Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Cheias no pr-olmpico

24 de Março, 2015
Ponto prévio: Confesso que nunca fui um estudante dotado em matemática, resultando daí a minha relação pouco simpática com os números. Abomino palavras como teorema e nomes como Pitágoras, Tales e outros génios associados à ciência dos algarismos. Talvez por esta razão tenha perdido a conta das vezes que o pavilhão da Cidadela foi submetido a obras de manutenção, sem lhe macular a estrutura arquitectónica original.

Testemunha das nossas maiores conquistas desportivas, sempre que se aproxima uma competição de grandeza desportiva, sujeita-se a mexidas aqui e ali, a começar pelo piso até ao tecto, passando por outros adereços. Foi, por isso, de deixar cair o queixo o cenário que nos foi dado ver sábado passado, na final do torneio pré-olímpico de andebol, quando jogavam Angola e Tunísia.

O jogo foi interrompido por 40 minutos em razão da infiltração de água da chuva que caía a potes sobre Luanda. Não é que a invasão de águas chuvosas numa casa, numa sala de aula, numa fábrica seja coisa de outra natureza, que nos tire do sério e nos deixe apavorados. Mas a situação ultrapassa os limites razoáveis da compreensão humana, porque ocorre num pavilhão que recebe obras de restauro volta e meia.

Penso que não há nenhuma outra estrutura herdada das autoridades coloniais que beneficia de tanta atenção como o pavilhão da Cidadela. Construído nos primórdios dos anos 70 para receber o Mundial de hóquei em patins de 1974, que Portugal pretendia organizar em Angola, calculo que só os custos em arranjos periódicos já ultrapassaram o orçamento da própria construção.

Paradoxalmente, a realidade mostra que não têm passado de obras paliativas, sem consistência, porque entre nós, infelizmente, há muito assentou arraiais a cultura de privilegiar o barato para na sequência desta “engenharia” se colher alguns dividendos, com que vamos sustentando as nossas luxúrias e vaidades, num descaminho generalizado de dinheiros públicos.

Foi um vexame vender aquele cenário, que em lugar de nos glorificar, enquanto potência emergente no desporto africano, nos anavalha a alma e belisca o orgulho. E como me abri com confissão e estou com confissões, confesso que o episódio me levou a reviver uma das músicas mais badaladas do angolano Cristo. Pois, quem antes viu o pavilhão como grande estrutura arquitectónica, despertou para outra realidade. O brilho é apenas aparente...

Mais intrigante no meio disso, é que dias antes do início do torneio uma entidade ligada ao Ministério da Juventude e Desportos, questionada sobre o risco da utilização da Cidadela em época chuvosa para uma competição de suma importância, deu garantias de que ela estava em condições das obrigações, fizesse chuva ou sol, afastando quaisquer possibilidades de haver algum constrangimento.

Na verdade, trocar o torneio do Kilamba para a Cidadela, como estava inicialmente programado, foi um erro de cálculo. Todos conhecemos as condições da Cidadela em época chuvosa. Até podia dar-se o caso da água não penetrar no recinto de jogo, mas os acessos estarem condicionados. E mais: o pavilhão multi-uso, que custou avultadas somas aos cofres do Estado, não foi construído apenas para o Mundial de hóquei em patins.

Por outro lado, o argumento evocado de que a Cidadela acolhe mais gente em face da sua localização estratégica, não tem fundamento, sendo que hoje as maiores concentrações populacionais são os municípios de Viana, Kilamba Kiaxi e Belas, com acesso rápido ao Kilamba pela Via Expresso. A não ser que impere ainda em alguns o conceito de que o homem do musseque entende apenas de futebol, tomando o andebol como desporto de elite, que está maioritariamente concentrada na zona urbana.

Foi bom que para passar um mata-borrão em tudo isto, as nossas pérolas tenham evidenciado a sua classe e talento, brindando-nos com mais uma qualificação aos próximos Jogos Olímpicos, naquilo que configura também mais um valioso ponto na cotação da actual direcção da Federação Angolana de Andebol, que encontra na fibra e tenacidade de Pedro Godinho a sua expressão máxima.
Matias Adriano

Últimas Opinies

  • 21 de Março, 2019

    Um regresso depois de quase dez anos

    Volvidos quase dez anos, volto a assumir uma missão como enviado especial do Jornal dos Desportos, título para o qual escrevo desde o ano de 1997, e que nesse momento assumo o cargo de editor, depois de já ter sido sub-editor e correspondente provincial.

    Ler mais »

  • 21 de Março, 2019

    A eliminao do Petro e o tal patriotismo

    Terminada a participação Petro de Luanda, na Taça Nelson Mandela, é normal que por esta altura, esteja a ser feita uma profunda reflexão em torno da participação na referida competição africana, nos mais diversos aspectos que ela comporta, sem descorar, portanto, a (des) continuidade do técnico Beto Bianchi, que mais uma vez não conseguiu o troféu de uma competição em que esteve envolvido. 

    Ler mais »

  • 21 de Março, 2019

    Palancas Negras de olhos no Egipto

    A Selecção Nacional de futebol honras, vulgo Palancas Negras, só depende de si para chegar à fase final do Campeonato Africano das Nações (CAN) de 2019, que vai ser disputado no Egipto.

    Ler mais »

  • 21 de Março, 2019

    Cartas dos Leitores

    Procuramos fazer tudo para vencer o jogo, mas não conseguimos, porque o adversário  (Recreativo do Libolo) foi competente e inteligente, assim como conseguiu aproveitar as nossas falhas defensivas e, em lances de bolas paradas, marcaram os dois golos.

    Ler mais »

  • 21 de Março, 2019

    Zebras para domar...

    A Selecção Nacional de futebol de honras, às ordens do sérvio Srdjan Vasiljevic, decide amanhã, em Franciston, Botswana, a qualificação para o Campeonato Africano das Nações (CAN), que o Egipto acolhe de 19 de Junho a 21 de Julho deste ano.

    Ler mais »

Ver todas »