Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Chega de fazer de conta...

28 de Dezembro, 2017
O ano vai terminar em crescendo graças a mais uma edição da corrida de São Silvestre, prova pedestre de 10 quilómetros a que se sucederá o meeting Demóstenes de Almeida, ambas emblemáticas de um atletismo que até já nem temos mais em Angola.
Atraídos pelos kwanzas convertíveis vão chegar alguns estrangeiros de ambos os sexos – este ano exclusivamente da região SADEC - e juntar-se-lhes-ão os poucos fundistas angolanos federados que sobrevivem à seca da modalidade no nosso país, mais umas centenas de populares que não passam de animadores de festa e enchimento de um pelotão que pode chegar aos 2 mil participantes e onde cabem todos sem limite de idade nem de performance.
Esta última parte tem sido o principal incentivo do financiamento da prova, na óptica da cultura física e recreação como forma de se massificar práticas desportivas e físicas, porém, os entusiastas são quase sempre os mesmos e de Luanda, ilustrando que pelo país adentro o atletismo passou de moda, ou não chegou a fazer moda.
Uma sociedade com o nosso grau endémico deveria extrair do ‘pelotão’ alguma lição, mas tal não é o caso, nem o motivo que deveria empolgar os ‘fazedores de opinião’ sempre habilidosos em atrair multidões de curiosos. Por isso digo e repito que em Angola deixámos desportivamente morrer até a cultura física e recreação.
A outra questão é saber se, de ano para ano, a São Silvestre tem trazido incentivo ao atletismo para os mais jovens. Ou então, qual será o foco dessa prova e do nosso desporto, se é o de fazer com o evento um mero exercício propagandístico internacional que custa sempre milhões, ou se esses tais milhões são investidos a pensar-se em crescimento desportivo?
qualquer medição feita a olho nu diria que num ou noutro caso, os milhões têm sido gastos e o avanço rumo ao atletismo para todos não tem sido sentido. De facto, atletismo deveria ser o rei dos desportos e um desporto para todos, e a que não faltassem instrutores e ‘role models’, ou sejam modelos inspiradores da juventude, como Ana Isabel, João Ntyamba, Pedro Luciano.
É um facto de que uma sociedade se revê na sua liderança e se formata de acordo com os ditames da mesma para os diferentes sectores da vida; e é um facto que diante de tanta adversidade externa – e também interna – foi precisa uma dose forte de propaganda para Angola se poder erguer, e disso beberam as modalidades desportivas também, para chegarem a porta-estandartes da juventude angolana e embaixadoras do país novo que estava a fazer-se. Só que era suposto não se seguirem os maus exemplos, nem desvios.
E isso foi resultando enquanto o desporto era a única divisa política que tínhamos para trocar com o estrangeiro em termos de resultados e proezas de Angola; mas o novo estado angolano revogou o subsídio especial ao desporto e este passou a viver dos seus próprios esforços e meios, sem todo aquele apoio de um estado com políticas especiais e que buscava impacto internacional, mais do que um feito interno e absoluto com a devida consistência nacional. E ao mesmo tempo o país real ia-se resumindo à visão da região da capital, começando a esmorecer o desporto no resto das províncias; tanto que meia dúzia delas ainda nem tem futebol sequer...
Essa consistência esteve sempre no nosso modelo desportivo, que passava pela escola inclusive e donde seria difícil alguma província ser deixada ao seu próprio acaso; e assim, à medida que uns faleciam, outros se desencantavam e abandonavam, ou partiam, tal foi como o momento em que os formandos dos primeiros eram esperados como continuadores. Mas, dificilmente seria assim; e nem foi, bem vistas as coisas.
Foi um grande debalde, a continuidade; primeiro, porque a fusão da juventude e desporto num mesmo ministério nunca soube explorar o enormíssimo potencial dessa coabitação; num país que como todo o continente não pode ficar à mercê do investimento estrangeiro, era precisamente o desporto, como a cultura em geral, uma das três vias africanas para o sucesso social, inclusive político e económico. Mas as elites preferem o lucro fácil e as tetas do estado.
Depois, porque os quadros angolanos doutorados que regressavam eram senão teóricos, que haviam trocado a pista e as quadras de jogo por um gabinete com actividade à sombra, de pensador.
Ainda assim envolta em grande expectativa, a introdução da motricidade humana no currículo universitário foi uma aragem que depressa soltou um bafo quente, que se precisava fresco; pode ser, até, que os seus frequentadores tenham crescido em conhecimentos, mas, passados quase dez anos, onde estão eles?
‘A licenciatura em Ciências do Desporto e Motricidade Humana visa a formação de profissionais dotados de um sólido conhecimento científico nas ciências básicas da actividade física, com uma formação educacional geral e na didáctica específica da Educação Física e Reabilitação, quer teórica quer prática, capacidade de auto-aprendizagem e competências básicas de pesquisa educacional e de gestão. Os objectivos prosseguidos pelo curso consubstanciam-se num plano de estudos distribuído por quatro anos lectivos, contemplando cinco áreas científicas’, reza o projecto da Universidade Jean Piaget, em Viana, província de Luanda.
A secção inaugurada depois na Universidade Lusíada, na Ingombota de Luanda, não deve andar distante disso. Mas, além de instituições, individualidade há que podem começar a semear diferença. Por exemplo, o grande antigo atleta e agora técnico, Dr. Bernardo Manuel, esperado resultar em boa influência e, até, impulso para o atletismo, nem no próprio clube tem semeado atletismo, confinado que está a uma utilidade administrativa que lhe esta conferida no Rio Seco, onde nem respira o atletismo que o próprio clube faz.
João Ntyamba pendurou as chuteiras e reapareceu à civil, de mãos dadas com os ‘Olímpicos’, todavia, não parece também ele ter despertado a atenção dos ‘mecenas desportivos’ que decerto não vislumbram nesses antigos craques uma liderança capaz de guindar os destinos do atletismo para algo mais abrangente, cultural, nacional, e acima de tudo identificado cada vez mais com a juventude do país. Basta ver que em um campeonato nacional reúne-se a custo menos do que cem atletas do país inteiro.
ARLINDO MACEDO

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