Jornal dos Desportos

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Opinio

Artur Almeida e os sete andares

20 de Agosto, 2018
Certo dia, o então seleccionador dos Palancas Negras, Manuel José, à saída do CAN de 2010, realizado na nossa terra, sentenciou, o seguinte: ”Angola tem de fazer progressos antes de pensar em vencer o CAN. A ambição tem de ser moderada e realista. Sob a minha liderança, nunca fomos inferiores a ninguém, mas é impossível vencer uma corrida de Fórmula-1 com um Fiat-600”.
Gostei este trecho em que ele compara:”é impossível vencer uma corrida de Fórmula-1 com um Fiat-600”.
Ele teve e continua a ter razão, porque ainda há dias, o presidente da Federação Angolana de Futebol, Artur Almeida, já revelou que, esta instituição que dirige, só recebeu 250 mil dólares americanos para apoiar as selecções nacionais, lembrando, também, que a FAF depende muito dos patrocinadores, que também reduziram as suas ofertas, em função da crise económica que afecta o país.
Eu acho, como jornalista desportivo, que o futebol feito assim é de mentira. E quem, entre nós, um dia disse-nos, que o nosso futebol é de mentira foi o senhor dirigente, que se chama Victor Geovety Barros.
Ele, até mesmo dentro das instituições do Estado - porque já foi director nacional dos desportos -, naquele tempo de “democracia fechada\", criticou de peito aberto o modelo de gestão do nosso futebol.
De tanto dizer estas verdades, não vou todos os que, em sinal de concordância, assinam por baixo as suas afirmações, mas Armando Machado, outro simpático homem de futebol, bastas vezes dono de, igualmente, boas verdades - verdades que doem como se diz -
Olhando para a pirâmide do nosso futebol, disse também, para quem o quis ouvir, que… “a concepção e organização do futebol de Angola está mal, é como uma espécie de edifício de sete andares...sem alicerces seguros!”
O problema é que muita gente houve estas verdades, sabem que o futebol nacional está mal, mas, em vez e ao invés de encetarem correcções, persistem no erro e vão daí as desgraças que a modalidade rainha arrecada em grande escala, porque os sucessos, esses, acontecem ao acaso. O exemplo é a ida “ a calhar” ao Mundial da Alemanha em 2006. Mentira?
Mas também, Artur Almeida, tendo prometido, duas vezes, em campanha eleitoral, muitas mudanças na estruturação das competições internas, insiste que o campeonato nacional da primeira divisão - e mesmo o da segunda - continuem a ser disputados em moldes que, do ponto de vista económico, retira prestigio e concorrência equilibrada. E porquê?
Porque, está mais do que visto, do lote das dezasseis equipas que fazem a geografia no Girabola ZAP, não representam o País. E só poucas, muito poucas mesmo, como 1º de Agosto, Petro de Luanda e Interclube, é que possuem capital financeiro, para chegarem ao fim sem as queixas do costume.
Estas poderosas contratam com dinheiros públicos. Competem com dinheiros públicos. As outras arrastam-se, com ameaças de desistência. Como o JGM, o 1º de Maio, Kabuscorp do Palanca, Progresso do Sambizanga, aos quais falta dinheiro para tudo.
Artur Almeida e seus pares, sabem mesmo de cor e salteado que a solução, sem ser mágica, anda a ser sugerida e proposta todos os anos, por pessoas de boas opiniões: que o Girabola volte a ser disputado como aconteceu na sua primeira edição, em 1979, e...ponto final.
As equipas ficariam repartidas em zonas; encontra-se o campeão local e, no fim, as vencedoras jogam uma fase, para a definição do campeão, como já acontece com a segunda divisão.
A questão que se põe e inibi ( e isso é público e notório!), é que esta federação de Artur Almeida e pares, fazem também colagem politica, quando alega que a prova deve continuar da forma como está, porque, alegadamente, simboliza a unidade nacional. Isso é mentira!
É conservadorismo! Não há tendências federalistas na renovação proposta, até porque, sem \"makas\", a nível do nosso Estado, fala-se da desconcentração e descentralização das coisas.
A geografia actual do campeonato, há muitos anos que não conta com a presença de equipas de todas as províncias. A prova que simboliza todo o País, é a Taça de Angola, em que todas as províncias inscrevem equipas e competem normalmente.
Portanto, enquanto houver assimetrias na capacidade financeira das equipas; enquanto não se fragmentar, para outro modelo, o molde de disputa do campeonato, o nosso futebol vai continuar a parecer-se como um edifício de sete andares.
António Félix

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