Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Dilogo entre geraes

28 de Julho, 2018
Actualmente as árvores do desporto estão a dar pouco fruto e já há quem tema que o sonho angolano aos poucos se extingue. Nem sobra do velho, nem aparece do novo.
Infelizmente em quatro décadas foram destruídas em Angola muitas instituições seculares, à medida que representasse obstáculo para alguma autoridade com ideias contrárias. Confesso que estranhei quando o então Presidente Zedú convidou a Angola, o Professor Daniel Leite, figura que havia impulsionado o sistema do desporto escolar e ensino secundário da educação física e fundamentos dos desportos, que Angola herdou.
Dizer que a instituição do nosso sistema desportivo fosse de matriz colonial, nem o próprio comité de especialidade chegaria a tanto, mas, apurar se neste exacto momento há um projecto além de distrair o país com o ‘Girabola’ e o ‘Banco-Basket’ que mais muda de banco, haverá outras capacidades da tendencial ala política que nas últimas décadas tem sido agraciada com a pasta governativa do desporto.
Desde a sua independência, a República de Angola já teve uma sucessão de ministros do desporto, porém, nenhum outro, tanto quanto Ruy Mingas e José Sardinha de Castro, foram tão decisivos para aquilo que atingimos, e que hoje ‘desconseguimos’ em maioria, porque a instituição que administra o desporto tornou-se mais um agrupamento político, do que a plêiade do desporto.
Nem mesmo grandes atletas dão em bons gestores e dirigentes, porém, o desporto é um sector que, como quase todos, requer uma orientação e uma articulação em equipa, ou a cúpula desprender-se-á da sua base social e realidade que deve administrar. A diferença é que Ruy Mingas e Sardinha de Castro entendiam realmente de desporto, sabendo-se reunir dos máximos expoentes de uma geração de desportistas eventualmente de fim-de-semana, que além de jogar e estudar, sabiam formar formadores.
Há em Angola uma acentuada degradação do nível do ensino e o fenómeno é conjuntural, representando que baixaram os padrões de ensino, os requisitos para ensinar – lembra-me a foto posta a circular onde uma professora escreve no quadro o sumário de química sobre o oxigénio – e o problema é que nem as línguas nacionais sabe a maioria dos queixosos escrever e gramaticar na perfeição. É como se vê uma questão de crítica interdependência.
Não deixem morrer o que custou a construir
A cena tem por pano de fundo a rede social Facebook e porque é pública eu não vi mal em publicar com a devida vénia uma troca de mensagens entre um ex-professor e um ex-pupilo.
Paulo Macedo: Não deixem morrer o que custou a construir Carlos Teixeira ‘Caji’: Vamos a isso Paulo. Arregaçar as mangas e começar de novo. Abraço
Se aqui se pudesse usar emojis eu poria aquela careta que pisca o olho com a língua de fora. Porque merecia...
Um dia, na Argentina e aproveitando uma folga no calendário do torneio, aceitei o convite de uma ‘conhecida’ para almoçar e lá no restaurante reparei como olhavam para os sapatos dela, toda alva vestida de rendas, coisa que em ambiente de fazenda seria um lindo traje campestre, cuja beleza nem conseguiu disfarçar o quão coçados e pintados de tinta branca estavam os sapatos dela.
Embora se trate de imagem, trata-se igualmente de lógica, pois, de nada vale um topo bonito se as bases forem o inverso.
Em Angola estamos a viver uma fase de feias bases. A falta de ideologia e militância que havia na época de Mingas e Sardinha talvez explique o que Carlos Teixeira ‘Caji’ desabafou, a Paulo Macedo. No fundo, trata-se de um conselho para a geração dele começar de novo o que a havia criado e promovido aquilo que chegaram os de 80 e 90 na solidez maior que havia da instituição desporto e dos seus institutos devidamente cobrados, lançando por vezes pânico entre os agentes desportivos, hoje demasiado viciados. A sociologia explica o resto...
Esta era a hora em que deveríamos ver a produção dos treinadores angolanos a dar cartas no desporto com equivalente despontar àquele que tiveram antigos craques, hoje a dirigir, ou tendo por lá passado já neste novo século e milénio, de quem houve e continua a haver menos safra porque os agentes desportivos, cremalheira da mesma engrenagem, delapidaram a instituição clube logo a partir do sentido etimológico do nome, que significa identidade e associação.
O homem novo é uma falácia nos dias de hoje e é preciso compaixão para o mal que se fez às bases sociais e desportivas do nosso desporto, com clubes que morreram como se para fazer desporto fosse preciso ter um carro, primeiro. O nosso desporto não corresponde à nossa realidade e é uma pena, pois, o capitalismo selvagem fez do desporto angolano também uma vítima.
Sem a base social do desporto é difícil manter esta fachada de federações com por vezes menos de 200 filiados em todas as categorias e país. Apesar de o MINJUD englobar a juventude e o desporto, mal se sente o efeito disso. As organizações juvenis não são suficientes nem desportivamente orientadas, por não haver precisamente um sistema, e nem aquelas organizações juvenis partidárias revelam interesse ‘marketeiro’ pelo viveiro desportivo, revelando ainda a sua imaturidade política.

Arregaçar as mangas...
Agora que o INEF já não é o que era, enquanto instituição com certificação séria, fruto do abandonado a que tem estado votada a causa desportiva de Angola, ultrapassada a cada dia pelos seus vizinhos, relativamente a desporto de formação, é importante dizer que cada vez menos se vêem no país as raízes do ensino desportivo de base e sem isso é comprometedor avançar e continuar a despender a fortuna de duodécimos que o país gasta, os contribuintes pagam e o orçamento descarrega.
É preciso cadastrar e certificar-se os quadros de forma a poderem engrossar o mercado de trabalho e nivelar correctamente os custos contratuais do desporto. Mesmo sem fechar as portas aos treinadores estrangeiros, é preciso que haja uma política que encoraje o estudo, as qualificações apropriadas e possa certificar os treinadores, tal como se certificam os advogados, engenheiros e médicos.
As associações de treinadores são uma reserva de saber e uma equivalência de academia que se deseja, mas não é; a maioria dos filiados tem graduação mínima, eventualmente algum deles duvidosa, mas, escutando as leis do mercado, são decerto muitos deles treinadores pouco procurado, solicitados ou incomodados, senão, deveria sentir-se o papel e efeito do associativismo nesta matéria de interesse colectivo e sobretudo das classes dirigente e formadora.
A questão da formação técnica desportiva deveria ser igualmente matéria do interesse e coordenação do MINJUD, pois, é suposto uma estrutura tão pesada para promover o desporto e a juventude, ter mão tão leve em matéria da educação e formação do meio desportivo, pois, um ministério deve ser uma super-estrutura de competências que têm de reluzir nalgum departamento ou modalidade. Crescimento não deve ser somente da estrutura...
Se santos da casa já não fazem milagres, então é preciso virarmo-nos para o intercâmbio, explorar as agendas das comissões-mistas nas relações bilaterais e procurar inserir nelas o intercâmbio desportivo; por exemplo, África do Sul e Marrocos têm excelentes condições para a formação de técnicos angolanos em cinco anos ou menos, porém, a barreira linguística também ataca o sonho angolano. O sonho de um desporto na grandiosidade que é cada vez mais miragem.
Sem uma acção conjunta de todo o sector do desporto como um sistema, um harmónio de interacções, que capacite os quadros desportivos, eleve as suas qualificações e graduações, provendo cada vez melhor treinamento desportivo no país, é difícil pensar em Angola ressurgir esplendorosa em décadas mais próximas.
Arregaçar as mangas e começar de novo parece pedir-se demais à juventude angolana, na actualidade. E depois, sem dirigentes no sector à altura, bem que estão a deixar morrer o que custou a construir...
Arlindo Macedo

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