Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

De pequeno se torce o pepino

01 de Fevereiro, 2017
O CAN não cessa de nos deixar recados, ao futebol. E porque o problema é mais grave do que o futebol, por se tratar de um comportamento de país, este CAN que o Gabão e a Guiné Equatorial têm albergado há já três edições e que faz jus aos quatro estádios de referência, em cada país, mostrando como manter aquelas instalações oleadas, ao invés de ficarem a servir para pasto e oficinas.

Este CAN mostrou os novos rostos das grandes potências, aquelas que pela sua regularidade constituem a minha referência, onde se colocam também agora Burkina Faso, RDC e Togo, por serem países que nos começam a habituar também à sua presença. Eu não hesitaria em dizer que esses povos e sociedades têm uma relação mais séria com o físico e o colectivo, do que nós estamos a ser habituados a ter. Ainda a semana passada falei na influência que tem nesses desportista, o meio social e cultural e desportivo; e através da escola secundária, o benefício das aulas de educação física e desportos, com a cooperação Francesa.

Engana-se quem pensar que a nossa sorte no futebol está na falta de sorte; nós não estamos a jogar nada de jeito, andamos metidos com gente e coisa sofrível, em vez de arquitectarmos um plano nacional, como fazem os países comuns, para tirar o futebol do charco como um só povo e uma só nação. Só que para nós, Angolanos, isto são coisas anacrónicas, entretidos que andamos mais, a procurar sair da miséria pessoal e criar riqueza; para aqueles povos, que bem conheço, a primeira riqueza colectiva é o futebol.

Vejamos este simples exemplo de um país em guerra e a atravessar uma crise total, a República Democrática do Congo e antigo Zaíre, em crise contínua desde o derrube do regime à laKaddafi, de Mobutu; ambos estadistas compreenderam primeiro a importância nacional do Futebol. Em sociedades ainda de subsistência, como a nossa, o chamado desporto-rei não passa de um nome, de ser chamado rei como também o fazem a Elias DiáKimuezo, ambos sem o mínimo proveito.

Na RDC, um Norberto de Castro daquele país montou há poucos anos um projecto de academia que hoje vai e tem mais de 3.800 alunos, dos 6 aos 18 anos, sob o cuidado de 300 monitores; além daqueles, a Academia Ujana faz gratuitamente trabalho social com outras 400 crianças e jovens de comunidades pobres, pretendendo dar-lhes oportunidade através do futebol. Aos pais e tutores dos outros 3.800, a mensalidade na academia custa-lhes o equivalente a 40 dólares americanos.

E deste quando, em Angola, poderia funcionar alguma academia prática de futebol, que hoje poderia ir no seu décimo ano, por exemplo, a praticar mensalidades equivalentes a 40 dólares? Impensável, até o sindicato do mal do futebol angolano limparia o sebo a quem viesse para aqui com essas ideias de ‘dumping’, ou seja, praticar custos realistas, em vez de encarecer para melhor render.

É esse, o mal do nosso futebol; falta de cultura, falta de estatuto e falta de gente séria. Os outros vivem já adiante de nós, vivem no futebol-indústria, enquanto nós jazemos aqui no futebol-micha, um autêntico atraso de vida a preços exorbitantes de custos; só pode ser a bolha do futebol a resistir em Angola! Sim, depois da bolha do imobiliário, da bolha dos bancos, ou da bolha do petróleo, ainda nos sobrou a bolha do futebol...

Então e enquanto vivemos como muito, usando um iate para ir e vir do Mussulo sem sequer se fazer ao mar de verdade e conhecer só o Soyo, também o nosso futebol está a comer as entranhas do desporto e dos clubes, levando tudo sem criar nada, quase nada de valor; não se poderá deduzir melhor de quem se bate tanto por jogadores e treinadores estrangeiros, visando tão somente dominar no país. Ao que chegámos nós, hoje uns sacos de pancada do futebol continental!

Então é assim, ver-se como os outros, mesmo em guerra e a viver com economias que nunca viram mais zeros do que a nossa, conseguem com a sua própria auto-sustentabilidade criar futebol. E então reflectir-se, e porque não, nós?

Ora, sem um pensamento industrial do futebol, desprovidos de uma cultura de auto-sustentabilidade e cultivando sistematicamente uma hostilidade a contas auditadas, eis porque até as migalhas do futebol são cobiçadas. De outro modo, o fundo de desenvolvimento de o futebol saber-se-ia a quantas serve e o rendimento das galerias dos estádios daria para manter composto um ramalhete que, desta forma, não passa da gala e em verdadeiro sentido, banga que se faz em ter tantos estádios e pavilhões construídos e reparados sem uma taxa aceitável de ocupação desportiva.

Ou será o nosso, um país em que os jovens não gostam assim tanto de desporto? E aqueles que gostam de futebol, hoje com 17 a 20 anos, estariam preparados para daqui a seis anos serem a nossa selecção? Vimos a juventude que trouxeram todos os países, a começar pelos regressados Egipto, Marrocos e Senegal, a exemplo do Gana e Burkina Faso; ou sinta-se o quanto vem evoluindo aquele Gabão de 2008, antes de pousarmos a cabeça entre as mãos e valorizarnos a nossa estatueta ‘o Pensador’.

O que nos faltam são escolas ‘pepineiras’. Aqui, os grandes ausentes têm sido os poderes públicos; a falta de liderança cultural nas comunidades têm sido reflexo da pobreza da vida partidária, também ela a braços com inobservância dos valores e cultos quotidianos e rotineiros dos grupos sociais em sua dimensão cultural de vida ainda sacudida pelos apertos orçamentais da educação, ensino e cultura, para além da saúde, no seu meio natal, remoto e esquecido pela cidade.

Desta forma, falta ao nosso futebol aquela dimensão humana e de desenvolvimento, antes da tal dimensão industrial natural quando observados aqueles primeiros pressupostos. Ter-se a consciência de que se o dinheiro do futebol andasse melhor aplicado e distribuído, estaríamos hoje a viver de rendimentos, ao invés de tornar em despesa toda a verba que houve para investimento, era uma situação que bem nos poderia servir agora. Assim e definitivamente, o mal do futebol está no homem e nas suas omissões, quando no trilho das suas atribuições ele abandonar o pensamento desportivo e comprometer a visão do possível, apenas por ele se pretender colocar à frente de tudo o resto.
ARLINDO MACEDO

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