Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Desistncia ou mero bluff?

03 de Junho, 2016
A tribo do futebol acordou para a presente semana com a bombástica notícia da desistência do Porcelana FC do Cuanza Norte do campeonato nacional de futebol da primeira divisão. Não se tratou de um informação de corredores da fofoca, mas sim da própria direcção do clube, na voz da presidente da Mesa da Assembleia Nacional, e como tal não havia como colocar alguma dúvida.

A media desportiva, como lhe compete, desatou na propagação da informação, e quero acreditar que ela não foi bem acolhida pela esmagadora maioria daqueles que acompanham de perto a evolução da nossa maior competição futebolística. Mas também não havia como contestar a posição assumida pelo desistente, porque a própria escola da vida ensina que quando não se é capaz o caminho certo é a desistência.

Ora, a questão que se põe aqui é que quando uma equipa se retira da prova cria-se um certo constrangimento na organização da mesma. Pois, neste caso a "batata quente" acaba por sobrar às mãos da Federação Angolana de Futebol, que terá de encontrar soluções que evitem o belisco a esta ou àqueloutra equipa da inscritas e participantes do campeonato. Porque a retirada ou a exclusão de um implica necessariamente algum arranjo.

Entretanto, há muito se vem pedindo a FAF que encontra-se um instrumento jurídico que penalize as equipas que a meio da competição anunciem desistência em face dos constrangimentos que tal procedimento causam. Também há muito que se vem pedindo que as equipas tratassem de se certificarem até que ponto estão capacitadas a fazer face às obrigações da prova ou não.

Na verdade, o que temos assistido é uma luta das equipas à procura de ascensão ao Girabola, como se estar neste escalão fossem favas contadas. Deviam antes se certificar sobre a sua capacidade de fazer face às exigências do mesmo. É certo que competir ao mais nível dá outro gozo. Mas só isto não basta.

É certo que vivemos desde há algum tempo na famigerada crise económica que tem limitado as acções de quase todos. E o Porcelana achou-se encurralado e incapaz de continuar a estrada. Mas quando o campeonato começou já andávamos nesta. Já se falava na baixa do preço do petróleo e noutro blá, blá, blá.

Aliás, o Porcelana conhece de cor e salteado as obrigações do Girabola, porque nele já esteve. Quando há dois anos acabou despromovido, na sequência de uma rocambolesca “engenharia” que beneficiou um grande de Luanda, a direcção do clube e a sua massa associativa desataram em protestos.

Logo, não se trata de uma equipa inocente ou que tenha entrado na prova às cegas. Sabia bem aquilo que havia de encontrar. Seja como for, não vamos condená-lo, porque a ninguém se deve exigir subida à montanha, quando desprovido de tal capacidade. A questão que se põe é só o constrangimento que causa a sua desistência.

Ainda bem que se vai dizendo por ai que esta foi apenas uma jogada estratégica da direcção do clube, no sentido de mobilizar alguns apoios necessários. Este fim-de-semana não haverá Girabola em face do compromisso da selecção nacional e logo a seguir virá o intervalo entre a primeira e a segunda voltas. Será tempo suficiente para a reflexão sobre a posição definitiva a tomar.

Entretanto, mesmo que se consuma a desistência não será o primeiro caso no nosso campeonato, e não há nenhum instrumento jurídico que penalize o desistente. Mas isto não é abonatório, não enobrece de modo algum o nosso campeonato. Dai que a federação não pode continuar a encarar situações do género de ânimo leve.

Sabe-se que estão previstos três anos de suspensão às competições nacionais de toda equipa que por alguma razão renuncie o Girabola. Talvez não seja suficiente. É preciso que o Girabola seja verdadeiramente uma competição de elite e não uma feira de exposição de vaidade como se está a tornar nos últimos tempos.

Em resumo, ainda há alguma esperança de o Cuanza Norte continuar em competição. E caso venha se consumar a desistência só teremos que lamentar e augurar que a moda não pegue sob pena de se vulgarizar uma competição que mais não é senão o principal símbolo identificativo do nosso futebol.
MATIAS ADRIANO

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