Jornal dos Desportos

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Opinio

De regresso s origens?

03 de Março, 2017
O Girabola2017 pode representar o fim de um ciclo, e o arranque do outro. Ou seja, a crise dos dólares que afugentou muitos jogadores estrangeiros restabeleceu o equilíbrio na competição, que tinha sido \"sequestrada\" pelos grandes. Aliás, pelos endinheirados, que forçados pela conjuntura, terão de olhar para os próprios umbigos. E há quem não tenha umbigos, por conta própria.

Por conta da opção que fez, contratando preferencialmente ao invés de investir na formação como fez o 1º de Agosto, o Atlético Sport Aviação (ASA) e o Petro de Luanda, pelo menos esses. Libolo e Kabuscorp do Palanca, outras duas equipas que enchiam o peito, considerando-se grandes por conta dos seus bolsos cheios podem enfrentar ou começar a ter dificuldades para jogar de igual com os outros. Enquanto Petro de Luanda e o 1º de Agosto dão-se ao luxo de possuírem cinco ou mesmo seis jogadores da sua formação no onze titular, essas equipas nem um no banco de suplentes possuem.
É o preço da construção do castelo pelo tecto, o que habitualmente acaba por ter consequências, quase sempre nefastas. A fuga de jogadores estrangeiros abre portas para os miúdos cujas têm sido escassas; por outro lado; e obriga também os clubes a investirem na formação.

Seria bom que essa situação fosse transversal. Que atingisse também o sector dos técnicos. Por enquanto os grandes ainda encontram-se em mãos de treinadores estrangeiros. A par disso, espera-se que o Girabola seja novamente de gritos, pois as dificuldades financeiras avizinham-se já. Se aos grandes clubes não se espera que gritem tanto já em relação aos pequenos não se sabe a sorte que lhes espera. Oxalá a Federação Angolana de Futebol possa arrecadar receitas para ir tapando os grandes buracos orçamentais que os clubes apresentam.

Seria primeiro exigível que a FAF tornasse público os valores que envolvem este negócio do naming e dos direitos televisivo da competição, assim como as receitas que cabem a cada equipa. É um imperativo que denota transparência. Ainda que a empresa envolvida não aceite, a FAF tem de lhe recordar a necessidade da transparência para com os adeptos do futebol, e para os eventuais interessados em disputar com a ZAP o espaço. É assim que funciona a economia de mercado.

Espera-se por outro lado que haja pudor na arbitragem, embora em época de fome ou de aperto seja quase impossível a apelar para a deontologia profissional. Em homenagem ao esforço que as equipas fazem, seria bom que a arbitragem fosse limpa. É um apelo que tem dois sentidos para os clubes, que são promotores do fenómeno e para os \"promovidos\".

Considero que o Girabola2017 pode representar uma viragem. O fim da arrogância dos que possuíam tanto e agora estão quase no mesmo patamar, por conta dos dólares. É uma vitória para o futebol, àquele que é feito com amor e por amor. O futebol, uma modalidade que não é de elite, embora houvesse quem quisesse que fosse, poderá voltar a ser dominado pelos jogadores que andam de cima a abaixo nos mais diversos bairros das cidades do país. O futebol que se praticou até hoje era de quem mais dinheiro possuía. Talvez tenha chegado o fim. Talvez seja a hora do regresso às origens, aos bairros, aos campos pelados (os poucos que ainda resistem). E aos miúdos com natural talento. De Pelé a Neymar, de Maradona a Messi, de Nunguidi a Gelson, o futebol sempre teve como viveiro as famílias humildes, porque é uma modalidade que assenta no talento. E esse é quase sempre inato.
Teixeira Cândido

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