Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Do realismo Benfiquista ao pragmatismo Petrolfero

15 de Fevereiro, 2017
O desporto angolano não atravessa propriamente pelo deserto do Namibe, mas quem conhece a aridez da paisagem sabe e bem do perigo das tempestades do deserto. Então deve procurar abrigo.

Face às informações cinzentas do boletim meteorológico das contas e pagamentos em que vão atravessar os próximos tempos, dois dos grandes emblemas aprenderam a fazer uso do GPS e da economia doméstica: menos encaixe, menos despesa. Antes dos ‘Mamadous’, até os nossos merceeiros sabiam disso.

A crise baterá nos emblemas com pancadas diferenciadas em virtude de uns serem instituição de utilidade pública e terem orçamento próprio, ou serem clube vinculado ao aparelho e viverem de quotas especialmente deduzidas do salário dos efectivos da casa-mãe do clube.

É o caso dos clubes patrocinados pelo estado através de corporações públicas, cuja mensalidade das contas é bem mais oxigenada e portanto assegurada. Mas isso não é geral e clubes como Petrode Luanda ou Asa, respectivamente filhos da Sonangol e da TAAG se deitem hoje em uma esteira ou loando, comparado com o colchão ortopédico em que descansam Interclube ou Primeiro de Agosto. E o Kabuscorp, que recebe à boca e directamente da mão do orçamento geral do estado, então nem precisa de dormir.

Em um análise comparativa, acredito que alguns emblemas são histórica e tradicionalmente mais sortudos que outros na apanha dos subsídios da administração local, como deve ser no bom ‘bairrismo’. Embora nas relações pessoais e particulares uns possam ser privilegiados e conseguir abrir portas, o facto é que nos governos provinciais e municipais parece faltar empatia com o desporto o ‘bairrismo’ da sua praça. Não se lhes sente o subsídio.

O ‘bairrismo’ é entendido pela paixão dos locais para com o seu emblema e nas disputas em que este enfrentar outros bairros e praças. Devia ser sentido comouma expressão espontânea da juventude e sociedade de uma província ou município.Isso havia e morreu, mas porque não há-de renascer, e o que se tem feito por tal?

Muitas vezes os clubes regionais que emergem são mais facilmente por incentivo de um empresário, do que de um administrador ou governador, e isso é vital quanto existe e fatal quando não se manifestar. Mesmo sabendo que o desporto une nas diferenças e époliticamente algo garantidamente rentável em popularidade, bairrismo e mobilização geral. Até para as eleições.

Os clubes, como agrupamentos de cidadão, devem conhecer melhor o seu contexto e realidade, por forma a extrair o máximo proveito das ajudas disponíveis. Para além dos duodécimos do estado, claro, visto haver clubes que dependem mais do apoio, incentivo e contribuições da comunidade, às vezes até com um churrasco de boi assado em dia de jogo e, portanto, de festa local.

Este não é o único elo fraco da cadeia social de um clube. Aquele que pelos poderes executivos costuma ser um apoio mais efectivo, é o das autoridades locais, sobretudo se fizerem jus da inversão na comunidade e no seu clube de subsídios que o orçamento provincial e municipal contempla, porém, as mais das vezes têm outro destino.

Assim e diante da crise já em curso, clubes há que, por parecerem melhor estruturados de quadros,já encararam o realismo e escolheram uma alimentação do desporto mais saudável, estando a libertar-se das gorduras e a cortar com o ‘fastfood' desportivo, essa papa sem jeito com que muitos pretendem continuar a servir o desporto.

Assim e como há males que vêm por bem, a crise devolve-nos o realismoe com ele, clubes edesporto não gozam mais de excepção. E então realismo é optar por uma vida auto-sustentável, com já exigem a FIFA e a CAF, mas em Angola faz-se de conta que ninguém sabe de nada. Entretanto, a FIBA e a HIF ainda não estão a exigir tal, mas deviam.

Nos termos desta auto-sustentabilidade desportiva, as contas são auditadas e é estipulado quanto do clube vai para cada modalidade, quando disso será para formação, e quanto disso será para femininos, qual o tecto do futebol, o dos seniores, quanto será despesa de investimento e quanta despesa será sem retorno. Mas isto viria por a descoberto a estrutura de custos dos clubes, para além das más práticas de gestão, então, em Angola faz-se de conta que ainda ninguém soube de nada disso de auto-sustentabilidade.

Entretanto, o ministério, MINJUD, parece muito tranquilo diante disso; mantém a fachada da importância do ciclo olímpico para eleições, ainda que sejam um ano depois do novo ciclo ter iniciado, e livra o duodécimo de cada mês que alimenta o desporto, mesmo se for devorado por fins menos claros no clube.

E como a supervisão é fraca e o tribunal de contas tem mais o que fazer, lá se vão remessas sem um contrato-programa nem qualquer pré-condição, e isto não é mais do que um ambiente instalado para a festa em que se vive pelas bandas do desporto.

E para provar que nem tudo é farinha do mesmo saco, eis que o Benfica pensou para os seus botões por que haveria de se arreliar com falhas de salário em época de crise? Desta forma e para encurtar caminho, tomou a decisão mais inteligente que um clube possa ter em Angola, que é cuidar do viveiro. Sempre que isto sucede, esse emblema passa a ter mais recursos próprios e a precisar de comprar menos.

Diante de tal magnitude, castigar-se o Benfica de Luanda com três temporadas foi o mesmo que oferecer-lhes 3 anos para voltarem a começar a ser campeões. Hoje equipado de um bom centro desportivo, os ‘encarnados’ vão poder fazer um bom trabalho de formação e de consolidação da sua auto-sustentabilidade. Dir-se-á que há males, como a crise, que vêm por bem, pois forçam-nos a sermos mais fortes e a primeira força deve ser sempre a da inteligência.

O Benfica teve isso. Se faltam pernas para se manter de pé todo o antigo aparato, é preferível deixar-se de ‘bangas’ e fachadas esplendorosas. Aqueles que censuram o Benfica, embora do ponto de vista formal e legal se sintam defraudados, devem também procurar encarar de outro ângulo e antever o futuro promissor que advirá da escolha ‘encarnada’.

E do realismo do Benfica, saltarei para o pragmatismo de outro grande do nosso desporto. Quando recentemente se viu confrontado com uma triste realidade, para mais sendo filho da mamã nacional, o Petro Atlético viu-se repentinamente a braços com cortes, cirúrgicos ou não, que deixaram o clube encostado às cordas. E como na nossa cultura, desporto é futebol, o basquetebol foi o primeiro a provar da nova ração alimentar do clube filho da Sonangol, que há muito havia já largado os enteados.

Sem dinheiro para mais ‘Quesadas’ nem ‘quesadillas’, o Petro deixou-se de panos de seda e vestiu-se mesmo dos trapos da casa, por acaso de marca, campeões africanos juniores. E assim o basquetebol do Eixo Viário, que é tradicionalmente do trio da frente,optoupor abrir mão de estrangeiros por enquanto e passar a vestir ‘nacional’. Para alívio geral do basquetebol nacional.

Ao competir este ano com a nata dos seus Sub-18 campeões africanos, o Petro Atlético aceitou uma terapia dolorosa, porém benéfica e salutar, que deverá procurar manter, pois seu cancro vai serextirpado em três anos ou menos. Mas poderá voltar. E quem não lhes imitar vai continuar a gastar com treinadores e jogadores estrangeiros. E cancros.

Ora, pragmatismo como o do Petro, quer-se ver mais e em abundância, pois enquadra-se igualmente na mentalidade de auto-sustentabilidade. Passou a vir nos manuais da Sonangol, associadas, afilhadas e dependentes, ‘deixar-se se de bangas e dar o passo apenas do tamanho da perna, mas jamais gastar-se a totalidade dos recursos e reservas, e usar parte da despesa como investimento’, e isso recomenda-se.

Sem talfica difícil registar-se crescimento, deixando de haver desenvolvimento. O desporto angolano está como a gravidez; quanto mais se adia a revelação, mais lhe cresce a barriga...
Arlindo Macedo

Últimas Opinies

  • 23 de Março, 2019

    Agora que venha o CAN do Egipto!

    Que venha agora o CAN do Egipto! Sim, que  venha o Campeonato Africano das Nações porque a fase de qualificação ficou já para atrás. 

    Ler mais »

  • 23 de Março, 2019

    Cartas dos Leitores

    Estou aqui para trabalhar. É uma realidade nova para mim. Nunca estive em África.

    Ler mais »

  • 23 de Março, 2019

    Angola est no Egipto

    O país acordou, hoje, na ressaca da explosão festiva resultante da qualificação da selecção nacional de futebol, ao Campeonato Africano das Nações, a disputar-se em Junho e Julho, no Egipto.

    Ler mais »

  • 21 de Março, 2019

    Amanh um "tudo ou nada

    Amanhã é uma espécie de Dia D, para nós, e tal fica a dever-se aos ‘’Palancas Negras’’

    Ler mais »

  • 21 de Março, 2019

    Um regresso depois de quase dez anos

    Volvidos quase dez anos, volto a assumir uma missão como enviado especial do Jornal dos Desportos, título para o qual escrevo desde o ano de 1997, e que nesse momento assumo o cargo de editor, depois de já ter sido sub-editor e correspondente provincial.

    Ler mais »

Ver todas »