Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Bendito sindicato!

14 de Fevereiro, 2019
Dois episódios chamaram a minha atenção nos últimos dias, sendo um deles o ‘dia seguinte’ da morte do futebolista argentino Sala, em acidente aéreo, e o sorteio da “Segundona” que está a gerar protesto. A minha abordagem deve-se ao facto de ambos os casos serem dois bons alertas para a navegação desportiva em Angola.
Quando no mesmo período segui um debate na tv moçambicana, foi curioso notar que somos mesmos os mesmíssimos, e lá definem que o profissionalismo é amador, pois, de profissionais têm apenas os deveres, mas os direitos continuam amadores.
O que sucederia se nos ocorresse outra tragédia aérea com uma equipa de clube ou selecção a viajar em serviço? Que garantias têm os viajantes de que vão em serviço, mas irão segurados? E não se trata apenas de viagens, mas também se pode tratar de acidentes em serviço. Na última quinta-feira, 10 garotos perderam a vida num incêndio no complexo de treinos do clube brasileiro Flamengo porque se achou que o sucedido jamais poderia ocorrer.
Além de desprevenidos, pouco precavidos e por demais explorados no contrato, os desportistas, sejam eles atletas ou treinadores, ou técnicos especialistas da área de suporte, como médico ou kinesiterapeuta, a quase totalidade dos nossos desportistas carece de melhor aconselhamento e assessoria jurídica, mas entre a figura do agente e a do sindicato, é esta a que mais bases concede à classe dos desportistas.
O ideal seria se a classe dos desportistas e a classe dos dirigentes desportivos pudessem acasalar solidariamente e bastando-lhes para tal terem uma carta de princípios que devem rechear o reconhecimento recíproco e as relações entre si. Tudo isto pode ser igualmente uma criação da administração do Estado, para regrar o funcionamento do sector do Desporto. Mas isto é um quadro idílico apenas, pois os agentes desportivos e particularmente os clubes não desejam uma relação de igualdade, mas de superioridade, com técnicos e atletas.
Os primeiros acham que são patrões, mais do que sabem ser gestores; o bom gestor é líder e líderes dão exemplos. E os exemplos custam sempre caro porque costumam ir contra a tendência desviante do Patronato ser mais pelo lucro, do que pela reciprocidade. Ainda creio que o advento de um sindicato dos desportistas venha ajudar a regular o Mercado do futebol, a endireitar os patrões dos clubes que são ainda reaccionários para com a verdade desportiva e a essência do desporto.
Na teia das relações familiares e clubísticas em que os atletas estão normalmente envolvidos é também comum ocorrerem disparates, como os parentes ou amigos agentes não saberem negociar e deitarem a perder ganhos que um futuro radioso haveria de apreciar receber, se outro tivesse sido o contrato. Por exemplo e falando de jovens, repito o exemplo de Emiliano Sala.
Deve o clube galês Cardiff terminar de pagar pela sua assinatura? A disputa entre o clube francês Nantes e o Cardiff resulta de um acaso dos tais inesperados. O Nantes quer receber os 17 milhões de euros pela transferência do atleta, que o clube de Gales suspendeu pagar quando se inteirou que não haveria mais Sala. Presentemente eles declaram-se dispostos a pagar apenas juridicamente o pagamento for ainda devido. No meio aparece uma questão técnica que pode comprometer o efeito do seguro, mas ia segurado ao menos. É um exemplo que o jovem Sala, aos 29 anos, nos deixa.
O clube da ‘Premier League’ ia fazer a assinatura mais cara da sua história. A BBC alega que o Nantes ameaçou o clube galês com uma acção judicial se não receber algum pagamento nos próximos 10 dias. Além disso, o cube francês Girondins de Bordeaux tem direito a receber uma parte como direitos de treinamento do atacante argentino. E isto ainda não fica por aí.
O episódio seguinte é um alerta aos clubes formadores sobre os seus direitos. O clube espanhol Playas de Calviá, da Terceira Divisão, quer cobrar os direitos de treinamento de Emiliano Sala quando o Cardiff e o Nantes chegarem a um acordo. Sala jogou com 17 anos naquele pelo Soledad (2006-7), clube de Palma que foi depois absorvido pelo Playas de Calviá, em 2016.
Como Emiliano ali havia chegado por meio da escola de futebol \"Proyecto Crecer\", o Playa já consultou a FIFA sobre direitos a cobrar. Sala chegou ali com 16 anos juntamente com outros jovens futebolistas argentinos que tentaram abrir um caminho profissional na Europa. Esse é o desejo da maioria e um desafio para alguns, que convém estar informados antes de partir, para melhor se poderem defender.
Sem um conhecimento jurídico-económico nas associações de classe, como atletas e treinadores, não se organiza direito o desporto e um sindicato forte pode ajudar a distribuir melhor os recursos postos à disposição do desporto, para que disso possa resultar uma moderação necessária nas taxas de custos do ‘fazer-se desporto nacionalmente’, pois, sem distribuir melhor, nem moderar os ‘cachets’ que cobram sobretudo atletas e gestores de infra-estruturas desportivas pelo uso das mesmas.
O desporto tende a diminuir mais ainda, no país. E mais pobre se fica quando não se previnem novas perdas. Doravante já não será por falta de aviso, mas de acção. E de fiscalização. O serviço nacional de Bombeiros deve certificar todas as instalações que abrigarem massivamente pessoas, a começar pelos mercados populares.
O incêndio no Flamengo ocorreu precisamente na moradia dos mais jovens jogadores, no Núcleo Esportivo do Ninho do Urubu, no do Rio de Janeiro, faz hoje uma semana. O fogo destruiu os alojamentos dos jovens jogadores do clube, deixando ainda dez mortos, dos quais seis atletas e quatro empregados. Um cenário igual deve servir de pano de fundo para a reflexão de quem for mais responsável ainda, na cadeia e hierarquia das responsabilidades por onde o nosso desporto gravita.
Claro que não posso deixar de saudar uma tendência recentemente surgida para a formação de um sindicato de jogadores e treinadores, se não erro, que vai
providenciar inclusive assessoria jurídica aos associados. Apesar de estar em fase de constituição ainda, esse sindicato vai poder ter pernas para andar se souber associar-se às associações de classe, nomeadamente a de atletas e a de treinadores – ou agindo em sentido mais lato, de jogadores e treinadores em geral, ou só os do futebol?
Os tempos estão a mudar e precisamos de aprender com as mudanças. À medida que aumentarem as exigências do trabalho, devem progredir as condições também. Mas estas condições não são apenas tecnologia, podem ser por exemplo saúde, acomodação, nutrição e segurança social.
Quando à forma como o sindicato está a ser preparado para surgir, ainda vamos ver, mas, se algo me parece neste momento atrasado, é a passada dos atletas e treinadores cujas modalidades mal conseguem defender o estatuto de amadoras, mas aspiram, como todos, a boas condições e regalias que não chegam para todos. Assim é que o desporto se faz praticamente em menos de metade do país.
Proximamente deve haver um conselho nacional de desporto federado e seria interessante acompanhar as reflexões que se estão a fazer, ou não, para sairmos desta pasmaceira desportiva onde, infelizmente, a vida que se precisa é nas camadas jovens, e isso não acontece, nem se imagina quando possa começar a suceder, havendo quem acredite que deva ser depois das eleições autárquicas, embora eu duvide que dependa de qualquer agenda política, pois só depende da consciência social.
Em cada vez mais áreas e aspectos, o país está a recomeçar. O legado do primeiro quase meio século de nação, ainda vai nos cabocos da ideia da nação, pois, se estou a dizer uma mentira é só organizar um ‘trumuno’ de futebol entre as selecções oficiais de Cabinda e do Cunene. Até poderia haver jogo, mas só depois de formarem as selecções primeiro, e ainda treinarem antes de jogar. Porque são instituições que já deveriam existir, mas não há, nem chegaram ainda a muito sítios e em vários desportos, que se aprendem na escola.
Estamos no meio de um complexo humano e material que exige obra, planeamento dos recursos e, acreditem, os principais são os humanos e ainda não os temos, para não dizer que cada vez menos os temos. E se quem dirige o desporto não andar atento a isto, mas às agendas políticas por realmente o desporto estar num sector estratégico que se chama juventude, então mais depressa concluiremos que continuamos a vegetar e sem acertar no modelo ideal da direcção e gestão desportiva nacional.
Hoje e cada vez mais eu questiono se os recursos humanos do ministério de tutela e dos vários agentes desportivos, não serão realmente a maior carência, ainda, do desporto. Porque quando numa sociedade temos demasiados objectivos políticos e programas e projectos e reuniões, nem tudo o resto pode ser deixado aos serviçais, mas confiados então a uma agência especializada em ‘resolver’.
E é isso que falta ao nosso desporto, quem o comece a resolver. O desporto faz mais falta do que se julga, à sociedade.
Arlindo Macedo

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