Jornal dos Desportos

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Opinio

Desequilbrio oramental fere qualidade do futebol

13 de Fevereiro, 2020
Mais de quatro décadas depois da fundação da Federação Angolana de Futebol (FAF), em 1976, a qualidade do futebol angolano vai de mal a pior. É verdade que foi a partir de 1996 que Angola começou a pisar os grandes palcos do futebol africano, na sua primeira participação, num Campeonato Africano das Nações (CAN) que se realizou na África do Sul.
Vale lembrar, que no CAN\'96, Angola foi representada por jogadores como, Orlando, Wilson, Fua, Joni, Paulão, Akwá, Quinzinho, Abel Campos e outros. Em 2001, jogou o primeiro Mundial na Argentina, com a selecção de Sub 20, Marito, Mantorras, Mendonça, Loló e companhia.
Em 2006, deu-se o grande salto do nosso futebol. Pela primeira vez, o futebol Angolano, em seniores ou seja os Palancas Negras desfilaram entre as melhores selecções do Mundo, no Campeonato realizado pela Alemanha, que integrava jogadores como João Ricardo, Jamba, Locó, Delgado, Mendonça, Flávio, Akwá, Mateus Galiano e outros.
Não nos podemos esquecer que foi na década de oitenta, que a nível das Afrotaças, o nosso futebol começou a dar os primeiros sinais de que podia aparecer em grande , quando o 1º de Maio de Benguela em 1984 disputou a final da Taça Nelson Mandela, com o Ashanti do Ghana. Em 2001 e em 2018, o Petro de Luanda e o 1º de Agosto chegaram às meias - finais da Taça dos Campeões de África.
Entretanto, apesar destes feitos, a realidade, porém, é que em termos de qualidade o nosso futebol tem regredido imenso. De 1976 a 1990, contamos, maioritariamente, com jogadores de grande valia técnica que vieram da canteira, ou seja, formados na época colonial, nos melhores viveiros do país.
O destaque vai para jogadores como, João Machado, Geovety, Chimalanga, Pedro Garcia, Luvambo, Lourenço, Ndunguidi, Alves, Praia, Santinho, Rola Chinguito, Basílio, Chiby, Jesus, Napoleão, Ângelo, Manecas, Arlindo Leitão, Salviano, Luis Cão, Santo António, Chico Afonso, Nelson, Barros, Arménio, Vicy, Quim , Silva, Zeca, Eduardo Machado e tantos outros.
No período acima referenciado tivemos os melhores momentos do Girabola. Esta afirmação pode ser corroborada pelos que hoje estão na casa dos 50 anos para cima. Então, qual era o segredo para a boa qualidade do nosso futebol, no período que vai de 1976 a 1990? Além, da excelente qualidade técnica e individual dos jogadores, os orçamentos dos clubes eram equilibrados.
Por exemplo: o primeiro campeonato nacional de futebol contou com 24 equipas do país, distribuídas em seis séries. Mesmo em período de guerra (embora não muito intensa), nenhuma equipa desistiu e em quase todas havia dois ou mais artistas da bola, e por isso, os Estádios ficavam completamente lotados de público, ávidos de assistir um verdadeiro espectáculo de futebol.
O primeiro campeão nacional do país, depois da independência nacional, saiu da final disputada no Estádio da Cidadela, entre o 1º de Agosto e o Nacional de Benguela. Os militares venceram a partida, muito dificilmente, por 2- 1, um jogo memorável. Até hoje, os jogadores do Nacional e algum público dizem que o golo da vitória dos militares foi precedido de uma falta de Sansão, sobre o guardião Pinto Leite, e que o árbitro da partida, Dionísio de Almeida, fez vista grossa, facilitou a vida aos pupilos de Nicola Berardinelli.
Os jogadores acima referenciados militavam, fundamentalmente, nas seguintes equipas: Nacional de Benguela, Desportivo da Chela (Benfica do Lubango), Mambrôa (Benfica do Huambo), Petro do Huambo, Construtores do Uíge, Futebol Clube do Uíge, ASA, 1º de Agosto, Académica do Lobito, 1º de Maio de Benguela e Sporting de Benguela.
Destas equipas, apenas, o 1º de Agosto e o Petro de Luanda continuam vivas, ou seja, têm saúde financeira, sendo que os militares são os únicos totalistas do Girabola. O que dizer das demais equipas? Por dificuldades financeiras, a maior parte delas desapareceu, ou existe apenas o nome, como o caso do grande Nacional de Benguela, Benfica do Lubango, Construtores do Uíge, Futebol Clube do Uíge, Benfica do Huambo, Petro do Huambo e Sporting de Benguela, citando apenas estas.
Hoje, em pleno Século XXI, equipas com o Recreativo do Libolo, Recreativo da Caála, Progresso do Sambizanga, Sporting de Cabinda, Cuando Cubango e outras correm o risco de desaparecer, como aconteceu com o Benfica de Luanda, Kabuscorp do Palanca, e recentemente com o grande 1º de Maio de Benguela.
Em função disso, é com muita pena e tristeza ver a força do nosso futebol reduzida à praticamente duas equipas: 1º de Agosto e Petro de Luanda. As demais equipas, com todo o respeito para com o Inter de Luanda, Sagrada Esperança da Lunda - Norte, Desportivo da Huíla e outras, acabam sendo apenas meros animadores do Girabola, e com isso, o nosso campeonato perde muita qualidade.
Em função desta realidade, será que podemos esperar ou exigir grandes resultados das nossas equipas, a nível do continente Africano e não só? É possível acabar com a filosofia de filhos e enteados no futebol e no desporto em geral? O que pode ou deve ser feito, para tirar o nosso futebol desta situação? No próximo número, vamos tentar dar resposta à estas questões.
AUGUSTO FERNANDES

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