol é a mais colectiva das paixões, independentemente das confissões religiosas, cores partidárias, bairros de origem, região do país ou do mundo em que habita, e que não tem par. Nem mesmo os jogos olímpicos...
De resto, a grandeza do futebol é tal, que aquando se escolheu quem haveria de organizar a Copa do Mundo da FIFA em 2026, se o candidato Marrocos garantia à FIFA um encaixe de 4 mil milhões de dólares (!), já a candidatura tripartida e rival de Canadá, Estados Unidos e México acenava com um retorno na ordem dos mais de 11 mil milhões de dólares (...), só para a FIFA. É algo que nem mesmo um comité olímpico internacional, COI, algum dia verá somando os seus ganhos nos jogos olímpicos de verão com os dos jogos olímpicos de inverno.
Assim e perante factos irreversíveis, mas também certamente melhor aconselhada, a titular do desporto angolano foi à abertura do CAN, no Egipto, e, de ‘esquebra’, até visitou os “Palancas Negras”, com quem acabou posando para uma foto de família. Mas no ar não ficaram dissipadas ainda todas as dúvidas, que pairam sobre os destinos dos verdadeiros desportistas angolanos de alto rendimento, a quem o Estado deve apoiar por serem seus representantes costumeiros, além-fronteiras.
Esse poderia, sim, ter sido o ponto de viragem se, entretanto, não persistissem laivos de que a equipa ainda não assentou ideias em termos das exigências que faz à federação, que é como dizer, ao Estado, pois as campanhas são subsidiadas por este. Diante de uma economia que tem recebido terríveis dentadas, como de resto tem sido noticiado, também os atletas entendem que devem chorar, ou não mamam.
Apesar de a 10 de Junho terem sido fixado os ganhos individuais desta operação, a acalmia ainda não é total. Para trás, mas não esquecidos entretanto, ficam episódios que merecem ser narrados adiante, pelo misto de paradoxos já verificados: após ter jogado em Penafiel contra os “Djurtus”, da Guiné Bissau, a quem venceram por 2 a 0, o comando dos “Palancas Negras” optou, inesperadamente, por não regressar ao centro de estágio, no Algarve, e causado uma perda que pode estar iminente, de 20 mil euros, dado não ficarem assim onde haviam pago, indo para outro alojamento não previsto, ali onde haviam jogado e donde partiriam, finalmente, para o Egipto.
Adiante e a pedido do técnico, pernoitaram no Cairo onde, inesperadamente também, o seleccionador primeiro pediu ao seu homólogo da África do Sul um adiamento da hora do jogo e, perto desta, voltou a ligar-lhe para informar que não iriam mais jogar.
E assim se gastou mais dinheiro escusadamente, em vez de se estar já ao abrigo de contas moderadas e no hotel da organização, em Suez. Nem se treinou como era devido, em caso de não haver jogo, nem se jogou tão pouco.
E assim passamos ao terceiro acto desta odisseia chamada CAN 2019, uma competição que tem de tudo para se tornar no crematório de mais umas quantas aspirações nacionais, como sempre acaba por suceder, sendo desejável para os angolanos não fazerem parte dessas cinzas. Como se sabe, os “Palancas Negras” que mal existiam há dois anos, estão a renascer. Agora deixem-nas crescer e viver um ciclo menos pobre que os últimos vividos pelo país do futebol, que afinal é o país inteiro.
E para apimentar os prognósticos dos “debacles” que decerto se repetirão, restando apenas saber com quem, temos já que nem a Nigéria goleou o estreante Burundi, nem a Tunísia terminou de sapatos altos calçados contra Angola, ou ainda, nem uma eternamente forte Guiné Conackry ganhou para o susto contra um reaparecido Madagáscar, que veio da desvantagem de 0-2 para um empate que roçara por momentos a vitória. No final da prova, dependendo dos resultados, sempre hão-de cair alguns seleccionadores, e provavelmente um ou mais presidentes de federação e, eventualmente, algum ministro também. Não será o caso da nossa titular do desporto, mas de algo lhe deve ter servido os avisos dados pela conjuntura nacional do futebol, no dia em que a antiga atleta de andebol percebeu que as Pérolas não eram, como parecia que cria, a cereja no cimo do bolo do nosso desporto.
Dia 21 de Julho, a ministra Ana Paula do Sacramento Neto pisou o Cairo e de passagem, até esteve com os “Palancas Negras”. Politicamente bom para a fotografia, ou fotograficamente bom para a política, tanto faz agora, o que realmente importaria era que a titular do nosso desporto tivesse aprendido com a experiência amarga decerto, porque passou e nos fez passar, ao confundir a precedência e importância das coisas.
Se desde o começou tivesse sido como acabou sendo, em foto de família, teríamos poupado arrelias e evitado tudo quanto depois sucedeu em cascata, com os ‘mulas’ do futebol a arcar com culpas que não tiveram no cartório. Foi realmente um tiro nos pés
e uma entrada em campo dos “Palancas Negras” feridos em casa, durante um simulacro de que o país não tinha sequer dinheiro para aspirinas.
Não sei qual era a dúvida de caloiro, relativamente ao que se haveria de passar com uma selecção nacional “AA” de futebol atirada à sua sorte, num momento em que o país precisa de alento e a nação, de rebites.
Por muito que sigamos a norma das Nações Unidas para o crescente empoderamento da Mulher e a inclusão de mulheres nos cargos públicos, é esperado que não tenham que ser militantes apenas e que atinjam o desempenho esperado – o mesmo deve suceder também em relação a homens – e não se deve forçar a tecla que não tocar afinada.
De igual modo, pretender forçar comparações ridículas, tais como, se a popularidade nacional do futebol é comparável à do andebol feminino; será sempre tão inglório e hilariante como querer comparar o peso do elefante com o da gazela, ou o porte da palanca negra com o da cabra de leque.
Quando também se diz que o petróleo é o principal activo do país, está-se de um valor e riqueza com uma medida concreto e nunca relativa. Do mesmo modo, quando afirmo que mais que outro desporto qualquer, o futebol é uma solução desportiva para a escassez de emprego, ou que possibilita uma valorização profissional através da prestação social e laboral ao desporto, isso ainda pode soar a baboseira para muitos.
Em Angola isso ainda faz ricochete. Como têm feito outros avisos à navegação das condutas individuais e às escolhas que sendo feitas por indivíduos apenas, acabam sempre por recair inteiras no país e, se más forem, estaremos todos feitos ao bife, como soe dizer-se. Neste particular, o sector do desporto tem sido, a cada ano, mais fértil em assimetrias e uma falta de critérios ajustados.
Aqui continuamos a preferir soluções de correria, à antevisão, ao planeamento, à planificação e ao plano de acção; até parece que não é da nossa cultura, e que nem andámos já no socialismo; até parece que sempre preferimos romper com os “stoques” primeiro, para depois mandar vir mais e criar assim um período de carência, ou então, ignorarmos os planos de contingência, preferindo-se as soluções de crise.
Foi assim que o antigamente internacional de basquetebol, Carlos Almeida, quando ainda atleta, em 2010, no Mundial FIBA de basquetebol masculino sénior, na Turquia, viveu na carne um episódio de balneário revolto e que eu catalogo como o episódio da ameaça da facada, quando o mais exaltado dos atletas expusera a insatisfação geral com um realismo só antes retratado em cinema. Mas lá alguém fora mandado de Luanda, a correr, com uma mala de dinheiro para apaziguar as hostes.
E desta vez, o mesmo Carlos, agora Secretário de Estado, fez de o homem da mala, qual bombeiro correndo para o estágio dos “Palancas Negras” a extinguir o seu próprio fogo, visto que o cheque para os atletas havia dado entrada em kwanzas somente 3
dias antes, em pleno final de semana. Ora, se isso não era para ser dramático, então era só para ficarmos a rir da brincadeira de mau gosto.
Isto faz-me convencer que no nosso país só se cometem certos erros porque eles já entraram para a nossa idiossincrasia e se não os cometermos, não nos sentiremos nós próprios, angolanos. De nada parecem servir-nos prévias lições de fiasco, inglória e vergonha nacional. Quererá isso dizer que estamos sempre a subir as dificuldades e a trepar os obstáculos? Até parece que sabemos que isso vai terminar por termos de torcer o braço, mas preferir primeiro não dar o braço a torcer.
Não sei se nos falta aprender um bocado mais da psicologia e da sociologia, antes de sermos postos a governar. Afinal, ninguém nasceu governante, e muito menos ser-se militante significa chegar a ser bom político, ou simplesmente ser-se capaz.
Já é tempo de aprendermos dos nossos próprios erros e de não andarmos a foguear sem necessidade.

Últimas Opinies

  • 11 de Novembro, 2019

    O sabor da Dipanda

    O 11 de Novembro é uma data que representa um verdadeiro símbolo da identidade dos angolanos e do país, em si, desde que se libertou das amarras do regime colonial. Portanto, há 44 anos, num dia como hoje, o saudoso Presidente Doutor António Agostinho Neto proclamou perante a África e ao Mundo a Independência Nacional.

    Ler mais »

  • 11 de Novembro, 2019

    Cartas dos Leitores

    Acho que a condecoração vem em boa hora. Devia haver melhor critério, mas não deixo de louvar a atitude do Presidente da República. (...)

    Ler mais »

  • 11 de Novembro, 2019

    Denncias, SIC e PGR

    Certa vez, sem receio de punição, a demonstrar que tinha algum trunfo na manga para provar, o então presidente de direcção do Recreativo do Libolo, Rui Campos, chegou a acusar que os árbitros indicados pelo Conselho Central de Árbitros da Federação Angolana de Futebol manipulavam os jogos e resultados da equipa de Calulu, no sentido de, na altura, impedir a revalidação do título.

    Ler mais »

  • 09 de Novembro, 2019

    Festa da Dipanda e os feitos desportivos

    Angola assinala dentro de sensivelmente dois dias 44 anos desde que se libertou das amarras do regime colonial.

    Ler mais »

  • 09 de Novembro, 2019

    Desporto de unio nos 44 anos da Nao

    Hoje, como não podia deixar de ser, neste espaço escrito “A duas mãos”, acordamos em falarmos da trajectória do nosso desporto, ao longo dos 44 anos de Independência que o País tem.

    Ler mais »

Ver todas »