Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Depois da festa, o balano

12 de Novembro, 2016
No intervalo de uma semana foram amealhados dois dos três mais cobiçados troféus do nosso desporto de rendimento e em geral, idos parar e nada por acaso, na mesma galeria. Moram doravante na sede do Clube Primeiro de Agosto os títulos de campeão do “Girabola”, e portanto de Angola, e agora também tricampeão de África de andebol feminino, feitos esses coincidentemente arrebatados ao seu arqui-rival, Petro Atlético de Luanda, e que vêm premiar o labor desportivo e o desenvolvimento estrutural e infra-estrutural alcançado ultimamente no clube militar, um exemplo de como pensar na floresta para além da árvore, e de como se faz um planeamento ajustado ao dar-se o passo do tamanho da perna apenas, portanto dando a imagem da gestão correcta e por cima dela haver uma visão não apenas periférica mas também perspectiva da direcção do general Carlos Hendrick, quem ainda vice-presidente do clube já havia colocado em marcha a ideia da academia de andebol do clube e mais recentemente o seu centro de estágio, gerando maiores facilidades e condições de treinamento, um ambiente de trabalho apropriado a conquistar resultados desportivos.

Já se havia notado que além de crescer para fora, o Primeiro de Agosto quis primeiro crescer dentro e a forma como a direcção do clube estruturou o seu quotidiano e metodologia de trabalho, incluindo nos primeiros cuidados a prestar aquando de lesões e se necessário indo tratar fora das mesmas, são igualmente facetas do desenvolvimento e sucesso do clube, servido por quadros técnicos e desportivos com provas dadas anteriormente, inclusive fora do país e noutros clubes, que constituem uma equipa de malha estrutural e interacção mais pródiga que, por exemplo, o regime de triunvirato adoptado por outro grande emblema da capital. A questão está em que não obstante o destaque ora protocolar, ora personificante dado ao presidente de direcção de um clube, é importante que o mesmo e seus pares contem com colaboradores de de uma dinâmica, competência e perspicácia inquestionáveis, os quais devem por sua vez determinar ao seu redor uma população de colaboradores dedicados e diligentes, todos em sintonia mas também constante desenvolvimento pessoal profissional e técnico, deste modo assegurando um somatório de competências que confira aos máximos dirigentes do clube, a melhor iniciativa e resposta interna possível. Não são apenas os treinadores que precisam de atletas para posições tácticas específicas, mas também a sua equipa técnica precisa dos melhores desempenhos, atitude e profissionalismo, e só tudo atitude isso faz o sucesso do presidente e da direcção.

A confirmar isso estão os mais dois recentes resultados obtido no plano interno, em futebol, e no plano africano, em andebol, a que se veio juntar nos últimos dias o triunfo no torneio de apuramento à fase final da Taça dos Clubes Campeões de basquetebol masculino, em Dezembro no Egipto, desempenhos esses que não só exprimem a superioridade em competição, mas também estabelecem uma aproximação-padrão às condições e níveis de trabalho comuns às primeiras ligas nacionais e que é preciso encarar como sendo o objectivo a igualar no dia-a-dia desses grandes emblemas do planeta, mas compaginando-se a adaptando-se em função das realidades locais vivenciadas. E neste aspecto da vida do clube e dos seus departamentos, pelo menos os três principais, podem os títulos eventualmente ofuscar a importância e determinismo para o sucesso com que se criam primeiro fora das quatro linhas, os sucessos ulteriores e finais dentro do campo. Mais do que disputar treinadores entre si, os clubes estão a precisar cada vez mais de criar o seu próprio staff técnico que desenvolva de modo continuado uma realidade desportiva e clubista, ao invés de a maioria de emblemas preferir contratar e despedir, acabando como clube de mãos vazias sempre.

Eu teço estas linhas, não em júbilo pelo emblema militar, nem tão pouco veneração pelo seu histórico de primeiro clube do país, acabado de confirmar-se no top do ranking entre emblemas da praça angolana graças ao modelo de organização e dinâmica de desenvolvimento a que não passam estranhos nem de lado os concursos de individualidades particularmente fortes em teoria do desenvolvimento desportivo e organização departamental do fenómeno desportivo, estando aqui os frutos traduzidos em êxitos, os primeiros de muitos mais que o clube militar se poderá permitir acumular, agora de pés cada vez mais bem assentes num desenvolvimento estrutural e infra-estrutural sem precedentes, assim como embalados numa dinâmica de transfoermação para melhor, que urge os seus concorrentes a imitarem.

A ideia francamente proactiva de incluir no programa do clube Primeiro de Agosto o fomento também por via da fundação de clubes satélites, tanto vai dinamizar o desporto no centro de outras comunidades a conquistar para o desporto, como também preserva o futuro dos seus quadros excedentários a quem entrega a gestão de novos viveiros de atletas e portanto clubes e equipas com quem o desenvolvimento dessa parceria estratégica garante maior viveiro de talentos para descoberta a favor do clube-pai. O termo clube-viveiro pode parecer ofensivo à dignidade dos novos emblemas, contudo nunca nos devemos envergonhar dos nossos parentes nem sentir ofuscados pelos nossos mais velhos e primogénitos. Este pólo desportivo militar é algo que deve ser também copiado. E tudo isto resulta decerto de um objectivo a que não fica alheio o próprio chefe do Estado-Maior das forças armadas, entidade-mãe do clube central, sendo desejável que essa solidariedade institucional e funcional continue a suportar esforços também alguma vez direccionados à família desportiva militar em sentido lato, nomeadamente o Clube Desportivo da Huíla, não um enteado mas potencial viveiro de outras mais-valias desportivas para o clube central em casos particulares, mas peculiares como o atletismo, boxe, judo, taekwondo, tiro com pistola e espingarda, tiro-ao-arco e desportos equestres ou a cavalo, triatlo e pentatlo, sendo a maioria destas modalidades olímpicas e portanto um desafio natural às cores e sentimentos rubro-negros em Angola, pelo seu histórico.

Assim e feitas as homenagens, queria fundamentar as minhas afirmações e apreciações com base numa longa trajectória de observação que faço a este caso concreto, por ser emblemático e exemplar, e claro um orgulho para o clube central das forças armadas, Primeiro de Agosto. Não foi por isso ao acaso que antes havia referido a importância para nós do nosso histórico como país e projecto nacional. Nós tínhamos uma matriz humana e desportiva que é preciso resgatar e nada serve melhor ao meu exemplo do que este, do clube do Rio Seco, para que todos compreendam quão importante é termos um Desporto militante.

Ora, o desporto militante é a condição! Já nos primeiros anos da independência, o surto de Desporto quer percorreu a juventude e o exponencial com que se viam crianças e jovens desportivamente activos e aproveitados, não pode ter sido uma obra do acaso ou uma fase da política interna. Foi, sim, um acto de consciência traduzido em um movimento juvenil e social que se veio perdendo desde que se descobriu a tv por satélite e se começaram a ver coisas que se julgava poder imitar só com vontade pessoal. E assim muitos Agentes desportivos implicados não se aperceberam das diferenças, nem do progressivo carenciamento da base desportiva, tanto da sua enquanto clube, como da modalidade e do desporto em geral. Então e num período de crise dos valores desportivos e do Desporto em geral pelas razões de interesse, motivação e compromisso diminuídos, apraz-me que um clube sirva de candeia que vai à frente e alumie duas vezes. No entanto eu seria injusto se não apontasse o mesmo esforço de infraestrutura desportiva que em tempos empreendeu o Interclube, com um pequeno estádio e pavilhão adaptado para o basquetebol, que se pretende ver também ver um dia mais activo e frutífero em andebol, voleibol, futsal e outras modalidades condizentes com a cultura desportiva dos emblemas militares e por extensão paramilitares, o que pressupõe os desportos de combate, como expressões de cultura de preparação física e combativa que lhes são intrínsecos, pois não me cansaria de repetir, são várias entre nós as possibilidades desportivas de modalidades para as quais o nosso povo tem não só a morfologia física e o hábito por tradição, como também é hora de alguém aproveitar o novo ciclo olímpico para o nosso desenvolvimento desportivo afinar a pontaria e parar de negligenciar o potencial do país para certas modalidades olímpicas, se programas houver de pelo menos dois ciclos olímpicos para preparar os nossos jovens, particularmente no seio dos nossos grupos étnicos em que se sabe praticarem tradicionalmente desportos e desafios físicos que têm potencialmente equivalência olímpica. Porque é um crime de consciência se se ignorar o direito que todo o jovem tem de atingir a plenitude das suas capacidades durante o seu crescimento e formação, as quais estão inteiramente ao serviço da sua comunidade, do seu povo e do seu país. Mas para isso pressupõe-se haver uma vontade política associada a programas especiais e temporários para poder impregnar o tecido social com desporto, na mesma necessidade cultural que há de leitura, de entretenimento e de lazer, para que assim também haja de cultura recreativa e de recreação física.

Ora, tudo isso é uma panorâmica do tal movimento a que antes me referir e que houve neste país logo após os primeiros anos da sua independência, algo que parece que as novas gerações do Desporto não gostam de falar, recusando aceitar que o nosso deve ser possivelmente o único país em que os mais velhos e experientes são sumariamente afastados pelos mais jovens, ambiciosos e ignorantes muitas vezes. Assim, o Primeiro de Agosto continua a dar um bom exemplo de visão, vontade, dinamismo, eficácia e espírito empreendedor. Algo que, um dia ao retirar-se, a direcção do general Carlos Hendrick não irá legar ao abandono, nem a direcção sua sucessora poderá alimentar outra expectativa que não seja herdar e preservar a obra, prosseguindo-a. Esta passagem de testemunho é um importante pacto cultural entre homens que se prezam e respeitam as obras de valor colectivo, porém, tal nem sempre é o caso a que assistimos em diversas associações desportivas onde mais se querem projectar atrás de um nome e personalidade, do que através de um projecto e uma obra conseguida para o bem colectivo.

Falo de um espírito que havia nos nossos homens, a tal militância por abraço a uma causa, uma condição e estado de alma em que actualmente muitos desportistas já não vivem mais, nem respiram – aqueles que pensam primeiro que também eles estão a precisar, têm família(s) para criar e assim pensam e agem na direcção que ocupam. Mas não se pode presumir que esse instinto de peculato e predador vão sobreviver longamente. Para já, seria salutar para o Desporto que as direcções à frente dos emblemas e associações, quando confrontadas com o insucesso comparassem a avultada despesa dos seus parcos resultados desportivos com o gráfico de crescimento do clube que registaram durante o seu mandato. E assim o que seria um acto de honra de quem se julgasse impróprio para continuar à frente, cedesse passo a quem saibamos que pode elevar os níveis de associação ou clube. E deste modo esperar pacífica, mas resolutamente, que as assembleias-gerais dos clubes, associações provinciais e federações, sejam as primeiras a ser honestas e zeladoras da modalidade que juraram servir, deixando-se de servir dela em demasia.

E sem uma vontade assim dificilmente se vai poder recuperar a tal dinâmica daquele movimento, a que chamo o Desporto militante. Um desporto coerente, patriótico e digno, sem vícios, suborno, corrupção, peculato e outras formas de abuso de confiança na gestão da coisa pública, entre mais delitos de pensamento e de gestão que é escusado traduzir. E assim termino expressando que é preciso ganhar consciência da crise e engendrar de maneira inadiável como reverter urgentemente a situação e procurarmos conseguir equilibrar o nosso quadro interno, presentemente caracterizado por uma descaracterização tal, que até nas principais modalidade já há mãos cheias de antigos selecionadores no desemprego e sem um horizonte de aproveitamento que se consiga ver no rosto e na agenda dos novos quadros do dirigismo desportivo, sendo aqueles deste modo confinado à ociosidade e desperdício.

A questão acima de todas é que o nosso dirigismo desportivo e sua conduta humana – recordem os episódios dos últimos jogos olímpicos do Rio – são o elo fraco da cadeia. Muitos deles até parecem conjurados para se servir dos duodécimos desportivos e assim andarem a pintar um quadro nacional do estado do Desporto só comparável à bancarrota.
Arlindo Macedo

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