Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Custo de um jogo do Girabola e o desenvolvimento do futebol

28 de Março, 2019

  1. O futebol é uma modalidade bastante popular em muitas sociedades, destaque para o Brasil e a Inglaterra, onde os adeptos não poupam esforço para ver a sua equipa do coração, razão pela qual os campos estão sempre lotados e barulhentos. Em Angola, o seu lugar encontra-se muito bem guardado no grupo de modalidades chamadas de ricas, juntamente com o basquetebol e o andebol, pelo facto de serem as sortudas quanto à alocação de verba. Sim, realmente o orçamento para as actividades desportivas reserva uma grande fracção para o futebol se comparada às quantias recebidas por federações que pertencem ao grupo das chamadas modalidades pobres, visto que o orçamento das mesmas é uma gota no oceano do futebol, andebol e basquetebol. Gostaria de esclarecer que a classificação empírica das modalidades desportivas em ricas e pobres é bastante utilizada pelos dirigentes das federações desportivas que fazem parte do grupo das modalidades pobres, como forma demanifestar a insatisfação aos exíguos orçamentos. Contudo, “os pobres dirigentes” acabamsempre por convencerem-se que, na ausência do cão para caçar um coelho gordo, o gato servepara oferecer aos seus apetites um magro rato do mato.

Ainda sobre o pouco ou muito, eu não sei se, para uns e outros, o orçamento é de subsistência ou desenvolvimento, porque ninguém está contente com o que tem anualmente. Sinais de desenvolvimento do nosso desporto ocorreu quando se construíram campos de futebol e pavilhões polivalentes em algumas províncias do país, mas, infelizmente, não houve o aproveitamento esperado desse ingente esforço do nosso governo, por razões que faço referência na minha última publicação, em que apresento a falta de um Instituto Nacional de Desporto como o problema estratégico do desporto nacional. Realmente, perdeu-se uma oportunidade única para se relançar o desenvolvimento das modalidades ricas à grande escala, isto é, o andebol feminino ambicionaria resultados a volta do quinto lugar em Campeonatos do Mundo e Jogos Olímpicos, o futebol deveria ser useiro da fase final do Campeonato do Mundo e o basquetebol masculino e feminino deveriam adquirir a hegemonia do basquetebol em África.Voltando ao futebol, devo dizer que o orçamento da sua federação não é de desenvolvimento, assim como não é de desenvolvimento o orçamento da maioria das equipas de futebol de Angola, mas de subsistência à par da natureza de lavoura da maioria dos nossos camponeses.
No actual contexto económico do país, não se pode esperar grandes milagres, embora o governo esteja sensibilizado de quanto contribui o futebol para o bem-estar da população de Angola. No entanto, é possível transformar o orçamento de subsistência em de desenvolvimento se mudarmos o molde de disputa do actual Girabola que passaria a ser m duas fases, sendo uma regional, disputada no regime do actual Girabola com seis regiões, sendo a primeira de Luanda e Bengo, a segunda Uíge, Kwanza Norte e Malanje, a terceira de Cabinda e Zaire, a quarta de Lundas Norte e Sul e Moxico, a quinta da Huíla, Namibe, Cunene e Cuando Cubango, sexta de Benguela e Cuanza Sul e a sétima do Huambo e Bié, e a outra, a nacional, no molde de disputa da fase final do Mundial de futebol, isto é, disputa concentrada numa província. Para a fase nacional, cada região apuraria duas equipas, exceptuando a região um, constituída por Luanda e Bengo, que qualificaria quatro equipas.
Este modelo levaria à economização de grandes quantias financeiras pelos Clubes Desportivos, levaria ao crescimento económico e social das províncias que organizassem a fase final do Girabola com a melhoria de instalações desportivas, hoteleiras e, consequentemente, o turismo doméstico ganharia um certo peso na economia da província anfitriã. Penso que o governo central e provincial jogariam um papel determinante para a viabilidade deste projecto, bem como as empresas privadas, mas o governo nacional deverá criar mecanismo de fiscalização de todo dinheiro que qualquer equipa receba de patrocinadores, colaboradores e amigos.
Quanto ao valor financeiro de um jogo de futebol no Girabola, devo dizer que o mesmo é decorrente de duas situações, visto que uma equipa disputa quinze jogos em casa e quinze jogos em campos de adversários que podem ser da mesma província ou de outras. Esclarecer que as equipas de Luanda, por serem seis no Girabola, acabam por fazer deslocações tão-somente à nove províncias, ao contrário de uma única equipa de futebol numa província que faz gastos financeiros em deslocações à quinze províncias. Este é um factor que, de certa forma, não contribui para o desenvolvimento do futebol nessas províncias, quando no passado elas deram muitos craques ao futebol nacional e possuíam infra-estruturas desportivas que nenhuma outra de Luanda tinha. Quando uma equipa de futebol joga em casa o seu clube tem que pagar os serviços realizados pela Cruz Vermelha de Angola, Corpo de Bombeiro Nacional, Policia Nacional, o campo para quem não é proprietário, deslocação, alimentação e hospedagem da equipa de arbitragem, aparelhagem sonora e, se tiver a sorte dos Deuses da caridade, poderá vender milhares de ingressos, se for um dos grandes do nosso futebol, para compensar os gastos. Mais uma vez, infelizmente, poderão depreender que as equipas pequenas só poderão vender algumas centenas de bilhetes que não cobrem os gastos com a realização do jogo em casa, deixando os pequenos clubes de futebol mais pequenos. Quanto às deslocações, a situação não é risonha, visto que o custo de uma viagem aérea de ida e volta fica à volta dos oitenta mil kwanzas e a hospedagem diária numa unidade hoteleira fica, em média, por treze mil kwanzas, sem incluir o almoço e jantar. Por conseguinte, e isto numa vertente para os mais pobres, um jogo do Girabola em casa fica em aproximadamente um milhão e quinhentos mil Kwanzas, enquanto o jogo fora de casa tem uma estimativa de dois milhões e quinhentos mil Kwanzas.
Caros amantes do futebol ajudem-me a concluir os cálculos, pois a minha cabeça já anda aos giros só de pensar nos gastos anuais com a contratação de jogadores de futebol que os clubes desportivos se aventuram, podendo ser estes nacionais, como quadradinho de origem chinesa e hiace de origem japonesa que estão na origem da queda de divisão de muitos clubes desportivos. Não sei de quantos milhões de kwanzas precisa um clube desportivo para participar num Girabola quando há muito para se pagar e, infelizmente, a desejada qualidade no futebol é um sonho. E o mais agravante nisto tudo é que os clubes desportivos acabam por prejudicar gravemente as outras equipas, como de basquetebol, andebol e atletismo, para a infelicidade de todos os adeptos desportivos, pois a congestão do futebol é estratégica, viral e nacional que podemos dizer que, enquanto o futebol não acertar, o desporto nacional continuará em turbulência.Manuel Garrido

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