Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Desporto, emprego e trabalho

15 de Fevereiro, 2018
O mercado de trabalho em Angola não se poderá regular por si só, nem a favor dos angolanos, se ele for deixado ao critério do mercado, e, portanto, dos empregadores.
Infelizmente o nosso mercado é ainda pouco culto no corporativo e quase nada propenso à responsabilidade corporativa – ou seja, responsabilidade social das corporações, ou responsabilidade das corporações em relação às necessidades maiores da sociedade – e daí os grosseiros desfasamentos a que assistimos em relação à pobreza e indigência de muitos, milhares, milhões.
Não menos verdade, é que os recursos humanos angolanos também não podem adormecer à sombra da bananeira, precisando de fazer pela sua actualização e superação, nem que seja por via da internet...
A questão levantada na sociedade pela anunciada vinda de professores primários e secundários de Cabo Verde não é surpresa no sector do desporto, onde os clubes com algum poder económico, ou recurso financeiro, apostam deliberadamente em treinadores estrangeiros, assim como jogadores.
Ora, uma coisa é achar-se que os estrangeiros são melhores, e outra é tomar-se medidas para se reverter a tendência importadora do mercado, potenciando o ensino e a formação dados em Angola.
As leis de trabalho, os limites impostos ao patronato, o reajustamento e valorização dos currículos, são apenas algumas das medidas cautelares para se atingir tal desiderato. Sucede que a monitorização do problema ainda deve ser débil, a nível da Assembleia Nacional, que tem uma comissão para o efeito, embora se desconheça quantos assuntos pendentes e trabalho por se fazer haja na mesma.
Outra ferramenta importante costuma ser a associação de classe profissional, útil interlocutor para fazer funcionar uma engrenagem; de igual modo, a cobertura sindical do trabalhador, até mesmo do desempregado, serve para formar grupos de pressão em torno de um assunto ou questão sempre que a mesma se prestar a deixar-se arrastar.
Olhando particularmente para o desporto, não se sabe muito da sua situação sindical, e até mesmo na previdência social, sendo por isso um momento para as classes profissionais, de atletas, de treinadores, etc., se unirem, organizarem e reagir, pois, em toda esta questão do trabalho, o tempo passa, mas a idade e juventude não voltam, e todos os anos que se desperdiçarem para a segurança social, trarão menos rendimento na reforma.
Para os atletas, a reforma chega antes dos 40 anos de idade. E aí levanta-se a questão seguinte: o que pode esse indivíduo dar ainda ao desporto? Nem todo o antigo craque vira depois embaixador, podendo usar a sua popularidade em seu próprio benefício e sustento. Temos entre nós antigos craques no anonimato total...
A montante da questão, levanta-se o problema da institucionalização e potenciação do ensino das profissões do desporto, que eu sempre defendo como uma indústria que pode aliviar o problema da falta de emprego em Angola.
E isto trás no mesmo trilho a indústria da cultura, seja das artes manuais, como cénicas. São os únicos sectores, a par da agricultura e das energias renováveis, em que nenhum país precisa de investimento estrangeiro, porque as fontes abundam na sua natureza e nas suas gentes.
Assim como temos um instituto das ciências da educação, votado a formar professores, deveríamos igualmente atender à constituição urgente de um instituto das ciências da cultura e do desporto, embora já haja no papel um instituto de formação da educação física (INEF) literalmente irreconhecível.
Estas questões são todas elas prioritárias, para se reverter o quadro e dotar de mais e maiores recursos, os próprios recursos humanos de Angola. A acrescer a isso, só mesmo a necessidade de o nosso ensino público introduzir uma língua nacional e outra estrangeira obrigatórias no ensino geral. Não apenas como ferramenta utilitária, mas sobretudo como capacitação do angolano, falar uma língua doméstica e outra estrangeira amplia as capacidades da sua integração.
É certo que no país ainda se discute pouco a globalização na óptica dos seus nacionais, podendo tanto afectá-los, como servir-lhes. E uma educação para a globalização tornaria os nacionais mais esclarecidos e preparados para enfrentar os desafios do futuro e da própria globalização, em que os mais fortes devoram os mercados e os mais fracos sucumbem no seu próprio mercado.
A globalização, entre outras consequências, elimina virtualmente fronteiras e barreiras, cabendo aos países proteger-se para se preservar. Por outro lado, o rápido desenvolvimento da electrónica, novas tecnologias, automação e robótica estão a dizimar rapidamente o emprego, pelo que a Angola ainda resta uma hipótese, que é declarar-se contra o desenvolvimento a partir de certa medida, já que ela mesma não se consegue desenvolver.
Só não acredito que quem hoje não se acautele o necessário em relação ao futuro das suas gerações, possa vir a ditar leis proteccionistas que não comprometam seriamente o desenvolvimento; a essencial questão não é proibir o resto, mas dotar o principal. E é preciso dotar os angolanos de recursos técnicos para a sua formação com qualidade e a certeza de validade em qualquer mercado de trabalho.
A revolução do ensino angolano – entendendo revolução como uma mudança radical e progressista – é algo que se afigura cada vez mais imperativo, na medida em que é indesmentível a pobreza do ensino público e regular; não se pode comparar a escola pública e do bairro ou aldeia, sem bancos nem carteiras, com a escola de um nacional associado ou não, mas que cobra uma dúzia ou mais de centenas de dólares por propina. E a coexistência destes dois níveis e disparidades num mesmo território é preocupante para quem pensa.
O primeiro exemplo vem da AFA, academia de futebol que tem um padrão correcto e altamente profissionalizado, o que significa ter quadros tecnicamente preparados, formados e capazes de dar formação, igualmente. Quanto aos atletas, acompanhados de casa ao clube e vice-versa, é de realçar o acompanhamento escolar, para além do apoio escolar isto é, na escola e nos trabalhos escolares de casa, sem colidir com o treino.
Poucos mais miúdos se poderão gabar do mesmo, referindo-me à qualidade da academia, do treino e da preparação desportiva que lhes é dada. E o que podia ser dado pela escola, na escola, também lhes falta sobremaneira. No entanto, se houvesse formação e professores de educação física e desportiva suficientes, os miúdos não só estudavam, como estes mesmos professores os ajudariam nos deveres escolares, para além de os treinar direito.
Infelizmente os clubes reagiram do modo mais populista; presumindo que todo o antigo atleta também saberá ensinar o que havia aprendido, descura o importante papel pedagógico do treinador, assim como a necessária formação científica de base que até o maior dos craques precisa, para poder treinar. E está aí, para quem duvidar, o exemplo de Zinedine Zidane, craque dos maiores e que não pôde treinar o Real Madrid antes de cumprir todas as etapas e timings da sua formação como treinador.
Portanto, além de treinadores de referência para o país, faltam-nos os treinadores de base e formadores de atletas; se os há, que dizem haver às centenas, não se vêem em acção, ou não se tem a certeza se o farão correctamente. Como se sabe ou deve presumir, a ciência do treino evolui todos os anos e as variantes acentuam-se cada vez mais.
Quando elogiei o reparo físico dos Palancas Negras e o trabalho do suposto preparador, saltou o seleccionador para dizer que hoje todos os treinadores têm que estudar além da ciência do treino, a fisiologia do treino, as nuances do preparo atlético, sabendo combinar exercícios técnicos e físicos em um só com ambos os ganhos, pelo que, todo o treinador que não for em si preparador físico, falhará. E portanto, o que eu julgava preparador físico, era igualmente treinador com licença Pro.
E nós, podemos todos falar assim no nosso desporto? Esta não é uma conversa de futebol, mas de todos os nossos desportos atléticos.
Quantos clubes, associações provinciais e federações têm hoje director técnico, director desportivo, qualificados? E esta é uma questão preliminar.
Partindo da resposta, tendencialmente fraca, balbuciante, até, poderemos desenrolar em seguida o drama do desporto angolano e entender como cada vez mais se recorre a treinadores estrangeiros, a atletas estrangeiros.
Outro sub-fenómeno é a quantidade de licenciados e mestres desportivos no semi-anonimato, mas na sua maioria longe do treino desportivo, preferencialmente na gestão desportiva, mas sem os efeitos nem as manifestações esperadas. E no fundo a classe desportiva em Angola é estranhamente desunida, embora se saiba que egos é o que mais abunda no desporto e dentro dele.
Um levantamento das necessidades nacionais vai revelar desequilíbrio na distribuição dos quadros pelo território.
A falta de incentivos tem afastado quadros da actividade da sua formação, ou então, atraído os mesmos somente para certas cidades. Pelo meio há um mar vazio de gente e cheio de oportunidade, mas a nossa educação social das últimas décadas não traz esperança à maioria, de uma vida longe da capital. E esse quadro precisa de ser revertido, inclusive com aliciamento e contra-partidas, incentivos de colocação aqui ou ali. E tal ser acompanhado pela qualificação da escola, que costuma ser uma condicionante para os pais.
Mas se isso é a visão no geral, quero particularizar o aspecto da crise no desporto. E já era tempo de haver uma mesa redonda, conferência ou feira do desporto que abordasse o mercado, as leis e o trabalho. Não precisa de ser a reboque de nenhum ministério, como deve ser a reboque do governo, pois, a questão, embora de classe profissional do desporto, é de interesse nacional, económico, histórico e cultural.
O problema com os recursos humanos é transversal no país e o sector do desporto tem-se ressentido demasiadamente disso. A formação de formadores ainda é uma estratégia para reduzir gradualmente a crise de quadros técnicos desportivos, pelo que esta seria a deixa para o(s) ministério(s) entrarem em cena na crise e fornecer um pouco de oxigénio às vítimas.
Repito, o desporto é das áreas onde Angola pode suavizar a crise do emprego para a juventude e compaginar-se com uma indústria que crescerá a bem u mal, mas que era preferível crescer e bem e direito. O esplendor da mesma representará igualmente ganhos fiscais para os gastos do governo e da assembleia nacional, por exemplo.
O desporto é, quer queiram ou não, um dos terrenos mais promissores da economia mundial não-produtiva, que vive mais que do talento, da genialidade individual e colectiva. Porque o desporto se assume cada vez mais como a combatividade entre indivíduos, equipas e nações em termos e tempos de Paz.
Por isso as nações grandes se enchem de patriotismo usando o desporto como veículo e apostando nele como quem aposta em exércitos para ir à conquista de prestígio e supremacia. São tempos e visões questionáveis, porém, reais; e ao que parece, prevalecentes.
Angola foi já uma pátria do desporto. Não tinha TV além de um canal a preto e branco; nem TV por satélite, nem internet. Mas tinha um povo unido. E uma moral única, de Cabinda ao Cunene.
Então, o que foi que mudou? Num país ainda sem a sua verdadeira história escrita, só generais sabem...
ARLINDO MACEDO

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