Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Brincar ao poder

07 de Junho, 2018
Como dizia, um novo ciclo temos em mãos, eu quando escrevo, ou você quando lê, ou ainda os agentes desportivos quando tratam a coisa desportiva. E, a coisa desportiva não tem sido bem tratada, faz tempo. Um dos casos emblemáticos de como se está a julgar melhorar o que estava mal no desporto, continua a ser o seu dúbio proveito das parcerias de exploração das melhores infra-estruturas desportivas do país, algumas delas já definitivamente com novo ‘titular’.
Não era preciso chegar-se até onde já se chegou, no caso intrusivo da antiga sede da FAF, do seu hotel Palanca e respectiva lavandaria. Felizmente, a federação logrou não se conseguir apagar o registo do alvará do hotel, e que espero não ser obrigada a ceder, mesmo se em todo o processo parece haver determinação em ignorar o estado de direito e usar-se de prerrogativas que habitualmente costumavam ser limitadas pela lei.
O Hotel Palanca e a antiga sede da FAF são o último postal, de tamanho XXXL, que está exposto na praça e que apetecia vermos contrapor ao ministério da juventude e desporto, o ministério público. O âmbito da lei que a ministra pode criar não chega ao ponto de poder restaurar, nem integrar a situação pré-existente nos territórios da antiga FAF a que foi autorizado invadir, dar corrida e ocupação. No entanto, é avisado contar que todo o arquivo morto do conselho técnico da FAF foi lá deixado.
O cenário original é o de 2012, quando os primeiros órgãos da federação deixaram a Cidadela para um prédio novo e inapropriado para federação de coisa alguma, no Nova Vida. Digo isso, porque aqueles autênticos salões prestavam-se mais a uma assembleia popular, salões de festas ou casino, não estando configurado para integrar escritórios. Seja como for, a federação de atletismo também aproveitou mudar-se para um daqueles cinco pisos.
Como se diz, e é parte da sabedoria popular, a cavalo dado nunca se olha o dente. Só não sei quem viu o dente de ouro que tinha outro cavalo com dono, em que se entenderam empoleirar. Não está escrito em lado algum o regime de ocupação de partes ou parcelas da Cidadela, por interesses outros que não ser vem ao desporto, tido que nem sequer com as receitas dali e do fundo de desenvolvimento desportivo, consegue o ministério fazer render as suas obrigações. A próxima, não vai tardar a consumar-se e quando ocorrer eu também virei denunciar.
Em 2014, perante a pressão do comité paralímpico, o então ministro Muandumba explicou que não obstante ser um património gerido pelo seu ministério, a FAF havia feito investimentos próprios, mormente contruindo a existente adaptação para hotel
de uma ala do estádio. E, ali foi investido meio milhão de dólares, à partida. Armando Machado era então o portador e fiel depositário do chaveiro do Hotel Palanca, enquanto presidia a federação de futebol. Até, lá instalou uma lavandaria. E, não tarda iremos ver a falta, que ainda faz.
Saiu Muandumba e ascendeu o seu vice, Albino, que contradisse a seu tempo, aquilo que ouviu antes, quando questionou qualquer vinculação dos territórios da Cidadela abandonados pela FAF, à própria federação. E, a isso , se chama um erro de julgamento e, até, de jurisprudência, ou então, eu pergunto-me: haverá algum nexo entre os ministros antigos andebolistas e a sua antiga federação? Desmentir isso vai ser difícil, em minha opinião.
E, como se tivesse sido pouco ainda, a nova ministra veio alimentar a minha suspeita, ao mandar avançar com a ocupação, francamente, feita pouco civilizadamente, ou como também se poderá dizer, feita de maneira pouco curial, ou até, feita com pouco decoro, a pontos de serem literalmente impedidos de laborar as associações de treinadores e de árbitros, legitimas ocupantes doas anexos mandados igualmente construir com recursos da FAF.
Quem for à Cidadela verá algo parecido, com o cenário de decadência do filme “Waterworld” ou “Mundo aquático”, com oficinas e outros negócios a mascarar algumas já tornadas possessões de parcelas detidas por antigas entidades, algumas eventualmente entidades ainda, que desencantam o património desportivo nacional ao aproveitar-se particularmente de partes das infraestruturas desportivas quando a figura da parceria mais se assemelha à apropriação.
E, era bom saber quantas receitas e rendimento tem afinal o ministério da juventude e desporto, pois, parece que o dinheiro nunca lhe é suficiente, a julgar pelo regresso ao tempo dos bilhetinhos como que pendindo a terceiros pernas para as suas próprias cadeiras. A falta de um desporto auditado e autossustentável é parte do nosso rosário desportivo e para as futuras gerações seria melhor que circulasse mais sangue técnico desportiva na veia do MINJUD, do que simplesmente juventude.
Logo existe uma questão patrimonial mal resolvida na Cidadela e a clamar por justiça.
De resto, fica-se sem perceber se ao andebol não chegaria a antiga FAF, a ponto da pretendida ocupação incluir o ‘hotel do futebol’. Realmente Luanda havia sido palco de ocupações selvagens nos primeiros anos da sua independência, pelo que reviver tal 40 anos depois assemelha-se mais a um erro, que melhoria.
O que isso aparenta é algo que se afasta demasiado do querer corrigir o que estivesse mal, nem é uma melhoria do que já estivesse bem. Nunca se pode ficar bem quando se deixar uma ordem ficar mal, mas ficar a prevalecer.

África na encruzilhado do voto e veto
No segundo episódio de hoje que merece realce, temos as politiquices que se vai descobrindo enquanto cresce em todo o mundo a convicção de quem deve ser votado país organizador da Copa do Mundo FIFA 2026, África ou o resto -do -mundo?
Apenas um dia antes de terminar o prazo para a avaliação das candidaturas, as especificações foram alteradas, manobra que dificultou as pretensões marroquinas, em favor da candidatura subcontinental norte-americana. Cinco \'homens de preto\' e da plena confiança de Infantino, decidiram que a candidatura do Marrocos passasse por aquele filtro artificial criado tão tardiamente.
Soa como uma manobra indigna destinada a evitar uma votação de 211 federações em que o Marrocos teria claramente uma vantagem, graças às simpatias que Donald Trump tem angariado no mundo, em particular com a ideia de construir um muro na fronteira com o México, deixando-nos a imaginar qual seria mesmo o papel desse muro em 2026.
Mas a FIFA parece que constrói um ‘muro’ ao Marrocos, que ainda terá que passar por um corte final. O Conselho da FIFA tem poderes para revogar candidaturas. O órgão máximo da FIFA é composto por 37 membros: o presidente, Infantino; oito vice-presidentes, incluindo os representantes do Canadá, e 28 outros membros, incluindo os presidentes das federações norte-americana e americana de Samoa, mas nenhum representante do Marrocos.
A FIFA publicou o relatório do seu Grupo de Avaliação (Task Force) e atribuiu uma classificação de quatro pontos de um máximo de cinco para a oferta do Canadá-Estados Unidos-México e 2,7 para Marrocos, que penaliza o seu plano de construção de estádios, a sua capacidade hoteleira de sediar a Copa do Mundo e a sua infraestrutura, especialmente de aeroportos.
O relatório diz abertamente que \"a candidatura conjunta dos Estados Unidos, México e Canadá está do outro lado da candidatura apresentada pelo Marrocos\". O relatório não surpreendeu o Marrocos, já que eles sabem que a Força-Tarefa está muito próxima de Infantino, que é favorável à candidatura norte-americana que aspira render até 12 mil milhões de dólares para a FIFA, contra somente 4 mil milhões esperados do Marrocos.
Para os historiadores, os EUA fizeram a locomotiva da candidatura de Infantino na América quando o suíço-italiano foi apresentado às eleições da FIFA. Moulay Hafid Elalamy, presidente do Comité Organizador marroquino, resumiu que \"alcançar a votação é um sucesso que tem sido comemorado com emoção pelo povo de Marrocos\". Fouzi Lekjaa, presidente da Federação Real Marroquina de Futebol, assegurou que \"os países da FIFA poderão decidir entre duas boas ofertas, e também que os valores do futebol podem triunfar sobre outros interesses\".
Sepp Blatter, presidente destituído da FIFA e proibido de se pronunciar sobre a federação internacional que deixou, não se poupa a comentários, entretanto. Ele chegou a afirmar que a candidatura dos três estados norte-americanos tem medo da candidatura do Marrocos, tendo o também suíço comentado ainda que não é mais favorável a organizações conjuntas da Copa do Mundo, depois que em 2008 apadrinhou uma organização repartida entre Coreia e Japão, quando se jogaram 64 partidas em 20 cidades diferentes.
Blatter também critica a aspiração de Infantino organizar a primeira copa com 48 equipas, 16 grupos de 3, escolhendo um segundo país para organizar a Copa em 2022
Conjuntamente com o Qatar, já escolhido em 2014 no congresso da FIFA antes da copa do Brasil. O antigo presidente da FIFA, que também acha prematuro introduzir agora o sistema electrónico de arbitragem VAR, considera que grupos de 3 equipas favorecem resultados combinados entre equipas do mesmo grupo falseando os resultados desportivos.
Em definitivo e antes da Copa do Mundo da Rússia haverá um facto marcante: a designação da etapa da Copa do Mundo de 2026. Depois da Rússia será o Qatar, e depois do Qatar? Marrocos apresentou a sua candidatura, por muitos vista ideal e não somente pelo factor proximidade. Também porque é hora de uma Copa do Mundo cair para a região da Terra em terceiro lugar no futebol do Planeta, atrás da Europa e da América do Sul.
Confrontado com a aspiração do Marrocos está uma proposta conjunta dos Estados Unidos -Canadá -México que ainda é chocante nestes tempos em que o presidente norte-americano pretende fazer uma parede com o seu vizinho ao sul. E, esse espírito dificilmente pode criar a unanimidade no globo terrestre, sendo de se aguardar pela votação do organizador da Copa de 2026 com avultado interesse e particular expectativa

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