Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Diamante que (no) temos

19 de Junho, 2015
A aparição de Gelson e consequentemente a sua estreia com a camisola da Selecção Nacional precipitou uma salutar discussão nos meandros do nosso futebol, em particular entre os mais entendidos, donos de opinião formada sobre o seu actual estado e sobre a injecção que lhe deve ser administrada para ganhar outro fôlego e outro sopro de vitalidade.

Olha-se para a mobilidade do jovem em campo, pela sua leitura de jogo e pelo toque hábil na bola e vêm as sugestões sobre como lapidar este diamante ainda em bruto. Por entre ideias desfasadas e desencontradas há quem defenda que este deve ir já para fora, em contacto com outra realidade evolutiva, e outros para quem o momento ainda não é oportuno, como quem diz que ele ainda precisa de mostrar um pouco mais na competição doméstica.

Na verdade, o jogador tipifica apenas um caso de emergência e não ainda de afirmação. Mas este não é factor bastante para não rumar a clubes onde possa ter um acompanhamento específico e desenvolver melhor as suas capacidades motoras. Quanto a nós, o momento pode ser este. Pois, o retorno do processo de formação ou transferência é maior quando mais cedo ocorre.

Certo que aqui já se coloca em causa a condição financeira. Vozes há que defendem o adiamento com o argumento de que com maior maturidade pode vir a render mais aos cofres do clube que representa em relação àquilo que pode hoje. Talvez não seja nesta

perspectiva que devem ser vistas as coisas. Quanto mais cedo um atleta se transfere para um emblema com maiores condições e rigorosidade no trabalho maior se tornam os índices da sua progressão, resultando isto na particularidade de a médio ou curto prazo o país ganhar uma estrela como resultado de tal investimento.

Casos de transferência de jogadores angolanos para outros campeonatos e que consigam impor-se escasseiam, porque estes, regra comum, fazem-no ligeiramente tarde. A páginas tantas, escapa a sensação de não haver interesse em ver jogadores nossos chegarem aos clubes para que são transferidos e conquistarem espaço. É o tal conceito do imediatismo. No caso de Gelson, por exemplo, este, pela idade, pode chegar ao clube de destino e ficar sob observação, nem que seja na equipa B, limar as arestas e aparecer depois.

De resto, este é o procedimento nos outros países africanos com estrondoso sucesso competitivo. Os seus atletas mal revelam talento são enviados para clubes europeus, numa transferência que, não visando lucros imediatos, não deixa de ser rentável para o clube de origem. Será preciso equacionar melhor a estratégia de colocar jogadores nossos nos países com indústrias futebolísticas e estes não podem fazê-lo em fase etária muito avançada, vezes sem conta já com responsabilidade familiar assumida.Samuel Eto'o chegou ao Real Madrid com 16 anos. Para atingir o estrelato passou por vários processos, entre empréstimos e transferências. Vestiu as camisolas do Leganes, do Mallorca, do Espanyol, até escancarar as portas do Barça. Mas os cofres que renderam foram do Real, responsável pela sua contratação inicial e logicamente o Kadji Sports Academy de Douala.

Para outros exemplos, o marfinense Yaya Touré, rebento do Asec Mimosas de Abidjan, foi contratado ainda em idade de base pelo Beveren da Bélgica, onde jogou três épocas até ser contratado pelos ucranianos do Metalurh Donetsk em 2005. Também foi aos 16 anos que André Ayew se transferiu do Nania do Gana para o Olympique de Marseille. Logo, em ambos os casos ninguém esperou que as estrelas brilhassem para serem vendidas a preço de ouro.

O que nos estará a faltar para este passo? Agentes desportivos mais expeditos? Talvez sim. Em todo o caso, e para fim de conversa, precisamos de corrigir o nosso conceito de gerir jogadores. Ele não tem necessariamente que atingir o estatuto de um Ary Papel ou de um Mingo Bile para ser negociado. Pode ser antes, desde que se descubra nele o talento. A experiência já mostrou que nem todo o investimento visa fins e lucros imediatos.
Matias Adriano

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