Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Dois negros entre os trs primeiros

20 de Fevereiro, 2020
Não vou falar de raça, nem de racismo, nem de Marega. Vou mais além e aos Prémios Laureus. Tudo tem a ver com a raça se for questão genética. O genes do negro não era classicamente reconhecido em todos os desportos sobretudo naqueles mais queridos pela comunidade branca clássica e que lhe serviam de modelos de algo superior como a raça.
Com efeito, a ginástica (a exemplo da natação) e o automobilismo são precisamente dois desportos da presumida supremacia branca que os negros conquistaram e reconquistaram para estarem hoje Monica Biles, Lewis Hamilton e Leonel Messi no podium dos prémios aos desportistas do ano por feitos adquiridos e somados.
O que eu quero dizer é que todos os homens têm em princípio capacidades iguais se iguais forem as suas condições para o desenvolvimento, em especial, o crescimento da pessoa na plenitude das suas mínimas condições. Nos já vivemos isso em Angola, já tivemos o melhor desporto de África, mas perdemos hoje em muitos outros aspectos, com os mais pobres países africanos e sem sistema sócio-desportivo.
A nossa sociedade desactivou, perdeu o sistema desportivo que tínhamos. Não vês hoje os miúdos a jogar nas escolas como parte do currículo, a correr e a saltar nos parques e bairros sob o olhar atento de activistas que bem podiam ser das juventudes dos partidos, dos escoteiros ou das madres, que fossem, mas, haver orientadores de campo. E os pais das crianças também fazem descaso disso.
Ao contrário dos sul-africanos, rwandeses, senegaleses ou marroquinos, só para dar alguns exemplos de países e sociedades com sistema desportivo de facto, contraímos um défice institucional primário para a sociedade, que é falta do instituto da actividade desportiva como hábito, prática quotidiana e valor cultural da sociedade.
Em Angola temos perdido alguns institutos por falta da sua observância: olá, bom dia e outras simpatias e cortesias populares ditas entre nós estão a desaparecer, começando pelo se faz favor. Hábitos são institutos também, na medida em que popularmente instituídos no quotidiano, sem precisar de decreto. Tal como os hábitos se podem perder...
Assim, não nos podemos limitar a escrever coisas na Lei do País, que é a Constituição. Precisamos de sentir o que escrevemos e escrevermos aquilo que nos guia. Por acaso, alguém terá uma ideia de qual é o nosso Projecto como país desportivo? Já não peço mais que isto, mas um país desportivo e uma ideia da sua projecção em metas e resultados, e sabermos como estaremos, quando e onde, em termos desportivos consentâneos com os estádios e pavilhões que construímos de raiz para objectivamente acolher um único evento internacional, há 19 anos atrás, e depois ir servindo até cair. Por muitas centenas de milhões de dólares, direi mesmo, por um investimento em estádios e pavilhões que passou dos mil milhões nos últimos dez anos, à razão de mais de 100 milhões de dólares por ano, entre 2009 e 2019 para fazermos melhor ideia.
Em comparação, quais foram os nossos reais ganhos desportivos? É uma longa conversa e discussão que estou a arranjar, mas gostaria de terminar como comecei, a vir alertar para o facto de precisarmos de alguma solução do Estado para recuperar um modelo desportivo da sociedade, capaz de promover o desenvolvimento de atletas e as ambições desportivas que nacionalmente temos. Acreditamos que um dia, com as vitórias do desporto angolanos poderiam desfilar as grandes Marcas do país, gerando interesses com retorno e dando um estofo ao desenvolvimento desportivo patrocinado.
A questão está em que quanto mais se tardar a tomar uma iniciativa, mais perto estaremos do recuo ao zero. O número de clubes e de praticantes tem diminuído. A razão costuma ser a falta de verba, mas, para se fazer iniciação desportiva é precisa de grande verba desde quando?
Nossos filhos são em imensa maioria subnutridos e carregam esse défice de ADN desportivo, para além de serem mais vulneráveis a uma morte prematura, ou a uma esperança de vida que não é a mesma que a da Namíbia, por exemplo, nem a de Cabo Verde. A pratica do desporto é saudável e um factor de saúde pública a que em Angola damos apenas importância literária, mas não política, pois, até é possível que não se tenha reflectido em torno do tema o suficiente e se afirme o que afirma publicamente só por questão de retórica, mas, um país que já não continue a manter a organização desportiva que Angola ainda tinha até 1985, sem apresentar um modelo alternativo, é um país que está a desperdiçar tempo. E certamente, também dinheiro.
Assim e quando um dia pudermos ter em África meninos da mesma qualidade física e atlética da Monica Biles e do Lewis Hamilton, a viverem e crescerem num ambiente com qualidade ambiental educativa, então veremos aparecer talentos semelhantes ai deles, esperançosos de que em muitos outros desportos, os angolanos hão-de conseguir voltar a ser brilhantes como foram um dia.
Arlindo Macedo


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