Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Arlindo Macedo

Aproveitar Angola o momentum?

22 de Março, 2017
Hoje preferia aproximar-me do ‘Afrobasket’, a nomeação do seleccionador Carlos Dinis, e concluir uma abordagem pacífica do tema ‘treinadores desportivos em Angola’.

Mas não vai poder ser, pois deve ser a última ou se tanto penúltima vez que poderei vir aqui escrever sobre futebol, mas antes disso ainda preciso dizer algo.E a quem estiver à espera de uma reacção sobre “Isto é Angola, não precisamos (?)”, peço gentilmente que aguarde pelas fartas oportunidades que agora me advirão. Obrigado.

A histórica chegada do primeiro Angolano ao Comité Executivo da CAF, após 39 anos de entrada da FAF na FIFA, é já a nosso maior conquista desportiva do ano. Sem segredo, nem mistério, Rui Campos, o Presidente do Libolo, até pode ter levado sete anos a atravessar o hall de entrada da confederação, mas quando lá chegou, viu e venceu, algo improvável para um Angolano branco.

O desconforto de os Angolanos se pronunciarem em outras línguas continua intransigente com as suas aspirações em aerópagos internacionais. A nossa barreira linguística com o resto do mundo devia ser quebrada na instrução primária, quando a assimilação é mais rápida e pode aprender-se várias línguas nacional, veicular e estrangeira incluindo agora o Mandarim).

Ao contrário do que disse simbolicamente o agora ‘embaixador’ Rui Campos, que doravante se vai falar também Português na mais alta instância da CAF, sei bem que o seu nome pode vir a ser a única coisa que ouvirá em Português, pois a confederação não emprega a nossa língua, apesar de a ter adoptado como língua official, portanto de trabalho.

Mesmo a Guiné Equatorial é recorrente à vizinhança linguística para se intitular ‘prima’ dos PALOP e ter um ombro a que se encostar em África. O desamparo da história e geografia ao nosso desporto em África é tal, que a CAF até empacotou em um mesmo grupo linguístico todas as suas minorias: Lusófonos, Árabes e equato-Guineenses.

O primeiro obstáculo de Rui Campos já deve ter sido quebrado pela sua agilidade em perceber depressa o jogo dos bastidores, precisando de granjear sólida relação com um tunisino temperamental e apaixonado por petróleo, Tarek Bouchemaoui, president do nosso bloco linguístico.

Também Bouchemaoui chegou à CAF pela mão de Hayatou e pavimentou o seu caminho até o comité executivo, presidindo agora o nosso bloco linguístico na CAF.

Em pelo menos três décadas, Hayatou ‘africanizou’ a CAF, até então presidida sempre por homens do Norte (dois Egípcios, um Sudanês e um Etíope). Em África só se singra no associativismo mediante forte respeito por tradições, alianças e trocas de favores que obedecem por sua vez a códigos éticos, ancestralidade, parentesco, laços tribais – a CAF tem inúmeros nobres tribais incluindo príncipes como o chefe do Protocolo de Hayatou– contando igualmente a senioridade (os seniores) e daí a prevalência dos anciãos na organização.

A CAF cultivou longamente que os mais novos se calem e escutassem primeiro os mais velhos, devendo os alvitres ser sempre ponderados e formulados prudentemente diante dos anciãos nos seus conselhos e reuniões. O ainda cinquentenário Ahmad Ahmad, agora eleito presidente, poderá quebrar esse tabu, mas primeiro deve dominar e respeitar o mosaico Africano.

Quanto a Rui Campos, sua trajectória de sucesso ao cortejar a CAF ainda antes do CAN de 2010, em Angola, poderá colher frutos das relações que desenvolveu a partir de então; recorde que nessa ocasião deve ter sido o único anfitrião angolano do então presidente da CAF, Issa Hayatou, e do seu ‘entourage’. O ex-presidente nunca se separa deste e onde fossem, seria juntos.

Em fases finais dos CAN, o presidente prefere a quietude das suas rotinas e aposentos, fazendo uma política de salão com os seus tenores e que começa em um pequeno-almoço familiar. E para os seus escritórios prosseguiria tal procissão, trajectória essa que parece ter sido ‘canja’ para Rui Campos o fazer.

O que esperar agora, da possibilidade deste Angolano implementar o (dossier em) Português na mais alta instância da Confederação Africana de Futebol? O desporto representa um sector influente em África, ainda por descobrir nas políticas angolenses. Angola domina em África o andebol e basquetebol, porém, mal consegue fazer peso, pois faltam-lhe alianças naturais como língua comum e políticas desportivas de vizinhança.

E tudo se resume a fazer-se política, diplomacia e ocupação de cargos, com empenho dinâmico de governos e suas embaixadas junto das sedes deste nosso corporativismo. Rui Campos é adulto e sabedor, que o MIREX deveria ser dos primeiros contactos internos e parceiro na nossa agenda de desporto em África, algo que nunca vi ser devidamente explorado, apesar de alguns dos nossos embaixadores serem exímios anfitriões dos nossos desportistas.

Convirá desanuviar na CAF zonas acinzentadas de entendimento e relacionamento. Quando em 2010 se foi do CAN em Angola, a confederação levou a ideia de ter feito um torneio de propaganda nacional, tal fora o empenho em ter os estádios cheios de Angolanos e vazio de outras nacionalidades nas bancadas.

A dificuldade de imigração temporária dos ‘adeptos’ face ao encerramento colectivo dos nossos serviços consulares pareceu-lhes algo cirurgicamente preparado, como se temêssemos que tais prosélitos ainda ficassem cá de vez. E a ‘família Africana do futebol’ guarda essa recordação como inédito e estranho.

Os anos mais promissores de Angola na CAF haviam sido aqueles do ‘reinado’ de Justino Fernandes; além de uma afabilidade natural, era-lhe venerado o estatuto ‘palaciano’, mal precisando de falar para que ficassem de acordo com ele. E teria sido em primeiro Angolano no Comité Executivo da CAF, em 2011, se não tivesse retirado a candidatura a poucas horas da eleição, fruto de um presente envenenado e recebido como vindo de Hayatou.

Este recebeu Justino em seguida e categoricamente negou qualquer envolvimento directo ou indirecto no que fosse. Enquanto uns e outros ficam interrogando-se ‘até quando pagará Angola a factura’ de Armando Machado ter desafiado Hayatou em 2000, outros, como rui Campos têm que olhar para adiante. Entre as suas possíveis missões estratégicas, para além de chegar à FIFA – estará a quatro anos de o poder concretizar - haverá para si os nossos dossiers ‘arbitragem’ e ‘formação técnica’, ambos tão caros ao futebol Angolano.

Se o ‘pioneiro’ Angolanodirigente da CAF souber associar ao seu ‘saber fazer as coisas’, algumas sólidas relações necessárias para desenvolver com o seu presidente de grupo, então só lhe faltariam três aliados estratégicos: o incorruptível contabilista da CAF e das Seychelles, Sekutu Pattel, agora fortalecido pela eleição de Ahmad Ahmad –ambos são de origem indo-malaia – e os aliados naturais, sejam os PALOP na CAF, seja ainda o ‘amigo Angolano’ de Ahmad Ahmad e ex-presidente da FAF, Justino Fernandes.

A amizade de ambos foi cimentada na COSAFA, quando emergiam no futebol Africano e desenvolveram uma relação que poderá dar corda à escalada de Rui Campos, em um contexto repartido entre árabes e francófones; ou agora, entre árabes e anglófones, depois que fica à vista quem ‘derrotou’ Hayatou.

O novo presidente da CAF, Ahmad Ahmad, do Madagáscar, começa por ter feito pelo menos vinte ‘resistentes’ entre os 55 membros da CAF. Conviver com hipocrisia, sorrisos amarelos e traições vai ser a ‘entrada’ de um ‘buffet’ que há-de servir-lhe de tudo, um pouco. E nesse preenchimento de áreas de poder, Rui Campos poderá vir a caber.

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