Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Demo branco e os nossos Pel com muleta

12 de Novembro, 2018
Desporto e campeões do mundo sobressaíram na homenagem presidencial a cidadãos angolanos que se terão distinguido ao longo da luta pela independência e na construção do primeiro meio século do país novo. Era habitual e quase conceptual as homenagens à cultura reflectirem uma falsa noção de que para nós fossem apenas parte as artes, música e dança. E ocasionalmente a literatura.
Na sua essência o desporto é cultura e representa um avanço nas considerações públicas que se fazem. Por exemplo, além de ter valorizado o desporto como forma e até força de diplomacia, o momento veio trazer uma nova afirmação tácita de que os jogos olímpicos e seus títulos não são aqui vistos à mesma escala dos campeonatos do mundo, como adiante farei considerações.
Mas aqui a questão parece ser de mérito, a crer pelo facto de este reconhecimento ter provindo do Estado e sido pronunciado pelo Presidente da República, em véspera do 43º aniversário da independência do País. E como sempre num escrutínio semi-aberto e rápido não há forma nem rigor possível de consulta popular, a menos que já se tivesse aproveitado os boletins de voto, nas eleições gerais, para aproveitar fazer outros escrutínios; por exemplo, pedir ao eleitor que indicasse igualmente qual o seu músico preferido, ou desporto, clube, escritor, etc.
Já antes, por ocasião das comemorações dos 30 e dos 40 anos da nossa independência, haviam sido dadas comendas e feita a correspondente condecoração a personalidades angolanas que haviam dado o seu superior contributo na afirmação nacional da angolanidade. De entre eles, realço, e sempre por ordem alfabética, os nomes de Álvaro Holden Roberto, Filomeno de Sá Dibala, Jorge Alicerces Valentim, Lúcio Barreto de Lara, Miguel N’zau Puna, Ngola Kabango e muitas outras figuras, que foram dessas vezes homenageadas na Cidadela Desportiva de Luanda.
Agora que as pessoas se vão apercebendo de que, afinal, ainda existe esta oportunidade para eles, de caber na fotografia e recer também uma comenda, vão começar a reaparecer cidadãos, outros a lutar para aparecer, canalizando, se necessário, o movimento ‘apareci’ também para a corrente (ou voltou a ser torrente?) da bajulação, que se hão-de misturar nos candidatos com aqueles outros cidadãos realmente exemplares e extraordinários, que são nada maratonistas de protagonismo social pseudo-cívico e empenhado em arranjar lugar na fotografia. E quantos heróis tem este país de quem nunca vimos uma fotografia...
E os nomes que ‘popularmente’ terão sobrado não demorou para se ouvir pronunciados na rua. E será pelos nomes (que foram) reconhecidos que me vou orientar comentando.
O desporto, sendo uma Marca angolana desde os primórdios da sua independência e mui digno embaixador do País, saiu reconhecido na foto. O velho embaixador do País recuperou o seu galardão.
Assim sendo, ressalta logo das primeiras fotos e grandeza superior do grau de reconhecimento, entre outros, os do Professor Victorino Cunha e do antigo capitão dos “’Palancas Negras’ e antigo deputado, Fabrice Maieco ‘Akwá’.
Abaixo, vêm os nossos campeões mundiais já consagrados – contudo não vi o pugilista Tony Kicanga de quem recordo o cinturão de campeão mundial ofertado antes ao antigo Presidente da República - e assim se fecharia o selecto clube de desportistas homenageados desta vez pela Nação.
Os campeões do mundo homenageados, a que me referi, são o Onze de futebol com muletas, encabeçado pelo MVP mundial e nosso defesa central, Celestino Elias, e o lutador Demarte Pena, prodígio de lutas combinadas (MMA/UFC).
Ainda ao ver igualmente entre os laureados uma grande figura angolense do nacionalismo, Liceu Vieira Dias, recordei-me do seu contemporâneo de igual estirpe e também modelo da sociedade angolense, Demósthenes de Almeida Clington. E nbão desmerece, aqui e agora, recordar a figura e modelo que foi para a juventude do sul de Angola, o filho de Benguela, Edelfrides Palhares ‘Miau’. É que todos eles moldaram gerações angolanas que um dia também estariam nas raízes do movimento nacionalista e mais tarde independentista.
Liceu já foi distinguido, ‘Demo’ e ‘Miau’, ainda não, que eu me lembre; mas Demósthenes (1898-1973) veio pequenino de São Tomé e sempre foi tratado como angolano, portanto, nunca será aqui caso inédito. Foi o facto de a sua existência ter sido um exemplo de dedicação à prática e ensino do desporto, de uma forma tão humanista quanto angolense, que formou interminável fila de discípulos nas escolas e nos clubes da época, os quais ficaram vincados por um carácter elevado como jovens e como cidadãos. O Velho Demo viveu a marcar uma época de mais de meio século, fruto do seu exemplar comportamento cívico.
Quanto a Edelfride Palhares da Costa ‘Miau’, foi uma lenda viva do nosso desporto e do futebol em especial, que jogou por Benguela, Angola e Portugal, lembrado como o modelo que influenciou as gerações de 1940 a 70 particularmente no desporto. De facto o seu nome já é do estádio municipal da sua cidade natal, porém, não sei se será homenagem o bastante.
Ainda escusando evitar o paralelismo, tenho no canto do olho e ponta da língua a José Sayovo, repetente campeão paralímpico, cuja ‘ausência’ me faz reflectir se em Angola teremos em paridade os títulos mundiais de campeonatos e dos jogos olímpicos, ou paralímpicos. Esse é o debate que agora ficarei a travar com os meus botões, mas não aqui.
Sayovo, o primeiro angolano com tamanho desportivamente mundial, não sairá disto como tendo sido agora emulado pelo Onze nacional de futebol com muletas. No entanto e feitas as necessárias enfâses acaba por se evidenciar que o grande vencedor interno parece estar a ser o desporto paralímpico angolano.
Enraízado nas antigas tradições de luta e galhardia dos antigos guerrilheiros, o comité paralímpico surgiu para fazer integração social por via do desporto e aproveitar o entusiasmo que não cederam no seu ímpeto apesar da perda de uma perna, braço ou visão, não cedendo à tentação de se deixar à mercê de uma invalidez por causa das minas terrestres plantadas no nosso território e outras situações de guerra e conflito que havia. As portas estavam igualmente abertas para todos os ‘civis’ atletas diferentes e especiais.
Superior reconhecimento merece, de sobra, Victorino Cunha, que é para muitos apenas o antigo seleccionador nacional de basquetebol; mas os méritos do professor são vários, partindo de tudo aquilo quanto fez pela evolução do desporto angolano pós-colonial.
Este antigo professor de educação física formado pelo INEF de Luanda, contemporâneo de outros formandos dali e futuros campeões como ele – e só vou realçar aqui Mário Palma, Wlademiro Romero e Alberto de Carvalho ‘Ginguba’ -, foi sobretudo um metodólogo desportivo que revolucionou o treinamento desportivo na generalidade e diversidade das modalidades, por osmose humana, tendo ajudado a fortalecer e promover o basquetebol em África inteira.
Ele fica já o nosso ‘Demo branco’, quanto a ter sido mentor de muitos atletas e depois alguns deles, também treinadores. E só por desatenção eu não iria citar a inovação que o professor Victorino Cunha havia introduzido na então Secretaria de Estado da educação física e desportos – a criação de um departamento de alta-competição com técnicos especializados - que depois desapareceu da reconfiguração da secretaria em Ministério da juventude e desporto, no mesmo contexto em que o Estado depois retirou do subsídio ao desporto, a fatia maior.
Ainda entre as leituras que estas últimas comendas me oferecem discorrer, é que o professor José Oliveira Gonçalves vê esclarecida a mística mundialista que partilhava na opinião popular, ao não ter sido posto ao nível do ‘Pai do nosso golo para o Mundial’. No entanto são também nomes para ficar gravados a ouro na nossa memória colectiva, os dos professores Oliveira Gonçalves ou Mabi de Almeida, ou ainda Alberto Ferreira ‘Beto’ e Gerónimo Neto ‘Jojó’, igualmente filhos do INEF e os primeiros técnicos mais repetentes de títulos africanos de andebol; e, atenção, que repetente não significa reprovado, mas aquele que repete.
Quanto ao icónico futebolista Fabrice Maieco, aliás ‘Akwá’, o seu nome fica memorável por razões diferentes da maioria dos nossos outros heróis do desporto. (...)
História não se faz por decreto, nem a fazem apenas instituições, nem vem exclusivamente em compêndios; a História fazem-na os homens com os seus feitos narrados e ainda por narrar, porém o Homem sempre usou sobretudo a oralidade e em particular a tradição oral como veículo e recipiente das narrativas da História. E só ela recordará daqui a cem, ou mil anos, e contará quem foram um dia Demarte, ‘Akwá’ ou Celestino (o MVP, todavia sem desprimor do resto do Onze de futebol com muletas).
Ao escolher desta vez estes nomes deu-se formalmente a dimensão histórica a uns, porventura ainda por ser formalmente reconhecida a outros. Por exemplo, a História de
Angola deverá esquecer a Demósthenes de Almeida, enquanto Cuba, que tanto nos inspira, continua a estudar e a comemorar um argentino, Ernesto ‘Che’ Guevara.
Arlindo Macedo

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