Jornal dos Desportos

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Opinio

Desporto no imaginrio angolano II

15 de Janeiro, 2018
Ernesto Lara Filho, um dos principais arautos da crónica de pitoresco sabor angolano, canta a maracuja de pé plantado no seu quintal e invoca numa balada sua dedicado ao companheiro de rota, a evoluir no futebol europeu, de sua graça Edelfride, amigo de infância perdida em Benguela, nomeadamente, nos bairros Benfica e Massangarala, além das bananas do Cavaco, pinta o drama do real quotidiano de então, a reivindicar o regresso à pátria do seu velho amigo futebolista e não só, ainda que pelo menos, no plano simbólico e sempre da (re)afirmação identitária com o de África - tema transversal à criação de todas as gerações que compaginam o nosso dinâmico processo literário.
Em termos de géneros literários, a prosa não perde para a poesia, a história repete-se. Alguns ficcionistas buscam no desporto , sobretudo no futebol, um dos sub -temas das suas abordagens como ocorre em \"Dizanga dya Muenhu\" (do kimbundu, \"Lagoa da vida\"), em que um dos contos retrata uma partida de futebol no pelado de um subúrbio luandense, em estórias divididas entre Luanda e Malanje, a concorrer como factor de integração e interacção social entre os mais novos, que se afastam do sofrer colectivo e do risco da marginalidade social na disputa da bola. É um enredo que em termos globais, mete subversivos clandestinos, profissionais humildes, lutadora livre que bate em homens, forasteiros, alcoólatras, prostitutas, vagabundos e até gatunos, como o que rouba a mala na estação de comboios do musseque Rangel, desembaraça-se do dono e da multidão, num sprint final que invejava - perdoe-se-me a rudeza da comparação - a um Ben Jonhson caído em desgraça nas drogas que apimentaram o desporto pela negativa.
No fundo, no fundo, metodicamente cada um à sua maneira disputa o jogo duro da vida, com simulações, fintas, chutos, golos até falhanços de penaltis, in extremis, no quotidiano atroz. No conto magistral de Wanhenga Xitu, \"A bola com feitiço\", a trama é mais excitante, inclui o expediente do feitiço para levar de vencida a equipa contrária. Uma das equipas obedece a rituais ditados pelo quimbandeiro contratado nas vésperas, para que a vitória lhes sorria, fazendo apelo a amuletos e outras bugigangas, num sincretismo religioso, que põe em causa a fé cristã de alguns dos jogadores, que passam pelo tratamento mítico sem darem por ele, para alegadamente não atrapalharem o receituário (incluindo a proibição dos jogadores dividirem o leito com as respectivas parceiras), que poderia levar ao falhanço a mesinha, tido como determinante no desfecho do grande desafio. No fim da partida, sem arruaças, a taça - um porco - é repartida entre vencedores e vencidos, numa festa em que o lema parece ser a unidade entre todos, ou \"um por todos, todos por um\". Moral da história: quem ganha não ganha tudo e quem perde, não perde nada. Fica -se a vingança na sanzala sobre valores da irmandade, da amizade, numa só palavra, a solidariedade e o humanismo africanos.
Um exemplo feliz que pode ser transposto para o continente e à escala planetária. A lição de humanidade devia ser apre(e)ndida pelos holligans que pululam pelas \"Europas da vida\" e não só, como os demais cabeças rapadas a monte, tanto na Alemanha como na Inglaterra, que distribuem a vergonhosa violência gratuita pelo (sub)mundo do futebol.
NORBERTO COSTA

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