Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

As vtimas do 27 e a boa vontade do Governo

27 de Maio, 2019
No dia 18 de Dezembro do ano passado ( 2018), para usar aqui uma linguagem desportiva, tomei boa nota do que disse o actual ministro da Justiça e Direitos Humanos quando \"entrou em campo e, abertamente, aos microfones da Rádio Nacional de Angola ter precisado que muitos dos actos ocorridos na sequência do \"27 de Maio de 1977\", atentaram contra os direitos humanos.
\"Houve execuções e prisões arbitrárias. Tudo isso, está um pouco esquecido, mas, precisamos de lembrar, para que não volte a acontecer\", afirmou o ministro sobre o assunto que, inclusive, foi retomada pela casa de imprensa, que é o Jornal de Angola.
Eu, na altura, olhando para os excessos que também se abateram sobre muitos dos grandes actores desportivos daquele tempo, como os \"sambilas\" Ginguma, Kiferro e outros, rememorei também aquele que foi o primeiro alto dirigente desportivo entre nós, cuja família chora, certamente até hoje, por uma certidão de óbito: o senhor Manuel Augusto.
Pensei nele e noutros fazedores de então do nosso desporto, levados sem volta até hoje, porque o ministro Francisco Queirós, naquela sua comunicação pública mediatizada, deixou em aberto a possibilidade de as famílias afectadas poderem ver como resolver a questão das certidões de óbito e de outras matérias que têm a ver com os acontecimentos do 27 de Maio, embora, tenha frisado que na maior parte dos casos não será fácil fazer-se o reconhecimento, caso sejam encontrados os restos mortais.
Disse, na altura, que noutros casos \"será mesmo impossível, por não haver corpo\", acrescentou que \"as famílias têm de ter sempre em conta essa limitação.
Eu acho que, nesta segunda-feira, 27 de Maio, com o país a viver um \"novo ciclo político, que trouxe um ambiente que vai sarar muitas feridas\", é uma soberana oportunidade de, também no campo desportivo, reconhecer os feitos daqueles que tragicamente desapareceram neste sector da vida social e política que é o desporto e dar-se um conforto e certidões que venham a pôr fim à uma \"procura sem fim\" dos seus pares.
Em boa verdade, reza assim na história desportiva, o cidadão Manuel Augusto foi o primeiro responsável do sector, no primeiro Governo, com o cargo de coordenador do Conselho Superior de Educação Física e Desportos, até desaparecer no 27 de Maio de 1977.
O seu substituto foi Hermanegildo Vieira Dias de Sousa, seguindo-se Rui Mingas, Osvaldo de Serra Van-Dúnem, Marcolino Moco, Sardinha de Castro, Justino Fernandes, Barcos Barrica , Gonçalves Muandumba, Albino da Conceição e Ana Paula Sacramento Neto, actualmente em funções. Manuel Augusto certamente deixou feitos que, em 44 anos de Angola independente, fez que o nosso desporto se revele como um dos sectores da vida social que muitos ganhos e alegrias proporcionam .
Foi durante o seu consulado que, a partir de certo momento, o país registou um acentuado crescimento, em termos do que se pode denominar \"população desportiva\", porque de 1975 até ao ano de 1990 houve um grande \"boom\" na massificação e prática desportiva que, no entanto, só refreou no seguimento dos Acordos de Paz de Bicesse, em 1991.
Eu acho que, a nivel de clubes, o Progresso do Sambizanga é o que mais gente viu desaparecer. Fundado em 1975, por João Baptista Leitão Ribeiro \"Kiferro\" ou \"Man Kaife\" ̶ com craques da bola, como o também sumido Ginguma, Praia, Augusto Pedro, Salviano, Luís Cão, Santinho, Manuel, Lino, Jaimito, Franklin, entre outros ̶ teria uma bonita história de ganhos desportivos, se não ficasse, como ficou até hoje...pelos excessos registados.
O meu colega (jornalista) Pascoal Mukuna , antes do seu falecimento, há três anos, sempre sonhou ver passada a certidão do seu irmão Ginguma. Oxalá, os seus parentes tenham essa sorte! António Félix

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