Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Chuva no molha vontade

22 de Fevereiro, 2018
Os jornalistas desportivos angolanos são tantos e tão poucos. Com menos de 20 por cento dos associados presentes, a associação da classe do jornalismo desportivo angolano, AIDA, reuniu sábado último na tão desejada, mas ao mesmo tempo tão pouco correspondida assembleia-geral.
O facto pode prestar-se a diversos motivos e especulações, sobretudo por ter sido massivo, contudo, a presença de 18 dos 120 associados legitimou uma prestação de contas e um esboço da próxima campanha eleitoral. Não exactamente por magnanimidade, mas pela madureza com que tem lidado com a classe, a direcção aproveitou para falar das quotas, anuidade e jóia, até aqui pagas quase na totalidade pelo presidente de direcção, o jornalista António Ferreira ‘Aleluia’.
Eu estou a falar nisto porque durante os longos anos de clamor pela assembleia-geral da AIDA, a matéria transbordou para a opinião pública, esta mesma a quem e por reciprocidade, deixo partilhar o episódio que a isso se seguiu e que foi marcado pela ausência massiva de associados. Por causa da chuva? Esta nunca fora um impedimento para jornalistas...
Diáriamente o público é exposto ao jornalismo que se faz, grande parte dele por novos artífices da profissão, e ficar a compreender um pouco os meandros associativos da classe constitui de ‘per si’ matéria para opinião, bem como este passo se adequa, em minha opinião.
No jornalismo em geral, o ruído havido no limiar desta década foi precedido de eventos quase históricos para a classe, como seja haver-se tido adiamento militar por ser da comunicação social, ou mais recentemente, ter amigos em postos capazes de decidir a nossa aptidão para o jornalismo; no entanto, é de conceder o mérito a todos quantos obtiveram um lugar por via do ‘casting’.
Muitos eram movidos pela sua entrada no ciclo vicioso, contudo vital, da trilogia emprego-casa-família em que devem entrar os jovens na maioridade; outros embalados pela presunção de terem alguma qualidade, mas, alguns por se lhes reconhecer qualidades inatas. No entanto, todos eles natos daqui.
E com esses antecedentes introduziram-se no jornalismo desportivo angolano muitos indesejáveis da profissão, seja pelo mau uso deontológico, e de uma maneira geral, ético, ou pela pobreza académica, limitação cognitiva ou resumidamente falta de mais escola. Deve-se dizer que a escola em Angola havia sido mais exigente, rigorosa e formativa, tendo vindo a perder gradualmente a qualidade, a julgar pela avaliação séria dos
recursos humanos do país, técnicos e operários, mas também executantes de profissões liberais, embora menos expostos que os demais actores públicos.
As novas fileiras da classe são preenchidas em grande maioria por jovens com uma paixão pelo desporto que confundem com a capacidade de poder escrever e falar em jornalismo desportivo; ao contrário disto, os profissionais do jornalismo sempre se quiseram cultos, para começar. E nos primeiros anos da nossa independência já se via isso, entre os intelectuais revolucionários.
Mas vale a pena recuar no tempo e deslindar os equívocos. O jornalismo desportivo angolense não foi sempre assim, apenas se tornou assim. Os pioneiros da classe e nata, estiveram nos principais títulos da imprensa desportiva após ter sido hasteada a bandeira da República de Angola. E alguns provieram já do período de transição da colónia, para o país.
Não existiam mais que os media públicos e alguns davam os seus primeiros passos ainda, casos da agência nacional de notícias e da televisão. No entanto e enquanto também só existiram jornais, a maioria deles regionais e locais, mas, nenhum propriamente genuíno angolano e feito por natos, por circunstâncias políticas e policiais, havia uma saga a viver pelo jornalismo dos natos angolanos, que antecede esta última vaga de ilustres nossos que aqui quis homenagear.
Desde finais do século XIX, relatava Artur Queiroz aos formandos em técnicas de edição, do ‘Jornal dos Desportos’, que “Em todos os jornais da época existiam jornalistas africanos, até porque os filhos da burguesia negra caprichavam no domínio da língua portuguesa e quase todos tinham estudos primários e secundários quando não universitários.
“Entre os jornalistas africanos negros do século XIX merecem destaque alguns nomes, porque eles foram os melhores do seu tempo, os primeiros entre os seus pares, fossem africanos ou de origem europeia. “Foram eles João da Ressurreição Arantes Braga, cuja família deu origem ao famoso muceque Braga, lugar de infância de Luandino Vieira e que ficava onde é hoje o bairro do Café e tinha como fronteira a Norte o local onde é hoje a igreja Sagrada Família; José de Fontes Pereira, Pedro da Paixão Franco, Sant’Anna Palma e Augusto Bastos”, descrevera Artur Queiroz.
Tal como no século XIX, também na história do jornalismo pós-colonial despontavam jornalistas africanos, mas, entre os desportivos, os primórdios têm nomes e rostos, créditos firmados e uma idade que sendo a da senioridade, não basta para conter o reformismo ambicionado pelos mais jovens da classe.
Os primeiros fenómenos da rádio angolenses, portanto, natos, e foram eles ‘Carrasquinha’, na Rádio Nacional, ou ainda ‘Comandante Sulano’ Pitra, ambos repórteres; entretanto, no ainda Rádio Clube do Lobito, já se havia destacado Elísio de Gregório, no programa ‘A Hora Cuca’ e em relatos de futebol.
Mais uma vez e com particularidade, foi a imprensa aquele média público mais agitado no começo, e o seu pioneirismo na imprensa desportiva viria a ser editorialmente dominante, suportado pela experiência que outros seus colegas traziam do período pré-independência.
São, assim, os casos da ‘Página Desportiva’ do ‘Jornal de Angola’, onde o mais tarde guarda-redes internacional, Ângelo Silva, é pioneiro da classe, a par de António de Oliveira Campos ‘Dadá’ e Victor Silva ‘Cilito’, pioneiros nos primórdios do jornalismo desportivo em Angola. Pouco depois, juntar-se-lhes-ia Gustavo Costa, entre 1978-79, para editar o já ‘Suplemento Desportivo’ do ‘Jornal de Angola’.
Fruto da dinâmica e desembaraço profissional a que haviam chegado, esses mesmos viriam a estar juntos em outro momento e sítio. E foi assim, quando, em 1982, o seu companheiro Ângelo reapareceu à frente do primeiro projecto de semanário desportivo, o celebrizado ‘JDM’, jornal desportivo militar. Em pouco tempo se tornaria no berço de um outro jornalismo desportivo em Angola e berço das primeiras polémicas, em particular do futebol, que se havia registado na nova comunicação social angolana.
Nos Anos 80, a época era fervilhante para os dois principais emblemas desportivos do país, Primeiro de Agosto e Petro-Atlético, apesar da pré-existência de outros clubes mais tradicionais, ASA, Progresso e Sporting de Luanda. E o ‘JDM’ aspirava ser um actor activo nesse meio.
E com o director do jornal, Ângelo Silva, em 1981-82, lançaram-se na carreira o mais tarde radialista, António Clara, Carmo Neto, Miguel Neto, José Ramos, Luís Dias, Muanamosi Matumona e Policarpo da Rosa. Em 1983, juntaram-se-lhes Graça Campos e Severino Carlos (ambos ANGOP), Gustavo Costa e Oliveira Campos ‘Dadá’ (ambos ‘Jornal de Angola’), este último, já colaborador antigo e o primeiro verdadeiro ‘freelancer’ da profissão em Angola.
O nível e dinâmica do ‘JDM’ contagiosamente atraía os novos destaques da classe, como Silva Candembo (ANGOP), aderido em 1984, e dois anos mais tarde, Gil Tomás. No entanto, o semanário não iria chegar muito mais além, após o seu fundador ter sido consumido pelo desinteresse, a partir de 1988.
Outros nomes encarrilhavam já na carreira do jornalismo desportivo e vinham igualmente bem preparados academicamente, tendo sido os casos do agora quadro da Voz da América, Luís Costa, e sucessivamente António Ferreira ‘Aleluia’, Fontes Pereira, e ulteriormente, Honorato Carlos (todos esses do ‘Jornal de Angola’), ou ainda Pedro da Ressurreição e António Quiala (ambos da ANGOP).
Para esses sempre foi uma questão de estarmos aqui para nos conectar e construir alguma coisa. A nova geração precisa de se conectar também, crescer e aparecer. E deve saber contar com o apoio vigilante dos seus seniores, o mestre com quem se tem que aprender o ofício.
Seria uma injustiça considerar que todos os jovens quadros do jornalismo desportivo fossem recalcitrantes e opositores, no sentido associativo do termo. Os mais inteligentes e aplicados aos estudos têm feito progressos e dado indicação de que a classe ainda vai tendo quem possa segurar com firmeza o testemunho, porém, o meio não é límpido.
Ciente de que a formação era a melhor resposta da associação a dar à classe, a AIDA logrou ao longo do seu percurso até aqui, oferecer quatro acções de formação com prelectores reconhecidos pelo CIO, FIFA e CAF, entre os quais os formadores FIFA Etienne Marèchal e Hédi Hamel, e os fotógrafos de top em África, Barry e Gavin Barker.
Continuando a manter a AIDA dos seus próprios bolsos, embora justiça se faça ao presidente da assembleia-geral da associação, Manuel Rabelais, e ao antigo ministro da Comunicação Social, José Luís de Matos, quem por mais que uma ocasião acudiu a organização, a direcção da Associação Da Imprensa Desportiva Angolana aceitou o desafio para as eleições, brevemente.
Admite-se que ausência massiva não tenha sido pela chuva, mas pela frustração da classe com a situação profissional que atravessa, e um possível desencanto, porém, dando o benefício da dúvida, é de se exortar que os aspirantes a comandar os destinos da associação de classe venham munidos de recursos para poderem fazer face aos custos internacionais da filiação e manutenção da AIDA.
A senioridade está posta em causa, como forma de pressionar reformas e abrir mais vagas às filas que esperam pelo jornalismo como uma profissão. No entanto e como ficou demonstrado, o jornalismo não é uma profissão que se aprenda, tanto quanto é o fruto de uma capacidade que se possua, ou seja, uma pré-condição.
Particular atenção deve ser dado ao enriquecimento do currículo dos diversos cursos ligados aos jornalismo, como as ciências da comunicação, a comunicação social, e o marketing, os quais carecem de maior fundamento prático, e porventura de estágios em empresas do respectivo ramo e reconhecidas, que são outra forma de preparação indispensável para o futuro profissional da comunicação.
O jornalismo é uma classe onde se apregoa ser preciso ser dirigido pelos melhores, ou maiores, e não se deixarem subverter.
Mesmo a chover..
ARLINDO MACEDO

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