Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por be

Bolachas sem pacotes

08 de Setembro, 2018
Antes do caixão descer a cova, os jovens retiraram das pastas pacotes de bolachas de diversos sabores, alguns foram abertos e atirados para dentro da cova, outros foram atirados ainda fechados. \"Bolachas de todos os sabores\". O refrão repetido pelos rapazes era uma das imagens de marca do agora saudoso Adão Sebastião, o \"Da Bolacha\", como ficou afamado por causa das guloseimas. O nome nada tinha a ver com o uso da mão para bater.
Quando cheguei ao Jornal dos Desportos, o \"Da Bolacha\" era um dos motoristas. O outro era o Man Nelas. Foram inúmeras as vezes em que saímos em reportagens, motivo por que a cada saída, a relação foi se tornando mais estreita até que se tornou dura tipo aço.
O \"Da Bolacha\" era uma figura daquelas com quem nos apaixonamos logo no primeiro encontro, bom comunicador, simpático e cheio de humor. Era fácil ficar cativado pelo motorista, que fez da Lixeira a sua escola de vida, motivo por que era um profissional de corpo e alma. Gostava de trabalhar e não era do tipo de motorista, que pensa que está a fazer um favor por pegar no volante. É verdade que, às vezes, gostava de refilar e não hesitava em gozar com a situação: \"desde aquela hora? Você quer entrar em todas as federações na Cidadela?\", \"se um dia você e o Catete, referia-se ao Gugas Pedrão Gugas, forem chefes, eu vou me demitir\", \"sempre que há almoços na ilha vai o Nelito, eu só vou para reportagens\". Eram coisas que gostava de repetir, sem nunca deixar que os ossos do ofício manchassem o seu brio profissional.
Um dia, fomos ao Catetão e vi uns juvenis a caminho de casa. Um deles era morador da Lixeira e o \"Da Bolacha\" reconheceu o vizinho. O Jornal dos Desportos tinha a rubrica \"Estrelas do Amanhã\" e vi nisso uma oportunidade de usar o puto como chamariz, para que mais adolescentes do bairro pensassem na chance de fazer da bola, em vez da delinquência, o modo de vida. Pedi ao colega Amadeu Quima, para colocar o meu conterrâneo nas páginas do jornal. Em 2007, o tal puto ignoto chegou aos seniores do Petro de Luanda, fez um bom estágio e, na segunda mão da preliminar com o FC Simba da Tanzania, o técnico Bernardino Pedroto deu-lhe a titularidade. Foi assim que o Buá surgiu no futebol nacional, apadrinhado pelo \"Da Bolacha\".
Homem versátil, o bem humorado \"Da Bolacha\" gostava de contar histórias e estórias da infância, sobretudo, aquelas dos companheiros do diolo, alguns dos quais se tornaram figuras conhecidas em Angola, como o Bangão. O cantor fez a travessia no deserto, mas com a chegada do milénio decidiu recuperar o tempo perdido. As portas abriram-se como nunca antes e o amigo \"Da Bolacha\" usava a viatura do Jornal dos Desportos, para levar o Bangão para os shows.
Sem se importar com a vaidade do amigo, que fazia questão de se sentar no banco traseiro, o prestimoso \"Da Bolacha\" dava o devido desconto. O mais importante era ajudar o amigo a renascer.
A minha chegada ao Jornal dos Desportos, coincidiu com uma das grandes provações da minha vida, depois da morte de minha mãe, a doença de minha irmã; noites mal dormidas, idas e voltas ao hospital, como no dia em que estava a redigir um texto e tive de ir a casa buscar a doente. O prestimoso \"Da Bolacha\" deu-me o empurrão até casa e de lá até a Clínica Sagrada Esperança.
Vaidoso e cheio de poses, o \"Da Bolacha\" também era sucesso entre as mulheres. Uma delas, um dia, cobriu-me de insultos, mal atendi o telefone que o \"Da Bolacha\" deixou a carregar. A senhora disparou rajadas contra mim. Quando se apercebeu que errou o alvo, já era tarde.
Mas a cena que mais me fechou, foi a do vidro do carro partido. Ele dizia que foi apedrejado por detrás da 9ª. Esquadra, por se recusar a levar ao hospital uns jovens que estavam a lutar. O processo disciplinar foi arquivado e o \"Da Bolacha\" teve de pagar o vidro, mas ele nunca contou a verdade.
Enfim, é duro escrever estas linhas relacionadas com um companheiro, que também colocou o seu bloco, para ajudar a firmar o Jornal dos Desportos. É por isso que ele queria ser mais valorizado. Como achava que era marginalizado, preferiu sair para pegar algo mais leve: o trabalho agora era transportar os jornais ao aeroporto, para ser levado ao interior. Tão logo se deu a transferência, ficamos em locais opostos, mas o vínculo manteve-se até que a morte decidiu separar-nos. Foi grande a multidão, que queria prestigiar o último adeus ao malogrado, pois como exclamou alguém: \"ele levou todas as bolachas, mas deixou os pacotes\". Betumeleano e Ferrão

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