Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Chicotadas em srie

14 de Abril, 2017
É recorrente no nosso campeonato o afastamento em série de treinadores. Em certos casos esta fanfarra acaba até por emprestar algum interesse particular à prova, porque em meio de uma sofrível qualidade futebolística, é este movimento que dá matéria jornalística. Tem havido épocas em que a coisa atinge níveis que ultrapassam a nossa capacidade compreensiva. Quando com a prova há apenas seis jornadas já igual número de técnicos foi mandado à vida, não deixa de ser algo preocupante. Na verdade, na presente edição do Girabola verifica-se algum retraimento, se não consentimento, por parte de direcções de clubes. Ainda assim, não se pode dizer que a situação esteja calma. Já se registaram alguns movimentos que não podem e nem devem ser minimizados. Treinadores houve que já perderam o emprego, entregues à sua sorte ou à espera de uma segunda oportunidade.

Por exemplo, à entrada da décima jornada temos o registo da saída de António Alegre da Académica do Lobito, dando lugar a Daniel Quinhentos; no Progresso da Lunda Sul Paulo Figueiredo cedeu lugar a Albano César; Zeca Amaral voltou ao Bravos do Maquis substituindo João Pintar ao passo que no 1º de Maio saiu Hélder Teixeira e entrou Agostinho Tramagal. Não tivesse a direcção do Asa recuado, também teríamos o veterano João Machado a roer as unhas.

A propósito, vai aqui uma palavra de apresso à direcção do ASA. Não é regra tomar-se a decisão de dispensar o treinador e em seguida o órgão decisor depois de alguma ponderação recuar na sua deliberação para se dar mais uma oportunidade ao técnico. Diga-se que foi um gesto positivo, que deve servir de exemplo a outros clubes, que não vacilam quando a questão é mandar o treinador para casa.

Já o dissemos, repetidas vezes, que o treinador, no caso concreto de Angola, representa a parte mais fraca da corda, e muitos são despedidos sem justa causa, porque nem sempre os maus resultados de uma determinada equipa emanam da incompetência do treinador. Avaliadas as coisas com maior profundidade, da mesma forma que o bom desempenho da estrutura directiva e a prestação dos atletas em campo concorrem para as vitórias o inverso também é válido.

Ao treinador não podem ser atribuídas responsabilidades de um penalte mal marcado por um atleta por mera vaidade ou infantilidade, da mesma forma que não deve ser ele a assumir as culpas de um mal-estar que se instala na equipa com reflexos no seu desempenho em campo por causa de honorários ou prémios de jogo em atraso. Infelizmente todos estes factores nunca são levados em conta.

Neste andar, não tarda, um treinador poderá ser despedido por o jogador mais influente apanhar disenteria por consumo de algo que não foi confeccionado por ele. Havendo justiça quem deve levar a chamada \"chicotada psicológica\" neste caso? Não seria o cozinheiro do clube? Por isso, não é sem razão que a profissão de treinador está catalogada como a mais inconsistente, a mais imprevista.

É lógico que existem situações claras, em que o treinador é a parte falível. Mas noutras escapam muitas dúvidas. É coisa para perguntar se em quanto está estipulada a clausura de rescisão contratual. Só pode ser uma bagatela, porque ao contrário não se dariam os clubes ao luxo de despedir os treinadores como o fazem no nosso campeonato.

Por quê não assistimos a um cenário igual nas grandes ligas europeias? Porque o montante correspondente à clausura de rescisão contratual custa os olhos da cara, sendo que só chegados ao extremo os clubes partem por este caminho. Na maior dos casos quando se está perto do fim do contrato a preferência vai por esperar. Veja-se por exemplo, como está o Barcelona de Luis Enrique. De rastos, claro. Mas \"se fosse nós\"...
Matias Adriano

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