Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Ataque aos espaos desportivos

10 de Maio, 2018
Vezes sem conta, quando por várias e redobradas razões, somos movidos a estabelecer comparações sobre o futebol actual e o que se praticava nos anos que se seguiram à ascensão do país à independência nacional, a conclusão a que chegamos é da existência de um fosso abismal em termos de qualidade, e, sobretudo, de valores individuais. A razão desta falência foi sempre assacada à falta de campos de futebol nos bairros, desmantelados ao longo das últimas décadas para servir outros interesses, alheios à vida desportiva, tão só porque o enriquecimento de alguns segmentos da nossa sociedade cegou o homem para aquilo que constitui a actividade lúdica das comunidades, na corrida desenfreada atrás do vil metal.
Assim, onde no outro tempo assistíamos a renhidos trumunos de bairro, aos finais de semana, que por sinal lançaram para a ribalta astros que, no auge, povoaram o universo do nosso do nosso futebol, hoje encontramos outra estrutura. Se não um colégio privado, um armazém de perecíveis, e se não isto, um templo religioso destas seitas que emergem como cogumelos.
Andando pelos bairros da periferia luandense, ao fim-de-semana sobretudo, espero que a saga não seja igual noutras capitais de províncias, é regra encontrarmos jovens a travarem uma renhida peleja em pleno asfalto, não só embaraçando automobilistas, como colocando, em última instância, em risco a própria integridade física. De resto, a estrada em parte alguma do mundo é feita para a prática de futebol.
Em face deste cenário não temos, se calhar, nenhuma legitimidade em exigir estrelas nas nossas equipas à escala do passado. Alguém, com certa razão, poderá rebater esta tese, sob argumento de que é nas academias de futebol onde se fazem os \"craques\". Seja-me permitido dizer que a par destes lugares os recintos baldios nas comunidades são também de grande serventia.
Se desafiarmos partir para um inquérito aos jogadores que nas décadas de 80 e 90 espalhar o perfume da sua classe na nossa praça futebolística, todos tiveram como berço os pelados que proliferavam nos seus bairros, nas suas aldeias, nas suas vilas.
Quem é viajado, e que tenha tido privilégio de se passear pelos bairros de Yaoundé, Accra ou Abidjan estará plenamente de acordo comigo. Há campos de futebol em cada esquina.
Não é sem razão que nos primórdios do Girabola quase todas equipas tinham duas, três ou mais referências. Mesmo aquela constelação que em 1981 veio revolucionar o 1 de Maio de Benguela e um pouco do Petro de Luanda, não vinha de grandes clubes. Boa parte destes eram meros animadores de pelejas sabatinas nos pelados dos bairros periféricos de Kinshasa. No entanto, cá chegaram e conquistaram lugares cativos até na Selecção Nacional.
Esta reacção vem a propósito de notícias que nos chegam, por via de alguma imprensa, da existência de alguns casos, pelo menos em dois municípios de Luanda, a ver com a ocupação de recintos desportivos, por empresários particulares, situação que coloca as autoridades administrativas e os munícipes numa espécie de guerra sem quartel. Poupem-se os poucos espaços desportivos que restaram do camartelo.
MATIAS ADRIANO

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