Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Direco acredita na qualificao

30 de Agosto, 2017
O nosso desporto começa a tornar-se repetente demais. As relíquias da bola ao cesto, por duas vezes campeãs de África, em 2011 e 2013, estão de regresso com o primeiro dos últimos lugares. É sempre uma preocupação vermos o basquetebol angolano a desvalorizar-se de tal maneira, e não tarda, será de novo posto à prova no Afrobasket masculino.

E aqui há uma fila extensa de opinadores entre os quais antigos seleccionadores, treinadores, atletas, que coçam a cabeça para responder. Contudo, eu desejo o melhor a um grupo e a começar pelo seleccionador, que não tiveram a preparação que se exige a quem o povo quer ver triunfar.

Mas o nosso desporto não deve ficar refém nem parado e nem se submeter a ser tratado como o peluche abandonado da infância de um país; o estado deve reassumir o seu poder paternal, paternalista, padroeiro, padrinho, protector e sumamente director do desporto nacional. E é através disto que o estado transmite segurança, apoio e estímulo à sua juventude.

No dia em que o dinheiro começou a rolar vivo e a cores e os primeiros actos de intrusão nas tesourarias passaram em branco, a partir desse dia o desporto ficou contaminado e hoje, juntando pareceres, o desporto transforma-se a cada dia, não numa indústria de craques, mas em revelação de inusitados craques da indústria de fazer dinheiro à custa do desporto. E foi quando os salários dispararam na ordem de se pagar $ 30,000 a alguns poucos atletas, em meio a uma engenharia onde algibeiras do estado e de privados desembolsam o sustento dessa engrenagem e donde o desporto enquanto equipas, bebe as últimas gotas do cantil.

Tamanha lição de empolamento só se viu repetir agora com os futebolistas Neymar Jr., Dembelé ou Mbappé, a sugerir que por um triste acaso os próximos valores do desporto e do futebol em particular têm pouco a ver com ética, moral, pilares da sociedade, mas sim, estão transformados em um ‘business’ medonho, de tão insano que se tornou.

E a nossa ética desportiva, qual é? E sem respondermos a isso primeiro, haveremos de continuar a sustentar mascaradas que já não só se repetem, mas engrossam os prejuízos acumulados no desporto, pois é já demasiado negative a relação custo/benefício. Disto só os dirigentes, praticamente, podem falar e ver-se-ia, se prestassem contas. Se fossem auditados. Daí concluir-se que deve haver um pacto de não-agressão para tolerar que alguns indivíduos agridam as finanças do desporto pela forma como as utilizam, manuseiam e despendem, mais do que investem.

É já hora de se dizer basta e refundar o desporto angolano a partir da casa das leis, actualizando o espírito da lei e deixando de frustrar o surgimento de muitos entes desportivos de pequena dimensão e possivelmente uma só disciplina, mas que expressam sentimentos e viveres de unidade para uma pequena comunidade, onde tais novos emblemas cumpririam um papel social como agremiação desportiva. Mas não seria tudo.

É preciso velar para que nas rubricas orçamentais para o lazer da população em geral se criem, estejam orçamentadas e sejam efectivamente disponibilizadas segundos programas ou projectos previamente discutidos e aprovados, mas que realmente ficam providos de recursos financeiros para esse fim. E em paralelo que se protejam as políticas, fomento e investimentos na área da cultura física e recreação.

Não seria demais pedir que se pudesse restabelecer um nexo que costumava haver entre o timoneiro desportivo nacional e a figura do director nacional dos desportos, estando a ocasionar o eclipse do poder do estado no desporto. Seria importante que a República de Angola resgatasse o brio com que o desporto era a bandeira do estado e da nação, visto por isso como uma prioridade e assunto de estado. Bem gerido, o desporto em Angola não custaria mais caro do que custa em Cuba.

Ainda assim e em homenagem ao bairrismo, um sentimento tão querido e ao mesmo tempo desnutrido, que se exortem mais governadores a fazerem como os do Kwanza, Norte e Sul, a ter um par de iniciativas no campo desportivo e que prometem dar frutos. Recorde-se que entre os pioneiros destes abraços desportivos entre o poder e a comunidade, estavam nos anos 90 os de Cabinda, Aníbal Rocha, e da Lunda-Norte, Gomes Maiato, tais quais bastonários do apoio institucional ao desporto como expressão natural e de vida das respectivas províncias, mesmo quando a onda de choque desses benefícios não passasse da capital provincial e não chegasse aos municípios. Porém, foi uma demonstração que é possível, viável, e expectável.

A questão agora não é mais a da derrocada dos sistema desportivo em Angola, mas o ‘timing’ para se fazer um ‘reset’, recomeçando o projecto que tantos frutos deu, inclusive rendimentos a alguns, porém deixou nada ao estado e a prova está aí, nas dificuldades com que hoje competimos a nível africano. E não tem nada a haver com saber se foi Angola que piorou ou os adversários que evoluíram, tal como seria irrelevante questionar agora se quem surgira primeira for a galinha ou o ovo.

As mazelas do desporto angolano não devem continuar pregadas às nossas pernas e tem que haver a coragem de denunciar tudo quanto esteja a fazer do desporto, o bolo-rei que parece ser, pois os duodécimos do estado continuam a ser providos para a vida dos agentes desportivos, porém, os rumos da racionalização, primeiro, e planeamento e fomento, em seguida, são atitudes que não se revêem mais e que dói saber que ainda há vinte anos tínhamos essas faculdades.

Países com infinitamente menos dinheiro e mesmo aqueles com as mesmas taxas anti-ONU de desenvolvimento como as nossas, estão a alcançar mais resultados e por e por alguma razão conseguem isso. Eles racionalizam e os seus directores nacionais do desporto velam para que haja desenvolvimento desportivo quando em competição. Em vários países da África Central e do Oeste, os directores nacionais do desporto, quando não os ministros, são sacrificados e arredados do seu posto quando haja uma falha já não só gritante, mas grosseira, que infelizmente é o nosso caso de gémeos.

Já se gastou demasiado também em conferências e reflexões que não justifiquem estar hoje as suas conclusões metidas em gavetas, para mais tratando-se da normalização de sectores críticos da sociedade e do desporto, como sejam a educação física como atribuição da escola e o desenvolvimento juvenil do futebol.

E o problema é transversal ao desporto e de uma forma geral à sociedade, onde tudo se passa e acontece por efeitos correlacionais. O estabelecimento de um liberalismo completo de Mercado inibe outras expressões e manifestações do colectivo, pelo que é imperativo normalizar os custos do desporto nacional, partindo das luvas e salários, que são o maior rombo com resultados desastrosos.

Não só nenhum clube angolano voltou a ganhar a taça dos clubes campeões de basquetebol, tal como os principais emblemas do futebol nacional pouco passam das fronteiras do país. E assim sendo é difícil continuar a tragar anos a fio, décadas mesmo, que se mantenham invertidos a pirâmide e o plano financeiro em qualquer clube e federação.

Se o novo ciclo olímpico não começou como devia – fora do CAN e Mundial FIFA, fora do Mundial FIBA e a ver, vamos ainda – é uma oportunidade, esta mudança de governo, para como disse precisamente o candidato vencedor das eleições para Presidente de Angola, que se corrija o que estiver errado e se melhore o que estiver bem. E felizmente no desporto é cristalino como água de garrafa, o que vai bem e mal no desporto nacional, sendo que o que for bem, tirando no andebol, pouco mais deve haver que se aproveite, caso mergulhemos nas profundezas dos ‘habitats’.

Em ambas as situações que está a viver o basquetebol em Angola, vem ao de cima um enunciado de sabedoria popular que se costuma ensinar na escolar às crianças: ‘só semeia quem colhe’, ‘não se fazem omeletas sem ovos’, ‘cresce e aparece’, etc. E será muito triste se todos os mais velhos se esquecerem disso, pois a juventude que tem abraçado o dirigismo desportivo não parece ter tido convívio com aquela cantilena familiar proverbial.

Depois de Angla acertar as agulhas do desenvolvimento desportivo, sobressairá outra máxima que antigamente era nossa: o desenvolvimento das nossas forças produtivas é determinante para o desenvolvimento do país. Sem dúvidas, é isso mesmo, mas onde pára o desenvolvimento das forças produtivas?

Sem treinadores suficientes e capacitados não haverá massificação de coisíssima nenhuma, nem desenvolvimento; haverá, sim, muito desemprego e sub-emprego entre os treinadores, cada vez mais crianças for a do sistema desportivo, incapacidade em fundas as raízes jovens do desporto, e outras coisas que os pais costumam erguer, não para si, mas para os filhos. Será que o nosso estado já não pensa mais assim?
Arlindo Macedo

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