Jornal dos Desportos

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Opinio

Do Mundial ao Africano com muletas

17 de Outubro, 2019
Antes de discorrer sobre o tema proposto para hoje, apraz-me pedir desculpas a todos que esperavam uma abordagem em torno do episódio que resultou no impedimento do Capita em não seguir para o Brasil na companhia dos demais colegas, em acto que a todos nós deploramos, se calhar até com alguma dose de exagero e emoção nas manifestações.
Para todos os efeitos, é líquido que a direcção do Clube 1º de Agosto ficou mal na fotografia, facto de que não se isentam a Federação Angolana de Futebol, o Ministério da Juventude e Desportos, o Ministério do Interior e quiçá os anónimos cuja acção contribuíram de forma negativa para tal episódio, que em nada dignifica o futebol angolano.
Prefiro referir-me às instituições, pois, sou dos que defendem que no desporto de alto nível, ou sejam que envolve a Selecção Nacional, independentemente do escalão, a relação deve ser mais institucional que pessoal, até porque estas passam, enquanto as instituições permanecem, esteja o Zé ou João em frente no comando do leme.
Apesar de ultrapassado o principal imbróglio, a considerar o embarque de Capita nos dias subsequentes ao escândalo, sou de opinião que, para a culpa não deve morrer solteira, que a seu tempo sejam responsabilizados os algozes de Capita, independentemente do estatuto social que possuam.
Como, não me perguntem.
Aliás, seria uma excelente forma de dar corpo ao desejo do Presidente da República, João Lourenço, ver enterrado e sem hipóteses de ressuscitar, o famoso “senhor ordens superiores”, por conta do qual muitos concidadãos se julgavam superiores aos outros, ao tempo da “velha república”, assim mesmo em minúscula, para simbolizar o pouco valor que se deve atribuir a quem agia de tal forma.
Mais do que actos de demonstração de poder, que em nada elevam a condição de ser humano, tais comportamento eram acima de tudo, a expressão máxima e vexatório em relação a incompreensão do conceito de igualdade que a natureza atribui aos seres humanos, pois, só assim se compreende a redução da Pátria em desejos singulares.
Ainda bem que o Presidente da República, João Lourenço, no discurso sobre o Estado da Nação, pronunciado na terça-feira, na Assembleia Nacional, não fez referência a tal situação, caso contrário “havia de morrer gente”, conforme se alude no linguajar menos coloquial da urbe luandense.
Apresentadas as razões para não abordar o caso Capita, sigo ao encontro do elemento fulcral deste texto, que é a conquista do Campeonato Africano de futebol com Muletas, proeza alcançada pela Selecção angolana, na passada sexta-feira, em terras das acácias rubras, as mesmas que são da Ombaka.
Mais uma vez ficou patente a pouca atenção que é dada àquela especialidade do desporto angolano, que mesmo depois de ter conquistado o Mundial, no ano passado, não teve, em minha opinião, o banho de carinho à altura da dimensão do feito da equipa de todos nós.
Com ou sem o apoio, os “homens de muletas” provaram que em termos de contribuição para o preenchimento da galeria de troféus do futebol angolano, os seus feitos são maiores que de Selecções que têm sido alvo de toda a atenção e mais o resto de cuidados, sem que os resultados redundem em contrapartidas, neste caso, as conquistas das provas que disputam.
Carlos Calongo

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