Jornal dos Desportos

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Opinio
por TEIXEIRA CNDIDO

Do amor ideologia, devoo ao dinheiro

09 de Dezembro, 2019



Podia um País que escolheu a economia centralizada oferecer um futebol profissional? Ou noutros termos, podia o futebol ser uma actividade à parte ao efervescente ambiente político- ideológico, que dominou a República Popular de Angola nas duas primeiras décadas da sua independência?
Por profissional, compreende-se uma actividade de alto rendimento, exercida mediante uma remuneração. A reposta a pergunta é uma visita a história do Girabola nos seus primeiros vinte anos de existência.
O futebol nessa altura, aliás, o Girabola era expressão não só da emancipação de um povo que acabara de se libertar do jugo colonial, apesar de mergulhar a seguir numa guerra civil, mas também um elemento de unidade nacional. A primeira edição da competição maior do futebol nacional foi como que um cartaz político, cujos dizeres são: “Angola é de Cabinda ao Cunene, um só povo e uma só nação”.
Importou pouco por isso as condições dos estádios assim como dos clubes. O que se queria era participar. Apresentaram-se na edição inaugural dezasseis equipas, constituindo o número de províncias de Angola. A Lunda era una, e Bengo era Luanda.
O campeão da edição inaugural acabara de nascer no seio das então Forças Armadas Popular de Libertação de Angola (FAPLA), mais não era do que uma associação de recreação. O Petro de Luanda, clube que ia arrasar toda a década 80, só existia na mente dos seus obreiros. Assim nasce uma competição, cuja natureza profissional continua por se conhecer, quarenta anos passados.

O GIRABOLA
NOS PRIMÓRDIOS

O Girabola, nos seus primórdios, era suportado por empresas estatais, cuja função primária era satisfazer as necessidades básicas da população a custo zero. Ou seja, desprovidas de dinheiro. E, por consequência, os jogadores recebiam como contra prestação bens alimentares ou outros, e nunca quantias monetárias.
Assim, os jogadores da EKA do Dondo eram abastecidos com grades de cervejas; os do 1º de Agosto com bens alimentares, como lotaria ou conservas. Os da TAAG, aliás Atlético Sport Aviação (ASA), recebiam bilhetes de passagens e habilitavam-se a fazer compras nas diversas lojas.
Em qualquer parte do País, era assim como se pagavam os jogadores, que sabiam de cor e salteado a função revolucionária da sua actividade. Os recintos nos quais eram disputados as partidas, não reuniam quaisquer elementos que permitisse identificar o desenvolvimento de uma actividade profissional. Relvado era um luxo ao alcance apenas dos estádios como da Cidadela, dos Coqueiros ou Kuricutelas. Noutros, era pelado puro e duro. De preferência com muita área vermelha, a fazer de almofada ao solo. Balneários, com casa de banho e outros, era também luxo ao alcance de poucos.
Os assentos dos recintos eram em maioria muros de adobe vermelho, que cercavam os estádios, também designados por quintalões. Havia assim Quintalão do Dundo ou do Dondo. Nem todas as equipas trajavam equipamentos uniformes. Não raras vezes, os calções destoavam das camisolas. Noutras, os números nas camisolas eram improvisadas com adesivo.
Poucos são os treinadores que possuíam formação, muitos vinham do Instituto de Educação Física, com especialidade em atletismo. Por carência ou mesmo aventura, aceitavam orientar as equipas de futebol. Muitos se fizeram jogadores depois de terem sido jogadores, desprovidos de método de treinamento e tantas outras exigências. A experiência era não raras vezes a única academia.
O Petro de Luanda, clube fundado um ano depois do início do Girabola, deu o pontapé de saída rumo ao profissionalismo. A razão assenta no facto de ser patrocinado pela Sonangol, empresa que assumiu como a maior do País entre os finais da década de 80 e inícios de 90. Com os recursos à disposição, não apenas financeiros, mas melhorias de trabalho para os seus jogadores, não seria surpresa alguma ocupar o primeiro lugar do futebol nacional.

A ERA MODERNA
O fim da economia centralizada em 1991/92, na sequência das primeiras eleições, anuncia igualmente maior seriedade no futebol nacional. A televisão, com a transmissão de outros campeonatos, contribuiu igualmente para acelerar o profissionalismo que se persegue. De todo, a economia mais uma vez despenhou um papel na transfiguração do desporto nacional, do futebol em particular. O crescimento económico reflectiu-se como nunca no futebol.
No início da década de 2000, Luanda conheceu o primeiro estádio moderno, comparando com todos outros. O velhinho Coqueiros com bancadas metálicas, deu lugar a um estádio moderno, o primeiro com assentos individuais.
A iniciativa do Governo Provincial de Luanda animou outras entidades, que replicaram noutras províncias. No Dundo, o Quintalão cedeu para um estádio. Emo Calulo, o município do Libolo conheceu um Estádio. O \'boom\' ocorreu por conta da Taça das Nações Africanas, CAN\'2010. Numa sentada, construiram-se mais de dez estádios, quatro de dimensão internacional, em Benguela, Cabinda, Huíla e Luanda. Nestas mesmas cidades, os recintos propriedades de clubes locais ganharam estatuto de estádios, a exemplo do São Filipe, Buraco, Nossa Senhora, o Tafe e outros.
É nesse período, que o futebol nacional vai conhecendo transferências de jogadores dignas de uma actividade profissional. A nível interno como para o exterior. Mantorras, Gilberto, Flávio Amado e outros foram contratados por mais de duzentos mil dólares, valores altíssimos para um futebol, que não era capaz de arrecadar quarenta mil dólares na partida de maior cartaz do seu campeonato.
A vinda de treinadores de outras latitudes acelerou o querer profissional do futebol. Formalmente, a actividade ainda não era reconhecida como profissional. Dizia a lei que se tratava de uma actividade não amadora.
No entanto, o conceito de futebol profissional evoluiu. A melhoria das condições, assim como a transferência ou contratação de jogadores, por centena de dólares, não faz do Girabola em si uma competição profissional.
Hoje, exige-se que a competição seja uma liga, os clubes transformados em sociedades anónimas desportivas, \"merchandising\" tido como uma das grandes fontes de receitas, clubes cotados em bolsa de valores, com capacidade de endividamento perante instituições financeiras, capazes de integrar sociedades comercias, e uma infinidade de exigências. O Girabola, decorridos quarenta anos, conserva o mesmo rosto, os direitos televisivos são apenas para alguns clubes. Há uma situação híbrida neste capítulo, os clubes negoceiam directamente com os clubes, e depois fazem-no com a Federação Angolana de Futebol.
Os clubes são formalmente associações desportivas, mas são reféns das empresas que os patrocinam. Muitos jogadores continuam a negociar directamente com os clubes, que os apresentam um contrato e depositam outro na Federação Angolana de Futebol. Ou seja, o Girabola é uma prova híbrida. Não é profissional na acepção do futebol moderno mas também há muito abandonou o amadorismo, por conta dos milhões que movimenta.

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