Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Dar prolas a porcos...

10 de Janeiro, 2019
Estado de direito, propriedades do estado ou sejam investimentos públicos e usos privados (estádios e pavilhões, piscinas, hotéis, etc). Angola perdeu a visão comum do fenómeno desportivo. Os clubes são actualmente mais virados para competir, quer formar; uma mudança do quadro só poderia obedecer às chamadas ordens superiores.
Quando o desporto é entendido como um movimento formador de pessoas e talentos, que crescem com normalidade, a partir da tenra idade nos clubes, isso é hoje uma utopia, pois os clubes estão focados apenas em triunfar, mas triunfar no “Girabola”; e como todos os grandes também estão no futebol, à mesma mesa falam mais baixo as modalidades de sala.
Curioso notar que um famoso jornal português, naturalmente um influenciador entre os adeptos desportivos angolanos, divide o desporto em duas partes: futebol e modalidades. Não estranha que em Angola, sendo dez em cada dez, consumidores ávidos desse tal título, passem igualmente a raciocinar nos nossos clubes em termos semelhantes, isto é, futebol e o resto.
Isso cria lamentavelmente uma distorção do papel e visão dos clubes desportivos, da mesma forma que deseduca desportivamente a população, pois não fomenta o desporto na sua transversalidade, além de mutilar muitos talentos nas ditas ‘modalidades’ e que ficam sem chão para se poderem desenvolver e crescer.
A questão devia começar por uma definição (ou seria redefinição)do que é o desporto, qual o seu conteúdo, qual a sua forma de expressão, qual o seu âmbito social e geográfico. Talvez assim fosse mais fácil equacionar como as municipalidades poderão contribuir para uma ocupação recreativa e inclusive instrutiva dos tempos ociosos da juventude, que parece que agora são a maior parte do dia.
Do mesmo modo, ao faltar definir-se o desporto como actividade socialmente útil e ocupação para muitos profissionais, está-se a comprometer a evolução desportiva de todo um país e, logo, da sua própria juventude. O problema é não haver a natural evolução dos clubes, partindo estes das camadas jovens e de formação particularmente.
À falta destas definições que seriam basilares, junta-se para aumento da libertinagem desportiva, não estar regulamentado em todos os desportos que não se possa competir num escalão, sem ter em actividade os anteriores. Ou seja, não se poder competir em juniores se não se tiver em actividade os juvenis ou cadetes do clube; nem se poder competir em seniores se não se tiver juniores, os quais também só podem jogar se houver já juvenis do clube em actividade.
Esta regra do fomento deve-se à falta de políticas. Infelizmente termos um ministério da juventude e desporto não beneficia o sector com o volume, nem nível desejado de organização, para se poder ver progressos, desenvolvimento, crescimento, pujança desportiva e motivação associativa.
Curiosamente o desporto tem mostrado ilhas de crescimento no seio da juventude, que seria mais activa e numerosa se houvesse educação física nas escolas e desportos no recreio. Assim algumas realidades como autênticos oásis mostram o surgimento de clubes praticamente mono-desportivos e que se dedicam a um só desporto, mas onde apresentam os escalões de formação e camadas jovens completos e em ambos os sexos.
Curiosamente ainda, clubes grandes há que não dão o exemplo, como sucede com alguns emblemas no basquetebol, ou andebol, e que só não vou citar por me faltar um levantamento completo de q uem são os exemplares e os infractores. Mas que os há, lá isso há.
Assim e por falta já não só de políticas, mas também de um regulamento geral, apenas a modalidade do futebol aplica a sanção de privar um clube de jogar no “Girabola”, que é uma prova sénior, se o mesmo emblema não jogar em juniores e juvenis. Seguramente ainda há os incumpridores, mas será importante e útil reduzir ao máximo as excepções.

Mas por quê só no futebol?
O problema é transversal e aparentemente não tem preocupado a Direcção Nacional do Desporto, que afinal não se sabe o que dirige, podendo bem ser o caso de se tratar de um nome apenas para haver um director nacional mais...
Quais as metas desportivas do país em 2019? Cada um é que sabe? Parece que, sim.
Os dinheiros, esses, não se multiplicam como o pão e a água, sendo expectável que não haverá verba para todos irem competir fora, muito menos estagiar em preparação. Veja-se o caso do hóquei em patins.
Anfitriã do próximo campeonato africano com patins, Angola não vai estagiar fora e deverá organizar um combinado de uma dezena para treinar mano-a-mano, mas isso não se trata de subestimar os adversários, apenas de falta de suficientes recursos financeiros.
Avaliado em uma despesa de 30 milhões de kwanzas para o país, o CAN de hóquei em patins, segunda maior prova cá organizada após o mundial de 2013, no mesmo multiusos do Kilamba, é uma gorjeta comparado com a janela FIBA que o mesmo recinto albergou em Novembro. Assim e para se pôr a cereja no cimo desse bolo, seria preciso que, no fim, Angola se qualificasse para o mundial.
Um africano de hóquei-em-patins vai ser algo revolucionário para a imagem africana da modalidade, que tem em Angola e Moçambique os países mais tradicionais do continente, seguidos da África do Sul. Quem serão os outros, não tardará a descobrirmos, mas nesta modalidade vamos ter a oportunidade de assistirmos a quantos pesos e medidas diferentes temos no desporto. E contrastes.
O primeiro destaque vai para a natureza mais amante do desporto, mas nem por isso amadora, que os hoquistas têm, quando comparados com os andebolistas, basquetebolistas e futebolistas. Estes, na sua maioria calçam salto alto e antes das convocatórias já estão mais preocupados com os subsídios, prémios pecuniários, bónus ou o que se lhe quiser chamar, demonstrando um desporto apenas interessante se primeiro forem pagos para jogar.
O que parece uma aberração causada pelos atletas, encontra compadrio nos próprios dirigentes, para quem estas delegações e vantagens são de ajuda à sua economia doméstica, deixando-nos a ver que o desporto, pelo desporto, não é o verdadeiro motivo destes desportistas, mas aquilo com que o desporto lhes encha os bolsos.
É por isso que o desporto também deixou de ser atraente para os treinadores nas camadas jovens e de formação, pois menores de idade não reclamam prémio de presença, muito menos de competição, pois ainda são seres bem formados, mas a maioridade há-de fazer deles deformados. Assim e quando oiço equipas queixarem-se da falta de psicólogo, eu penso logo que o problema real será ético, filosófico e super-financeiro.
Afinal qual será a nossa ética desportiva? Será a do desporto pelo desporto, ou a do desporto pelo pagamento?
Quer se queira ou não, a descaracterização desportiva em Angola partiu desta corrupção dos sentimentos e valores desportivos, que hoje são a condição “sine-qua-non” do desporto de rendimento em Angola, mesmo quando se rende pouco como se vê no futebol e particularmente no “Girabola”.
O país que melhores salários atribuiu no futebol africano, até há poucos anos atrás, e que atraía os melhores estrangeiros domésticos, ficou sem dinheiro e sem o futebol que isso pagava. Os estrangeiros perderam o interesse pelos nossos emblemas e estes praticamente não evoluíram, passados os anos. Ao contrário, tendo um futebol jovem forte, Angola haveria de sobreviver à febre do vil metal...
Outro paradoxo, depois, é os atletas ficarem sem margem de progressão após medalhas e taças ganhas em juvenis e juniores, por os regulamentos das provas seniores não lhes abrirem portas, nem sequer darem dois lugares no banco, pelo menos, e minutos obrigatórios de utilização. Dir-se-á que somos actualmente um país que não pensa muito na sua juventude desportiva, nem sabe desenvolver e projectar os seus recursos humanos.
Mais uma vez a situação reflecte apenas e simplesmente o reflexo da falta de políticas no sector e a total liberdade de os agentes desportivos se regularem a si mesmo, para além de o pão de que vivem ser-lhes a única coisa dada pelo Estado, através do ministério de tutela.
Assim e tratando-se de recursos financeiros escassos do país, será caso para se poder dizer que em Angola há mesmo muita pérola dada a porcos... A frase feita “deitar (ou dar) pérolas a porcos” – na verdade uma expressão bíblica – significa conceder benefícios a quem não os merece ou não sabe apreciá-los. É oferecer coisas finas, delicadas, ricas ou requintadas a pessoas rudes, ignorantes ou insensíveis.
condições pautado por interesses de lucro monetário tendo sido a causa maior do nosso descalabro.
O círculo vicioso irmana hoje a dirigentes e atletas, passando pelos treinadores; no futebol estes pedem o dobro do que cobram os atletas para jogar, ou por vitória;
Ario praticado e pesos.
ARLINDO MACEDO

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