Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

As vielas do nosso Desporto

06 de Setembro, 2018
Vivemos um período de forte recessão económica, disso tem domínio o cidadão comum. Do economista ao engenheiro, do médico ao professor, do jornalista ao arquitecto, do estudioso ao iletrado. Afinal, com excepção de quem no tempo das vacas gordas ousou botar as mãos nos dinheiros públicos, sentimos todos o aperto da vida, com o vil metal cada vez mais foragido.
O sector desportivo viu-se, por via disso, terrivelmente afectado, não fosse de forte exigência, face aos seus mil e um compromissos. Hoje, quase todos os gestores desportivos vivem a lamentar-se, sujeitos que estão a fazer das tripas coração, para fazer face às acções ligadas ao seu exercício profissional.
É sabido, também, que a crise económica inibe o sector empresarial de abrir-se à cedência de patrocínios. Hoje, muitas empresas que apoiavam algumas instituições desportivas, deixaram de o fazer. Se o fazem, será, seguramente, em menor escala. Portanto, os tempos não são bonançosos para a actividade desportiva.
Quando são tecidas críticas felinas e mordazes a determinados dirigentes desportivos, devem ser levados em conta todos esses pressupostos. Claro está, sabemos que nem tudo vai bem com o nosso desporto, em que até modalidades que foram num passado recente verdadeira fonte de orgulho patriótico, estão à mingua. Todavia, olhar para os seus dirigentes como causadores deste quadro ruim, pode cheirar a alguma injustiça.
Fala-se à boca pequena, que Artur de Almeida e Silva e Hélder Cruz “Maneda” assumiram os pelouros do futebol e do basquetebol apenas para causar o caos. “Deviam antes, ter pensado noutro desafio, menos no que abraçaram”. Se calhar, não precisamos chegar ao extremo, sobretudo, quando se sabe o contexto em que estes chegam às Federações.
Decididamente, o momento actual não pode ser comparado com o passado. Mesmo que eu não esteja por dentro dos procedimentos administrativos das Federações, arrisco em dizer que a injecção de dinheiros que conheceram estes órgãos federativos nos mandatos anteriores, não se verifica hoje, estando os seus gestores sujeitos a alguma “ginástica”suplementar para desenvolverem acções programadas.
Quando a selecção de futebol fica privada de jogadores profissionais, por incapacidade de aquisição de passagens, a culpa não pode nem deve ser assacada por inteiro à FAF. Quando a selecção de basquetebol aborta um estágio pré-competitivo, por escassez de verbas, a culpa não pode nem deve ser assacada por inteiro à FAB. Quando a São Silvestre corre sem estrangeiros, também, não é a FAA que deve ser crucificada.
Realmente, o actual estágio do nosso desporto não é salutar. Porém, para se apontarem culpados deve ser avaliado um conjunto de factores. Por mim, Artur de Almeida e Hélder Cruz pecam pelo facto de partirem para o desafio, sem fazer uma perfeita leitura de sinais que já eram visíveis, embora, seja verdade que os homens não devem fugir ao fogo.
De resto, o futebol não gozava de saúde, basta notar que não se qualifica para um CAN, desde 2013. Por sua vez, o basquetebol, a nossa galinha de “ovos de ouro”, depois de um reinado de mais de duas décadas, já tinha caído na vulgaridade. Eles apareceram apenas como salvadores. Quem se presta à salvação de algo, também corre riscos.
Portanto, basta lembrar quem eram os dirigentes das Federações e que ligações tinham com o poder instituído. No nosso país, o segredo do sucesso na gestão desportiva, reside na rede de influências do gestor e na capacidade de em abrir portas, na captação de verbas. Fora disso, “é katuta”...
Matias Adriano

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