Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinião

Desporto e negócio

19 de Abril, 2017
Vindo reatar o desabafo sobre o estado de desenvolvimento aparentemente crítico do nosso desporto, o capítulo que se segue é sobre a relação dos nossos jovens de hoje com o desporto, já sem a chama nem a motivação de outrora, nem já o compromisso consigo mesmo de darem tudo por tudo de si e com ambição por ser entre os seus o mais rápido, o mais alto e o mais forte (citius, altius, fortius: divisa do olimpismo).

A célebre e elevadíssima divisa olímpica já não diz nada às novas gerações angolanas de desportistas, que mal ouviram falar do ‘Velho Demo’ ou Demósthenes de Almeida, ou nem sequer sabem que Barceló de Carvalho (Bonga) e Rui Mingas tenham sido um dia angolanos recordistas de atletismo de Portugal.

Aqui dá a impressão de que houve uma necessidade de se dar uma machadada em muita coisa que havia possivelmente sem se saber o quanto continha de bom, talvez ainda como forma de cortar o cordão e iniciar algo de novo, que em definitivo não está a dar certo no desporto. À falta de projectos visionários, não soubemos apanhar o comboio da formação técnica, sendo hoje o número dos treinadores insuficiente para a ‘revolução’.

Assim separados de um passado de práticas seguras e resseguras por técnicos nacionais experimentados de um desenvolvimento desportivo do qual já descarrilámos, e que parece tardarmos em reencontrar caminho, eis que mais recentemente trouxe-nos redobrada esperança a última renovação de mandatos nas federações. Acredita-se que os vencedores interpretaram melhor os profundos anseios dos eleitores ou sejam, os clubes, para sermos mais precisos.

Assim e em relação à massa praticante, persistindo o défice da população desportiva de proveniência académica e estudantil, eis-nos sempre atentos ao sub-produto criado e crescido sem eira e nem beira desportiva, nos muceques onde secaram também os poucos clubes e equipas que havia, tendo-se mantido, pelo menos no futebol, o pobre viveiro de que ainda vivemos.

Entretanto, acredita-se que a exemplo da Academia de Futebol de Angola, também o Primeiro de Agosto e o Petro Atlético apresentem em breve resultados dos seus últimos esforços no desporto jovem, apesar de no andebol serem visíveis os talentos últimamente colhidos do viveiro militar, tal como no basquetebol, aqueles provenientes do canteiro petrolífero. Mas tal é manifestamente pouco para o potencial instalado em Angola e aqui nascido também.

Os desportistas hoje mais em evidência são de uma proveniência na maioria das vezes extremamente humilde, os quais pouco mais fazem para além de jogar, jogar, e jogar, no bairro, o que lhes dá uma mais do que extraordinária das ruas sobrepovoadas e terreiros mal amanhados para o desporto, onde se aprendia de tudo menos o jogo tal como ele é ensinado na academia.

Sem grandes fundações e nem paixão pura pelo desporto, mas apenas a euphoria própria da juventude, eis que depressa nasce-lhes o sonho mórbido em ganhar dinheiro depressa e já; e tal é normalmente o início de uma carreira de curto pavio, pouca duração e grande desilusão. Demonstrado está, pelas modernas academias, que não se extrai tanto de um desportista quanto se pode quando ele tem também um histórico académico relacionado consigo; assimila-se o jogo melhor e mais depressa.

Ultimamente e quando tudo parecia encaminhado para o desporto renascer da escolar e do sistema de ensino, eis que o silêncio se fez e prossegue, enquanto os pais começam também a equacionar uma vida desportiva para os filhos e sem necessidade aparente de escola, o que é uma aposta de risco.

O país ainda não atende ao estatuto especial do atleta-estudante, remete a excepção para somente os atletas de alta-competição, arredando da escola os demais. Ora, se assim continuar, o risco dos jovens aumenta, uma vez que seus pais e progenitores podem achar que seus reventos têm todas as possibilidades do mundo de se tornarem grandes atletas, porém, se esse não for o caso, hão-de ter às mãos adultos sem preparação para a vida.

Nesse caso, apenas o sucesso desportivo – e uma cabecinha no sítio – podem salvar de uma vida de pedichince quase garantida, todo e aquele atleta que tiver uma escola desportiva feita sem academia, ou seja, uma formação desportiva pouco qualificada e seguramente pouco prometedora também.

Não é muito fácil estimar qual dos pratos da balança pesará mais na motivação do jovem, se o desporto e o prazer, ou se o desporto como súbita oportunidade profissional; e assim muitos iniciam uma viagem de muita ilusão, mas pouco realismo, em que os jogadores não são em regra de grandes antecedentes desportivos, têm efectivamente um talento puro elevado, mas também uma dificuldade de absorver rudimentos do futebol de pacotilha e que se aprendem em uma idade que os nossos jovens talentos de rua descobertos não têm mais.

Presentemente também os pais e tutores querem na maioria dos casos ser igualmente os agentes dos filhos, enteados e sobrinhos, preterindo a escola deles se for preciso, convencidos de estarem a criar um valor comercial desportivo elevado e, quem sabe, o futuro risonho da família. Mas, em boa hora e compreendendo o impedimento directo da carreira pela escola, e vice-versa, introduziu-se no moderno conceito da academia desportiva, o aproveitamento integrado do dia do jovem e a partilha de obrigações escolares agora acasaladas coma regularidade e intensidade do treino desportivo, tendo sossegado um pouco os pais.

Na realidade, o maior dilema para um jovem e seu pais, é adivinharem quanto poderá render a carreira desportiva do filho ou filha, receando que uma carreira desportiva fracassada possa nem render o suficiente, nem deixar o jovem apto a ter um outro emprego e rendimento. Recorde-se que muitos desportistas de nomeada envelheceram na indigência, sem o mínimo de preparação para fazer outra coisa.

Entretanto e por outro lado, os agentes e pseudo-agentes desportivos têm visto abrir-se-lhes as portas do Mercado internacional, através de parcerias com ‘agências’ de desportistas que actuam por via interposta ou sub-contratação como também se poderá dizer, afim de credibilizar o agente e a venda do produto ‘Made In Angola’. No entanto, lá posta a ‘mercadoria’, parece a mesma perder parte da qualidade (medida em valor) que aqui víamos, indo parar às prateleiras dos clubes adquirentes, como tendo comprado gato por lebre, e metidos por alegações várias nas Equipas B desses emblemas.

Em toda esta decepcionante experiência de internacionalização dos nossos talentos, excepção seja feita ao andebol; entre os poucos activos que têm alguns clubes em desportistas de ponta, particularmente em basquetebol e futebol, seja feita excepção ao andebol e às nossas ‘Divas’, que ainda vão preferindo ficar em casa e melhor pagas, que lá fora e em clubes de inegável destaque, mas com uma realidade segundo a qual o andebol é desporto pobre. E então, em Angola paga-se mais do que lá fora, daí nem as ‘Divas’ se mexerem daqui.

Nesta altura e sem a mesma urgência em termos de bolsa de valores, interessa aos desportistas Angolanos perspectivarem como será o ‘day after’ das suas carreiras, o momento após pendurarem chuteiras e sapatilhas; e como tem sido acautelada a sua segurança social. Ou ainda, como estará garantida a sua vida, o seu físico e saúde.

Existe nesta praça desportiva mais do que um contra-senso, e o ultimo é aquele Segundo o qual os agentes e pseudo-agentes de atletas estão mais activos no terreno em busca de um comprador, mais do que no investimento em uma carreira com margens de evolução tabeladas e regulamentadas em ganhos, enquanto o atleta e sobretudo os seus responsáveis e tutores vão revelando estarem somente concentrados no ganho e nem por isso em tomarem qualquer precaução de ordem social preventiva a favor do seu ‘tesouro’.

É precioso as entidades promotoras de eventos e palestras, chamar à plateia este grupo social de atletas e seus tutores, falando para eles de maneira responsável sobre direitos, mas também deveres, indo desse modo contribuir para fazer especitar a classe através de alguma luz inicial, antes que a conversa descambe sempre para valores e dinheiro. Nunca tanto como ultimamente, dinheiro é o que move o desporto angolano federado, a níveis que mais parece ser um jogo de ‘batota’. Ao menos, as Finanças Públicas ganham com este, mas não sei se ganham o imposto de rendimento sobre o salário de treinadores e atletas que andam semi-anónimos nos registos fiscais.

O desporto profissional é bom e todos gostam, mas os seus imperativos e contribuições fiscais são ditames duros que nem todo o agente desportivo e atletas estão dispostos a aceitar. Os casos judicias de fuga ao fisco de jogadores de grande nomeada, como Neymar e Messi, levando inclusive seus pais à barra do tribunal, são a prova de como o desporto deixou de ser puramente desporto, mas uma indústria de entretenimento com algum sabor desportivo ainda, em que pesa cada vez mais o cachet de cada um.E assim foi que o jovem Angolano começou a deixar de ter prazer na vida desportiva, desde que ele descobriu que a sua habilidade com e sem bola lhe pode render algum salário e tornar-se profissional.

E estará isso tudo a ser feito dentro dos ‘timings’ e preceitos que o Mercado requer? Se estiver, então o valor declarado pelos passes dos Angolanos a clubes estrangeiros, revela bem da pobreza do produto desportivo nacional quando elevado e equiparado ao de outros mercados do desporto igualmente situados no Terceiro Mundo.

Mais do que a geografia, a determinação desportiva destes mundos não é tanto uma determinação económica, quanto será a de verdadeiros ‘trutas’ metidos a pensar; agora, das duas uma, ou já não temos truta, ou as que havia deixaram mesmo de nadar.

Mas hoje isso já envolve os pais, ou familiares próximos que pretendem explorar o jovem talento da família. Durante muito tempo, antes de aparecerem em Angola os primeiros agentes desportivos, era tabu falar de parcerias que pudessem significar levar talentos Angolanos para fora, julgando como se tratasse de uma pilhagem. Os países Africanos que depressa adoptaram a parceria com um clube europeu, não só viram este ajudar a desenvolver uma academia local, como também o emblema africano beneficia do parceiro em todas as áreas do saber do futebol, da organização à técnica.

A questão, entretanto, mudou e hoje o faro do negócio já chegou também à praça de Angola, com os donos Angolanos do pedaço a terciarizarem por vezes e a deixar a gestão do negócio a quem saiba mais que eles e cujos ganhos são comissões sobre os valores que o negócio render. Assim e diante de um outro verdadeiro caso de ‘Angolan content’, com os nacionais a assumirem também posição na gestão de passes, roubando de certa maneira o naco ao clube do atleta, eis que vinte ou mais anos passados, veio primeiro o Sport Lisboa e Benfica ao Cuanza Sul há um par de anos, ocasião em que se inaugurou um projecto local de futebol jovem, e acaba de cá estar o Sporting Club de Portugal, a apadrinhar uma academia em Viana, ligada a Norberto de Castro.

Assim postas as coisas, é caso para dizer que mais value tarde, que nunca; e agora certamente já faria mais sentido que dali saíssem atletas que sendo as estrelas locais, não acabem nas equipas B lá de fora, nem emprestados a clubes em pior estado que eles, e onde não encaixam por problemas nas arestas, que é como quem diz nas costuras, devido à pobre formação de futebol que tais craques tiveram e agora lhes faz falta ali no futebol organizado para onde emigraram às cegas, pelo que se viu e ainda se vê.

As craques Angolanas do Andebol vão sendo ainda as que mais valor de Mercado apresentam, em comparação aos basquetebolistas, futebolistas ou hoquistas Angolanos. Acontece que por vezes auferem em casa mais do que lá no clube estrangeiro, onde o desporto é de um amadorismo exemplar e o profissionalismo é algo ainda assim carregado de paixão juvenil, motivação e prazer em jogar, viajar, competir, sem a pressão do tema ‘quanto vamos receber’.

Acredita-se que as melhores Andebolistas da nossa praça aufiram valores acima da media europeia, contudo montantes inigualáveis em África face a qualquer outra jogadora Africana de topo. Os basquetebolistas vinham sendo dos desportistas nacionais mais bem pagos principalmente nos clubes de proa. O Mercado desportivo no nosso país é uma coisa por vezes tão escabrosa, que técnicos aparecem a cobrar propinas dos atletas, seja pela sua contratação ou renovação, seja pela sua possível convocação, seja ainda para jogar em detrimento de outro colega.
Arlindo Macedo

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