Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

At onde chegaremos assim?

22 de Março, 2018
A era da globalização trouxe uma abertura dos mercados para a qual muitos não estão ainda preparados. Não é sem razão que ao nosso país aporta uma certa camada de treinadores e de praticamente as mesmas origens de sempre, porventura dum triangulo sul-sul-leste que sempre serve a nação à feição, pelo menos, ali onde o desporto angolano não arrancava à sua própria custa.
Sim, o desporto angolano arrancou quando havia o INEF; e começou a morrer quando ficou sem ele no nível que era preciso. Mas entre berço e morte, o instituto formou muitos futuros quadros-chave para o desporto na Angola que se havia começado a construir independente.
Foi desse alfobre do INEF que emergiu nos Anos 70 aquela plêiade de antigos bons alunos daquele instituto – diria até duas gerações de ouro que dali saíram nos Anos 70-80, que irrigaram com a sua seiva o atletismo, andebol, basquetebol, futebol, natação, voleibol, etc., num tempo em que inclusive tentava nascer o hóquei em campo, no Bungo, e teve vida de morte precoce.
Havia emblemas que viviam só de mística, o Atlético, Belenenses, Ferroviário, Futebol Clube Luanda, Sporting, Vila, etc. onde nasceram autenticamente desportos, se falarmos dos primórdios do andebol e do basquetebol, referindo-nos à capital.
Antigos atletas e estudantes sustentavam a vida dos primeiros clubes e federações, tendo boa parte chegado ao escalão de seleccionadores nacionais, em andebol e basquetebol, e mais tarde também a aparecerem no futebol. A sua matriz comum era o INEF e realmente comprova-se que era tudo um harmónio com o desporto nacional e em geral, graças ao desporto implementado no sistema de ensino que havia.
Fruto disso, Angola teve a segunda metade dos anos 80 uma explosão desportiva, que só em termos de equipas de andebol escolar, passara das 4 dezenas e em ambos os sexos, distribuídas por várias províncias do país. Isso era já uma evidência de que havendo um projecto – e havia – pode um país tornar-se quase auto-suficiente, desportivamente falando, por ser o que é preciso juntar aos pressupostos que o país tiver, como infra-estruturas e treinadores.
Quem tinha centenas de professores de educação física espalhados por mais províncias que os dedos de uma mão, época em que nos liceus e escolas secundárias havia quadras e ginásios, podia ainda assim, ter explorado melhor as bases desportivas do sistema nacional, mas, isso foi apenas um sonho idílico.
Mas eram esses os activos do desporto angolano e era esse o projecto natural que havia e se renovava a cada ano, como que por encanto, e como tudo o que é bom demais, algum dia se pode cair desse sonho e acordar na pior, que é um pouco do que mais temos visto ultimamente no nosso panorama desportivo.
Em uma só frase e passadas duas repúblicas mais, o desporto é uma sátira actual do que pode acontecer a um país que parecia ter o rumo certo do desenvolvimento desportivo em África, de que resultava uma avalanche de títulos consecutivos em disciplinas que espelham também a organização desportiva, como vinha sendo historicamente o papel do basquetebol angolano, mas continua sendo com o nosso andebol.
Pelo caminho foram ficando outros emblemas de carisma e mística que havia em Angola, como o Futebol Clube Uíje, Dinizes, União da Catumbela, Benfica e Sporting de Benguela, Ferroviários do Lubango e do Namibe, etc., que não veriam a cor do ouro, mas deram o cabedal no início e infelizmente acabaram moribundos, na sua maioria.
Sem sócios, sem um subsídio que chegue para todos, o desporto não sobrevive apenas do bairrismo, ou nem sequer arranca; muita da iniciativa da sociedade civil resume-se a uns poucos clubes e a cultura desportiva que havia na sociedade, aos poucos se foi perdendo. Tudo isto por falta de um projecto que irrigue desportivamente a sociedade.
Em uma viagem que me levou recentemente a descobrir paisagens onde caberiam tantos sonhos do futebol, por exemplo, foi em Ndalatando que me voltaram a mostrar o Campo dos Dinizes, algo muito inspirador para uma região que ficou com as cinzas do seu glorioso antigo emblema, que ninguém, nem mesmo o Governador deve saber, se vai ressuscitar a tempo de ser restaurado e servir a juventude local. É para dizer que o futebol dali, que era um feudo, hoje parece morto, mesmo se o Porcelana nasceu e quer mostrar viço.
Os grandes emblemas nunca deviam morrer, pois, o seu desaparecimento significa a morte de algum sentimento e normalmente é o bairrismo que se apaga. As pessoas migraram e as correntes dos tempos em Angola estão a suceder-se a um ritmo acelerado e sem preservar o necessário património, que é outro dos activos ameaçados para além dos naturais talentos desportivos, treinadores e metodólogos, que mesmo sendo poucos, contam como activos do país no sector do desporto.
Ndalatando é apenas uma das cidades-fantasma do desporto angolanos, como parecem igualmente hoje, Malanje, Negage, Uíje, Mbanza Congo, etc., que mal conseguem ter um clube de futebol local e isso é outro sinal preocupante, mas sem aparente atendimento, intervenção ou simples injecção que se veja; e ter-se um clube, de futebol tendencialmente, em acção, pelo menos para os jovens da vila, ou mesmo de uma cidade, é uma acção de massas que não surge quando às iniciativas, não é dado qualquer projecto.
Em Ndalatando, precisamente, havia a esperança de ver crescer um projecto que anda (ou andou) a dinamizar Zé Carlos Guimarães, em correlação com o Governador do Cuanza-Norte; o mesmo tipo de acção em rol da massificação desportiva local vinha tendo também Alberto de Carvalho “Ginguba”, no Cuando-Cubango, com o agora ex-governador, e será lamentável se isso não for mantido pelo novo Governador em Menongue.
Por partes, o país desportivo tem andado a morrer. E tal não se pode apenas atribuir a falta de suficientes subsídios do estado, pois, muitos países como Angola fazem regularmente desporto a sério, em África, e competem a nível continental e mundial com menos de metade do que nós gastamos em Angola só para jogar os ‘Nacionais’. O nosso desporto é realmente uma farsa a precisar de ser desmontada aos poucos.
Os activos do desporto angolano têm sido sistematicamente desperdiçados, desde que a Juventude começou a pesar no Desporto, politizando o sector e desidratando muito do saber ali concentrado na Primeira República. De lá para cá, o eclipse de indivíduos que vinham sendo pilares em certos desportos e clubes, acentuou-se, deixando amplas zonas de apagão desportivo.
Houvesse um projecto e também haveria hoje uma geração melhor preparada para dirigir o desporto nacional, assim como para manter com alto nível o treinamento dos atletas e equipas de alto rendimento em variados desportos, que cada vez temos menos, para agravamento do estado desportivo da nação, a viver os piores momentos do seu amadorismo.
Existe uma postura politicamente ambígua da relação do Estado com o desporto, em que serve para as federações internacionais punirem o país se o seu governo interferir na federação de qualquer desporto; a ambiguidade está também em que as mesmas federações internacionais sabem que os governos subsidiam o desporto e as próprias federações, que poderá parecer um favorecimento à intromissão do Estado em algo mais do desporto, que dar-lhe subsídios.
E isto não fica por ali. Quando o Ministério alegar que o seu papel é apenas subsidiar o desporto, eventualmente dar balizas para a sua organização, actuação e desenvolvimento, ali é que vai estalar o verniz que ainda apresenta o desporto angolano.
O MINJUD tem que ter políticas e projectos, vários, tantos quantos os problemas que há com a profissionalização da gestão desportiva, a superação e formação de treinadores, e o conhecimento científico actualizado para treinadores e formadores, podendo juntar-se todos os trunfos numa jogada de mestre, que tarda.
Quando há poucos dias acompanhava uma conferência de imprensa, despertou-me curiosidade como os jornalistas falavam sobre a missão do ministério na última década, que fora consolidar as infra-estruturas desportivas do país, e afirmavam que tal fora a matriz dos dois últimos titulares da pasta.
Curiosamente, as infra-estruturas desportivas foram a primeiro grande atractivo para a vistoria e avaliação do sector feita pela nova titular do pelouro, que chegou a lamentar o estado de alienação de boa parte desse mesmo parque de infra-estrutura desportivas despendidas pelo Estado angolano.
É que curiosamente, a mesma década que serviu de consolidação das infra-estruturas desportivas no início, deverá ser a mesma década em que os espaços começaram a mudar de ‘mão’, e quiçá, de ‘donos’. Assim e com os seus activos desbaratados ou depauperado, lá vai o desporto angolano continuando a ver a banda a passar.
Ninguém com uma visão correcta poderá deixar de ver o que se está a passar e que atenta contra as normas de fazer, administrar, fomentar e criar desporto. Este papel não foi retirado ao governo, porém, é cada vez menos perceptível e isso favorece a vida em arquipélago do desporto angolano.
Com escassez de professores de educação física e cada vez mais de treinadores, não sei que mais alarmes espera o país ouvir soar, antes de mais uma hecatombe de uma obra nacional, como já sucedeu com os empórios económicos do país, sucedeu igualmente ao desporto, e parece que sucede em todos os organismos onde os angolanos não aprenderam a construir, tanto quanto têm sabido destruir.
E a falta de uma atitude coerente e de mobilização, para não dizer vigilância activia, era esperado, para se voltar a dar aos principais técnicos, experiências de alto nível, para que lograssem regressar ao país com ideias frescas e baterias carregadas. Isso é que daria algum alento à possibilidade de a médio prazo se poder obter a suficiente densidade de cobertura desportiva que o país pode ter, e precisa, para que o desporto angolano não se resuma a duas sobreviventes, Benguela e Luanda.
A febre genuína que hoje falta ao nosso desporto vem de longe, vem da falta de lideranças jovens, por um lado, e de enquadradores mobilizadores, por outro, e que seriam os activistas que aos poucos esmoreceram e perderam a paixão que exalavam. E por isso, o caso do desporto angolano é igualmente um caso de desilusão da juventude.
Actualmente a fraquíssima presença de angolanos no dirigismo desportivo africano, nomeadamente na associação dos comités nacionais olímpicos e nas confederações dos desportos mais impactantes, é outra consequência da falta de um projecto que, até aos anos Noventa, eram angolanos quem liderava, primeiramente no basquetebol africano, de uma forma que o andebol e futebol não haviam ainda atingido, embora acabassem por lá chegar também.
Não só Victorino Cunha era reconhecido como professor de basketball em África inteira, tendo sido o primeiro coordenador do comité de treinadores africanos de basquetebol, como também havia uma pressão do país, nomeadamente da federação, para chamar a nós, África, o que começou por 3 títulos africanos de júniores masculinos, depois as primeiras medalhas de seniores masculinos, até em 1989 ficarmos com a primeira taça de um Afrobasket.
A modalidade tinha realmente dos maiores génios, de entre todos os que faziam emergir o desporto angolano de rendimento. Havia Mário Palma e Wlademiro Romero, entre os pilares mais importantes da história do basquetebol angolano; e os primeiros presidentes da federação, José Guimarães e Carlos Teixeira ‘Caji’ foram promotores desses feitos, até que Pires Ferreira se tornaria no presidente da federação que descontinuara a nossa luta, quando deixou o testemunho ir parar aos oeste-africanos, dando início ao “ciclo Alphonse Bilé”, actual homem forte da FIBA África.
Tais são os traços de uma derrocada desnecessária, se tivesse havido sempre projecto. Assim e sem um projecto de facto, não é de se esperar que não se percam novos activos do país desportivo.
Estamos a meio, quase, de um novo ciclo olímpico e pouco se sabe, para além de que o m esmo começou em Agosto de 2016, ou seja, faz um ano e meio que era preciso saber para onde apontaria o desporto Angolano nos 4 anos seguintes; e como seria encarada a participação nos jogos olímpicos, e quem seriam os principais focos desta vez.
Por exemplo, quando apareceu o miúdo Pacavira a prometer futuro na canoagem, era quando se devia sentir que o país tinha realmente um projecto desportivo; ou antes disso, quando a Faia poderia aspirar ao bronze olímpico e o tónico havia sido pouco; ou ainda antes disso, quando o tiro, o taekwondo, a vela ou o voleibol de praia, mostraram mais potencial que nunca e tivessem sido modalidades acarinhadas, era então que se devia perceber que existe um projecto.
Assim, sem projecto, com cada vez menos activos, até quando e onde irão resistir as bases do sistema nacional desportivo?
Arlindo Macedo

Últimas Opinies

  • 18 de Março, 2019

    Cartas dos Leitores

    Temos de nos preparar bem para o jogo que será decisivo e estou convicto que iremos fazer este trabalho em conjunto, não temos muito tempo, agurada-nos um trabalho sério contra uma selecção que perdeu todas as partidas.

    Ler mais »

  • 18 de Março, 2019

    L se foi o sonho...

    O Petro de Luanda, até ontem o único sobrevivente angolano nas Afrotaças, não conseguiu evitar a derrota frente ao Gor Mahia FC do Quénia, em Nairobi, num jogo em que estava “condenado” a não desperdiçar, na totalidade, os pontos em discussão.

    Ler mais »

  • 18 de Março, 2019

    Os estreantes e o ritual de integrao

    Igor Vetokele regressa aos Palancas Negras, depois de muito tempo.

    Ler mais »

  • 16 de Março, 2019

    Cartas dos Leitores

    Eu já vi três vezes o jogo, muito sinceramente deu para ver alguma coisa na atitude e reacção de certos jogadores.

    Ler mais »

  • 16 de Março, 2019

    Operao Botswana

    A Selecção Nacional de futebol em honras concentra-se amanhã, a noite, tendo em vista a derradeira jornada do Grupo I da campanha para o Campeonato Africanos das Nações deste ano, a decorrer entre 21 de Junho e 19 de Julho no Egipto.

    Ler mais »

Ver todas »