Jornal dos Desportos

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Opinio
por Augusto Fernandes

Atleta da seleco pode fazer greve?

04 de Julho, 2019
A palavra greve é definida com o sendo a “cessação colectiva e voluntaria do trabalho realizado por trabalhadores, com o propósito de obter direitos ou benefícios, como aumento do salário, melhoria de condições de trabalho ou direitos trabalhistas ou para evitar perca de benéficos.
Resumindo, greve é a cessação colectiva e voluntaria de quaisquer actividades remunerada ou não, para protestar contra algo que prejudique o trabalhador”. Em função desta definição a questão é: um jogador ou atleta, que esteja a representar a selecção do seu país, pode fazer greve? Em primeiro lugar, temos de ter em mente, que um jogador de selecção não é ou seja não pode ser considerado um trabalhador, mas sim um indivíduo em missão de serviço do Estado. Por isso é que ele não tem uma mensalidade.
Nestes casos estamos diante de duas situações:
1– Por ser cidadão do seu país com direitos e obrigações, o Estado pode escolher um ou mais indivíduos com aptidões, para representá-lo em determinada missão, quer seja desportiva, militar, cientifica e assim por diante, em nome de todos os cidadãos.
2– Como o indivíduo tem direitos, o Estado assume todas as responsabilidades relacionadas ao cumprimento da missão, como, por exemplo, pagamento de passagens, alojamento e saúde, enquanto estiver em missão de serviço, e outras necessidades importantes para o êxito da missão.
No entanto, os direitos estão em paralelo com as obrigações. Por isso é que se diz que todo o cidadão “é igual perante a lei”. Assim, representar uma selecção nacional de qualquer país é uma questão de estado, assim como, por exemplo, todo o cidadão do sexo masculino em idade militar é obrigado a apresentar-se e se estiver apto fisicamente é alistado para servir no exército.
Portanto, o apresentar-se obrigatoriamente para o recenseamento militar e, posteriormente, ser incorporado nas fileiras do exército, faz parte das obrigações do cidadão, perante o estado ou a nação em que pertence. Será que existem motivos, para o cidadão negar-se a cumprir uma missão de estado, quando estiver apto para tal? Não!
Entretanto, em alguns casos, algumas pessoas por uma questão de consciência, por influência de orientações divinas, ou outros motivos que eles consideram como sendo a autoridade máxima, não aceitam participar de uma missão do estado, que os faça violar um mandamento ou orientação divina como, por exemplo alistar-se, nas Forças Armadas.
Nesses casos, tal cidadão também estará disposto a arcar com as consequências da sua negação ou insubordinação. Não tem como esquivar-se. Em função destes argumentos, podemos voltar a nossa atenção ao tema deste artigo. O jogador de selecção pode ou não fazer greve? Em função dos pressupostos acima avançados, podemos concluir que o jogador de selecção não pode fazer greve, conforme a definição ou significado desta palavra. Mas tendo em mente que, além das obrigações, ele também tem direitos, o máximo que pode fazer é protestar ou seja reclamar pacientemente, até que os seus direitos, como prémios de jogo, diárias e outras benesses, lhes sejam dadas.
Mesmo sem receber os seus direitos, o jogador ou seja o cidadão, que representa uma selecção nacional, deve cumprir com a sua missão vigorosamente até ao fim dela, sem interrompê-la, sob pena de ser punido severamente. Em última instância, em caso de não ver satisfeita a sua reclamação, deverá recorrer as instituições legais para que se reponha a verdade dos facto, não importa o tempo que demore.
É importante que os atletas que são convocados para representar o país em qualquer competição, estejam cônscios desta realidade, para evitarem situações desagradáveis para si mesmos. Um grande exemplo disso foi o que aconteceu com alguns jogadores do 1º de Agosto, que, na época de 2018, não se apresentaram aos trabalhos dos Palancas Negras, com argumentos que não convenceram as autoridades desportivas do país ou seja da Federação Angola do Futebol (FAF).
Como consequências, tais jogadores foram punidos com penas de até 60 dias sem jogar e o clube militar teve de pagar algumas multas. Este relato serve de exemplo, para entendermos a grande responsabilidade que pesa sobre os ombros de um cidadão, que tem o privilégio de ser convocado para representar o país, numa missão que é considerada nobre por todos os cidadãos. Por isso, se um cidadão achar que não quer representar uma selecção nacional, deve ter argumentos bem fundados para que sua negação seja aceite. Não é uma questão de querer ou não. Ninguém pode dizer “faço se quiser”, quando se trata de uma questão de Estado.
Em cumprimento de missões do Estado, alguns até podem ficar prejudicados por toda a vida ou morrer, como aconteceu com muitos jovens e adultos em várias partes do Mundo. Mas, mesmo assim, o cidadão, deve primeiro cumprir e depois reivindicar.
Por isso é importantíssimo que desde a infância, especialmente nas escolas, os cidadãos sejam bem informados desta realidade. Entretanto, o mesmo já não se dá no caso de clubes, pois aí o atleta tem um contrato salarial e as obrigações e deveres são feitas por ambas as partes: o contratado e a contratante

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