Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinião

Construir os estádios foi um erro?

12 de Outubro, 2017
O ano de 2010 fica marcado na história do desporto angolano, por ter sido o ano em que o governo que cessou funções a 26 de Setembro, realizou um dos maiores eventos desportivos de África: O Campeonato Africano das Nações (CAN -Orange Angola-2010).
Para realização de um evento, de tamanha importância, como é o CAN, é normal que o país organizador capriche na sua organização. Por isso, o governo construiu várias infra-estruturas, desde hotéis, campos de treinos, requalificação de aeroportos, estradas, e naturalmente, Estádios com as condições necessárias para a realização do evento.
Luanda, Benguela, Huila e Cabinda foram as cidades escolhidas para sedear a fase de grupos, e por isso, foram as que mais obras de beneficiação tiveram em todos os aspectos, entretanto, nenhuma delas tinha um Estádio em condições para a realização do evento da envergadura de um CAN.
Em Luanda, tínhamos apenas os \"enfermos\" Estádios da Cidadela e dos Coqueiros. Em Cabinda, o Estádio ( ou campo?) do Tafe, em Benguela, o campo Municipal e o do Buraco, que também são chamados de Estádios, finalmente na Huila, o Estádio (?) do Ferrovia e o de Nossa Senhora do Monte.
Quem conheceu estes campos, até antes do CAN 2010, sabe exactamente do que me estou a referir, ao rejeitar a qualificação da maior parte destes campos, para Estádios. Bem, a verdade é que em função da realização do evento, o Estado teve de construir novos Estádios.
Assim, Luanda ganhou o monumental Estádio 11 de Novembro, com capacidade para 50 mil almas sentadas, Benguela recebeu o Estádio de Ombaka, com capacidade para 40 mil pessoas, Cabinda ganhou o Tchiazi, para mais de 25 mil pessoas sentadas, e a Huila recebeu de presente, o Estádio da Tundavala, também com capacidade para albergar mais de 25 mil pessoas.
Foi graças à realização do CAN 2010, que o campo de São Filipe (propriedade do Nacional de Benguela) recebeu relva, e vários campos no Lobito, em Cabinda, na Huila e mesmo em Luanda foram requalificados.
Um grande exemplo disto, foi a remodelação feita no velho Estádio dos Coqueiros, que agora de velho, só resta o nome
Portanto, não restam dúvidas, que para a realização de um evento como um CAN, Europeu, Mundial ou outro evento que congregue as maiores estrelas da modalidade em causa, quer a nível continental ou Mundial, o país organizador deve caprichar na sua organização, pois, trata-se de uma oportunidade não só de fazer receitas para os cofres do Estado com o evento em si, como por via do turismo, que o próprio evento promove.
Alem disso, todo o trabalho relativo à organização do certame, é um grande ganho para o país organizador. Entretanto, algumas pessoas da família do futebol angolano e não só, disseram que o governo errou, terrivelmente, ao construir os Estádios nas quatro províncias que sediaram o CAN 2010.
Para tais pessoas, seria melhor que fossem construídos hospitais, escolas ou outros bens públicos. O motivo de tais afirmações, é o facto da maior parte deles (dos Estádios) estarem abandonados e destratados. Para tais pessoas, o dinheiro foi mal empregue na construção dessas infra - estruturas públicas. Esta ideia está a fazer muito mais eco, desde a visita que o novo governador de Cabinda fez ao “moribundo” Estádio do Tchiazi.
Com todo o respeito, que tenho para com a opinião dos outros, devo dizer que também reprovo com veemência o estado em que se encontram os referidos Estádios, dado o elevado custo (e mesmo que fossem construídos a preço da banana) que envolveram a construção daqueles recintos desportivos.
É inconcebível, que passados sete/oito anos da sua construção, os referidos bens públicos estejam nas condições deploráveis que todos sabemos. Aliás, muito antes da visita do senhor governador de Cabinda ao Tchiazi, a imprensa fartou-se de falar sobre a situação, numa altura em que as coisas ainda podiam ser controladas com menos custos.
Até aí, tudo bem. Em minha modesta opinião, não podemos dizer que a construção dos Estádios acima referenciados, foi um grande erro da parte do governo, pelos argumentos apresentados acima, envolvidos na realização de um evento da envergadura de um CAN, que são óbvios e inescusáveis. Dizer que foi um erro, o governo ter construído os Estádios, equivale dizer que todos os governos que assim agem em circunstancias similares, também têm errado.
O grande problema, foi que o governo não acautelou o chamado “day - after” dos Estádios. Este, foi o erro, e não a construção dos mesmos. Quer dizer: o governo devia tomar medidas para manter os Estádios funcionais e saudáveis depois do CAN, em função do tempo de vida de uma infra-estrutura daquela dimensão, dado o tipo de material usado na sua construção.
Para algumas pessoas, os Estádios em referências tornaram-se numa espécie de elefante branco, por serem considerados sagrados em alguns países, não podem ser usados para fazer nenhum tipo de trabalho, mas devem ser muito bem tratados, o que pode levar o seu proprietário à ruína económica e consequentemente à pobreza.
Mas este não deve ser, necessariamente, o caso em questões de bens públicos geridos pelo Estado. A grande verdade é a impunidade, a falta de responsabilização e outros mimos que se dão a alguns gestores de bens públicos, que conduzem a este estado de coisas.
Um exemplo flagrante disto, foi o sumiço que se deu ao gerador de energia do Estádio da Tundavala, na Huila. Até hoje, passados mais de três anos, se a memória não me atraiçoa, ninguém sabe como o gerador “fugiu” do Estádio. A Rádio 5 até oferecia (ou oferece?) um bom prémio a quem der pistas, que conduzam ao gerador desaparecido.
Pelos vistos, parece que o aparelho evaporou-se. Acredito, não ser a pessoa indicada para dizer como o governo devia ou deve gerir a actual situação dos Estádios, por respeito às pessoas indicadas para o efeito. Mas acho, que a actual situação dos Estádios do CAN 2010, por estarem muito mal, ainda vai a tempo de ser melhorada.
AUGUSTO FERNANDES

Últimas Opiniões

  • 22 de Janeiro, 2018

    Bons indicadores

    Socorrendo-nos do slogan da governação no país, por agora, o objectivo deve continuar a ser “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, de modos a  resgatar o prestígio que os Palancas Negras já  conquistaram em determinado momento em África

    Ler mais »

  • 22 de Janeiro, 2018

    As complexidades ao se trabalhar marketing desportivo

    A primeira e derradeira complexidade, ao se trabalhar o marketing desportivo, prende-se com a intervenção e o entendimento correcto do referido conceito, na realidade em que esta ferramenta pretenda ser inserida.

    Ler mais »

  • 22 de Janeiro, 2018

    O desporto no nosso imaginário(fim)

    A trama do trágico destino do futebolista em causa, perdidos nalguns vícios nas horas vagas da "boa vida".

    Ler mais »

  • 20 de Janeiro, 2018

    Equipas esboçam tácticas para a presente temporada

    Com o arranque da época a aproximar-se, as 16 equipas que vão desfilar no Girabola Zap de 2018 já esboçam as estratégias com vista a atingirem os seus objectivos.

    Ler mais »

  • 20 de Janeiro, 2018

    Girabola Zap 2018 está à porta

    O Girabola Zap 2018 está prestes a iniciar. Pouco tempo nos separa do arranque da competição interna de futebol do nosso país, que tem igualmente o pendor de arrastar multidões e inflamar paixões.

    Ler mais »

Ver todas »