Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

As medalhas da ginstica

09 de Setembro, 2016
Faz manchete nos últimos dias na media desportiva a problemática das medalhas da selecção angolana de ginástica. Angola voltou a polarizar as atenções pelas piores razões. Pois a selecção voltou a Luanda desprovida das medalhas conquistadas, que ficaram congeladas até que se faça o pagamento de multas em atraso por parte da federação angolana da modalidade.

A situação não terá deixado de constituir um belisco ao orgulho dos atletas, que se esmeraram em competição. Aliás, a entrega destes passou a contar a partir da fase de preparação, em que cientes das exigências de uma competição de carácter internacional todos deram o litro, como soe dizer-se, em busca de performances compatíveis à grandeza da prova.

Sabe-se que em função da galopante crise financeira, anda tudo a minguar. Reclamam os clubes, reclamam as federações e em última instância o próprio ministério de tutela, que também faz recurso à matemáticas para poder atender diferentes áreas e projectos do seu pelouro. Mas, isto não basta para levar o país passar vergonha.

Ontem foram alguns integrantes da delegação angolana aos Jogos Olímpicos a queixar-se da falta de dinheiros, situação apontada, às tantas, como tendo estado na base de algum mau ambiente que viria se instalar no seio da selecção feminina de andebol, e hoje é a ginástica que vem lavar os trapos em hasta pública. Talvez não precisamos chegar a tanto.

Aliás, aqui neste caso último, há uma espécie de "jogo de empurra", em que a federação de ginástica parece sacudir a água do seu capote para assacar responsabilidade ao Ministério da Juventude e Desportos. Mas se é verdade que o Minjud disponibilizou a verba para participação no certame, faltando apenas quatro mil dólares, com base na informação de que dispomos, cabia à federação ver este pendente.

Não é que queiramos sair em defesa do ministério, mas porque pela lógica de procedimento das coisas devia ser assim. Neste caso o valor correspondente ao pagamento da referida multa, podia ser acrescido aos quatro mil dólares que o ministério ficou a dever para a sua liquidação posterior.

Este seria a via mais correcta, salvo se o comité organizador da prova, tenha notificado a delegação angolana já no final da competição, depois de o dinheiro cabimentado ter sido já distribuído ou gasto em outras necessidades correntes. Na verdade, transportada a conversa para o mundo da Sétima Arte, estamos perante uma longa metragem com capítulos não muito agradáveis.

Pelo desempenho que o país teve e pelo número de medalhas conquistadas devia estar a fazer manchetes no bom sentido. Sessenta e quatro (64) medalhas, mais 12 que na competição passada, representa uma evolução fantástica dos nossos ginastas, que não mereciam tamanha desfeita.

Agora que as comadres estão zangas, ao lugar de se envolverem em troca de galhardetes, deve-se encontrar um meio-termo que permita que se proceda, quanto mais rápido, o pagamento deste pendente, de sorte que as medalhas, que por direito pertencem aos atletas, cheguem às suas mãos no mais curto espaço de tempo, e assim se possa evitar situações mais melindrosas ainda para o país, e para a ginástica nacional.

Competitivamente falando, a participação de Angola, segundo classificado do Africano, foi considerada a todos os títulos positiva, sendo um exemplo da aposta que deve continuar a ser feita nas modalidades individuais. O mérito da federação à mando de Auxílio Jacob é que a ginástica tem vindo a consagrar talentos de ano para ano, e que bem moldados nos centros especiais de treinos podem seguramente garantir a sua afirmação no contexto internacional.

Por tudo isso, não devemos criar situações que os desanimem, como esta que viveram em Windoek. Se trataram de cumprir com a sua parte, compete agora às estruturas administrativas corrigir o que estiver errado, para que estes heróis, embora tardiamente, recebam as suas medalhas e possam soltar o sorriso de campeões.
Matias Adriano

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