Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Assim entramos a perder...

11 de Maio, 2019
No ar paira uma sensação que não é nova. Recordo como havia comentado, que alguns países já haviam perdido desde a saída do sorteio, no Cairo, para a Copa de África das Nações. E não era só o Burundi, que estava sem fundos para tal, nem o Mali, que havia tido a honestidade de lançar uma campanha de angariação pela voz e figurado do próprio Ministro da pasta que se ocupa lá do futebol. E isso faz toda a diferença no começo.
Entre nós, nem o Ministro, nem o Director nacional do ministério parecem minimamente preocupados com os “Palancas Negras”, quanto mais com os “Diamantes negros da bola ao cesto”, por hipótese e para tratarmos todos pelos apelidos desportivos de família. Eles não se ocupam com o desporto de alto rendimento mais do que o trivial porque o ministério ficou imaturo, apesar de lá ter bons maduros. Mas o artigo não deve versar sobre a instituição-mãe, mas sim sobre a nossa idiossincrasia desportiva.
Se fosse o jiu-jitsu brasileiro, que nos trouxe, há uma semana, 4 cinturões campeões do mundo, entenderíamos, visto a própria federação da modalidade aparentar ser uma associação livre auto-proclamada. Contudo, vou falar do \"Cinco\" e do \"Onze\" nacional masculinos que vão a campeonatos do mundo e africano, respectivamente.
De facto não vai poder haver comparação entre objectivos e , mais ainda, capacidades duma e doutra terem objectivos iguais, menos ainda parecidos, excepto numa coisa: ambos os conjuntos atravessam uma fase de rejuvenescimento alargado e ainda em curso. Ainda assim, na actualidade os seus estofos diferem e muito.
Enquanto a selecção nacional sénior masculina de basquete está a iniciar um ciclo de renovação, a de futebol sénior masculino está sedimentar resultados de duas campanhas em já dois anos consecutivos e que fazem a diferença. Enquanto o “Cinco” veio decaindo nos últimos 2 anos, o “Onze” tem subido, quer em ranking, quer em objectivos (1/4 CHAN, 2018) e (1º do grupo de apuramento ao CAN).
Como se tem visto, até os títulos que Angola ganha fora do olimpismo, mereceram as mensagens públicas dos mais altos magistrados da Nação, daí que o argumento do ser ou não ser modalidade olímpica, se houver, seja uma falácia. Na realidade, o Executivo não tem sido sensibilizado para apostar nas selecções mais fadadas ao êxito, para irem lá fora dignificar Angola e dar um banho da nossa imagem limpa ao vivo e a cores, para o Planeta inteiro ver na tv satélite.
Eu duvido que, à última hora, não haja um Plano B, porém, é esta idiossincrasia do improviso e dos arranjos à última hora que são já nossa marca, lamentavelmente. A metodologia é fundamental para o êxito e este nosso novo estilo de administração de última hora é o primeiro mau sinal para um atleta, habitualmente atento ao meio que o envolve e às condições em que se trabalha, se move e também, se aguarda. E sentados vamos esperar.
Assim o meu texto de hoje vem a propósito da sistemática repetição de comportamentos amadores ou, no mínimo de fraca diligência, que envolvem a programação das actividades de interesse nacional, que como se sabe não podem ser apenas políticas, parlamentares, económicas e diplomáticas, militares e de crise. E de crise em crise.
Há um mínimo nacional donde não se pode passar abaixo, e tal é o caso da selecção nacional de futebol de qualquer país, por questões de Mercado, e aqui refiro-me a mundial. O problema é que o nosso país ainda não conseguiu criar mercado, então é grande em território e população apenas.
Um país como a Nigéria, com perto de 150 milhões de habitantes, se cada um doasse meio dólar, a selecção teria 75 milhões de dólares para se preparar, sem precisar de bater à porta do Minjud deles. Outro exemplo é do clube Al-Ahly, com 30 milhões de adeptos e que se precisasse de ajuda, bastariam 50 kwanzas de cada um para render mais de 4,6 milhões de dólares, simplesmente a lei deles não permite colectas assim.
E nós, podemos gostar muito do nosso clube, mas gostamos também da nossa cervejinha de toda a hora. E aprendemos a desconfiar das campanhas de mobilização, por nos terem habituado a quem se saísse bem de tanto aproveitar. Assim, sem Mercado, e de bolsos vazios, não há paixão desportiva que se prive de uma geladinha e está encerrada a discussão de que, pela via popular, a selecção não iria lá chegar.
A comparação de mercados apenas serviu para percebermos os patamares de grandeza efectiva e aqueles números que depois podem não ter tanta expressão, como é o caso angolano. Mas é preciso lutar contra todas as adversidades, menos aquelas que já emanarem com a chancela da chefia, e que são simplesmente para se obedecer.
Paira um silêncio a respeito, e do basquetebol já nem puxo mais a brasa à sardinha, visto ainda lhes faltarem 113 dias para o Mundial (China, 31.08 - 15.09), contrastando com 44 dias para o começo do CAN (Egipto, 21.06 – 19.07).
Visivelmente derrubado, o seleccionador e a equipa técnica aproveitaram para ir à terra arejarem, enquanto por aqui nos cozinhamos e desunhamos para ter as condições prontas, afim de terminarem os campeonatos e serem recepcionados os atletas, sem grande possibilidade nem conveniência de paragem. É um aperto para qualquer estômago que quiser agir profissionalmente e perceber que nestas delongas, já vamos entrar a perder.
E não se trata de uma falta de previsão orçamental, mas apenas de uma orgânica mal concebida, na minha opinião, pois manter o desporto de alto rendimento refém de um ministério aturdido com a agenda da juventude e sem manifesta apetência desportiva, nem competências que ressaltem para tal, para além de haver menos de 30 por cento do orçamento da casa, para todo o desporto.
Assim e para concluir, a sensação nesta estrada não é nova, nem me cheira a boa coisa por esse andar, pois, desde 23 de Março que sabemos que vamos ao CAN e, volvido mais de um mês, ainda não sabemos quando, nem em que condição iremos.
No dia do sorteio do CAN é quando se acertam os jogos que interessam às equipas, para se prepararem, e nesse dia estávamos de bolsos vazios ainda, o que significa, sem saber onde nas datas propostas haveremos de estar ainda, se em terra e dispersos sem saber como há-de ser, ou se já fora de casa e para estágio, mas ainda em apuros para os primeiro pagamentos.
Ambos os cenários são já useiros cá em casa, portanto são já parte da nossa idiossincrasia, que continuará a sair-nos cara, pois não nos dá sossego para fazer-se o trabalho desportivo. O engraçado é que a verba sempre aparece, mas no fim e para uma equipa já angustiada. No limiar do perigo já nós estamos, pois, enquanto não estivermos aptos a poder aceitar jogos, estaremos a perder adversários para os jogos de controlo necessários.
Duma assentada e logo na primeira semana pós-sorteio, Angola viu escorregar entre os dedos os três convites mais importantes que havia recebido: Argélia, Egipto e Marrocos. Os três países quiseram jogar connosco, mas nós ainda estamos sem dinheiro para nos poder meter em compromissos, nem poder fazer planos. Não se tem ainda uma previsão de quando a selecção se possa reunir, nem começar a estagiar. Ora, assim sendo, bem fez o seleccionador em abalar imediatamente de férias, voltando a sua casa e ficando à espera de notícias nossas.
E assim indo nós, cada dia e semana que passarem, mais se atrasa o nosso comboio para o Suez. E esta viagem implica a necessidade de fazer algum estágio pré-competitivo, que poderá acontecer ainda no Algarve e sul de Portugal.
Ora, se assim for, ainda nos restam três possibilidade de jogar amistosos de controle, dois deles contra Cabo-Verde e Guiné-Bissau, a jogar-se na nossa casa comum, que é Portugal. Entretanto e para jogar em solo espanhol, temos ainda de pé um convite para testarmos também os Camarões.
Se depois destes seis países agendados, dos quais perdemos já os três primeiros, não forem aproveitados os três que restam, então, sim, a nossa condição de chegada ao Suez será idêntica à do Burundi, mas pior que a do Mali.
Como havíamos visto antes, estes países estão, tanto quanto nós, a lutar contra as mesmas dificuldades, porém, enquanto os “Onze” deles são jogadores melhores rodados em campeonatos mais competitivos na Europa e no próximo-oriente, os nossos vão aparecer na sua maioria temperados apenas com o molho do nosso “Girabolinha”.
Se os convites cabo-verdeano e guineense se mantiverem, nada mau para o nosso remedeio, porém, a vida de remediado nunca foi condigna para se poder aspirar a conseguimentos significativos, muito menos no desporto, onde mais do que o estímulo com prémios, primeiro é preciso o estímulo do físico num estágio.
Seja como for, já estamos a trilhar um caminho mais apontado para o debalde, do que para o êxito, enquanto aqui estivermos sentados e à espera do que há-de vir e não se sabe de que tamanho será. A verdade é que se os atletas perceberem a precariedade dos meios postos à sua disposição, será forte a desmotivação e grande a probabilidade de terminarmos o tão desejado CAN, sem a mínima satisfação ansiada pelo nosso Povo. Arlindo Macedo


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