Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Corrigir o mal no futebol (I)

15 de Agosto, 2019
O futebol é, sem sombra de dúvidas, o desporto-rei, não só em Angola como na maior parte do mundo onde é praticado. Cá, entre nós, podemos considerar o futebol como sendo uma espécie de “religião” principal dos angolanos, onde quase todos (se não todos) se revêem.
Mesmo no tempo de guerra, que foi dos momentos mais difíceis que o país viveu, o futebol foi a modalidade que mais contribuiu para a paz entre os angolanos (sem desprimor para o basquetebol e andebol). Trumunus rijos envolvendo equipas como 1º de Maio de Benguela, 1º de Agosto, Petro de Luanda, Mambrôa do Huambo, Desportivo da Chela, Académica do Lobito ou Petro do Huambo, faziam calar as armas antes e depois dos jogos, porque os soldados de ambos os lados ficavam de ouvidos colados ao rádio, escutando os relatos.
A força que o futebol exerce nos angolanos, é vista quando o assunto for Palancas Negras, a nossa selecção principal. Sim, quando o onze nacional entra em acção o país fica “em estado de alerta total”. Por mais que alguns queiram fingir, que estão se “marimbando” pelo que acontece ou não com a selecção, volta e meia lá vêm perguntar: “Como está o jogo?”
Não é em vão que em Angola, o futebol é a modalidade que mais gasta, mesmo na maior parte das vezes, não justificando o investimento em si aplicado. Quando for necessário, até o número um do país entra em cena para resolver um problema da selecção nacional. É caso para dizer que pela influência que o futebol exerce na nossa sociedade, sobretudo na promoção da paz, está entre as “prioridades das prioridades”.
Assim sendo, implica dizer que o futebol merece uma atenção e tratamento especiais. Entretanto, desde que se fundou a Federação Angola de Futebol, (FAF) em 1976, aquele órgão sempre teve autonomia na gestão desta modalidade. Os dirigentes da FAF, sempre se sentiram à vontade para decidirem o que fazer do futebol nacional.
No entanto, temos de reconhecer que, por motivos alheios à nossa vontade, vivemos momentos muitos anormais desde a independência até praticamente 2002, altura em que se lançou o alicerce verdadeiro para a construção da Paz e da reconciliação nacional, que eram os dois elementos fundamentais que faltavam para acabar com as anormalidades, que também influenciaram na maneira de gerir o nosso desporto e, consequentemente, o futebol.
O espírito imediatista, que imperou durante aquele período, tomou conta de todos, pois a situação política e militar, que vigorou naquele período negro da nossa história, gerava muitas incertezas. Ninguém sabia o que o amanhã traria. Daí o imediatismo, que nós podemos considerar ter sido fruto dos factores conjunturais que vivemos.
Mas agora estamos diante de um novo paradigma. São passados 17 anos desde a plantação da árvore da paz e todos nós, que vimos o nascer da independência nacional em 11 de Novembro de 1975; vivemos de perto todo o período negro da nossa História, podemos dizer sem receio que estamos no bom caminho. Sim, um caminho do qual não haverá retorno.
Por isso, assim como já é possível corrigir o que esteve mal no passado em outras áreas da sociedade, também é possível fazer o mesmo no desporto, com realce para o futebol. Se por causa dos factores conjunturais que vivemos, por assim dizer, colocamos a carroça à frente dos bois, agora é hora de inverter a situação.
Por onde começar? Já identificamos quais são os problemas que impedem que o futebol nos dê as alegrias que queremos, especialmente com a falsa ideia que tivemos, depois de termos ido ao Mundial da Alemanha em 2006.
Quando fomos ao mundial, que diga-se de passagem, foi mais por uma distracção da Nigéria, do que por mérito nosso, a maior parte de nós colocou na mente que tínhamos atingido o topo do futebol Africano. Não tivemos a humildade de reconhecer, que ainda não estávamos a altura de ser Mundialistas e que a nossa presença na Alemanha não passou de um mero acidente de percurso.
Agora, os resultados desta falta de modéstia estão aí. Queremos algo que nunca foi nosso. Não se pode resgatar, aquilo que nunca foi nosso ou que nunca tivemos. Queremos fazer boa figura nas competições onde estivermos envolvidos, assim como acontece com selecções como o Egipto, Camarões, Gana, Costa do Marfim e outras? Assim como sem ovos não se fazem omeletas, sem jogadores de qualidades não se conseguem bons resultados.
É por isso é que no andebol feminino, demos cartas em África e fizemos boa figura a nível Mundial e no basquetebol idem. Porquê? Porque temos “matéria prima” e boa organização. Isto implica dizer, que primeiro temos de nos organizar bem. Temos de definir claramente as prioridades, ao nível das melhores equipas de África.
Visto que quem fornece jogadores para a selecção nacional são os clubes, então tudo deve começar por aí. Mas a questão è: quem deve conduzir ou dirigir o programa da selecção nacional de futebol?
Já dissemos que, durante os 39 anos de existência da FAF, este órgão foi praticamente soberano na gestão dos destinos do futebol angolano, especialmente das selecções nacionais. Os resultados estão a vista de todos. Também já vimos alguns factores, que contribuíram para estes resultados.
Assim, é importante mudar de estratégia. Tendo em atenção, que a selecção nacional é propriedade do estado e, por isso, o seu principal patrocinador, é somente normal e aceitável que seja ele, o estado, a planificar a vida da sua equipa ou, no mínimo, aprovar os programas da FAF. Como assim?..... (continua no próximo numero). Augusto Fernandes


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