Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

E a federao no tem culpa nisto?

29 de Agosto, 2017
O Benfica de Luanda é que teve a coragem de \"matar cobra e mostrar\" o pau. Porque, antes do arranque do presente Girabola ZAP, decidiu suspender a sua participação, devido à falta de suficientes recursos financeiros, humanos e logísticos.

Foi uma posição bem pensada como aquela de 2014 quando, por ter conquistado a Taça de Angola, recebendo apenas como recompensa da Federação Angolana de Futebol a “módica\" quantia de cinco milhões de kwanzas, troféu, medalhas, logo a seguir declinou o direito de representar o país nas Afrotaças, em 2015.

Por isso, eu mais uma vez reafirmo: a Federação Angolana de Futebol tem de, logo na pré-época, avaliar as condições financeiras de cada equipa inscrita para o Girabola, no sentido de avaliar se são capazes de aguentar as despesas da competição em todos os sentidos, nomeadamente, honrar contratos, pagar salários, prémios de jogos aos jogadores, treinadores e outros técnicos e viagens. Só desta forma poderá perceber se elas podem mesmo chegar ao fim da competição.

Se não tiver capacidade ou coragem para exigir isto das equipas, então não custa-lhe por outro lado orientar que o Girabola passe a ser disputada por fases, numa primeira fase por regiões para ali poderem suportar os gastos e compromissos com jogadores e treinadores e, numa segunda fase, haver uma “poule” nacional, com equipas apuradas regionalmente, a fim de se encontrar o campeão.

Porque está por demais visto que a maioria das equipas, desde que os seus patrocinadores deixaram de depender grandiosa e financeiramente dos Estado, as equipas mostram dificuldades de se aguentarem nas provas nacionais de futebol e, vai daí, as recorrentes ameaças e concretização de desistências do Girabola.

Para mim é já infundado o argumento de que alterar o modelo actual de disputa do Girabola seja uma maneira remar contra o factor catalizador de unidade nacional que o Girabola, alegadamente, encerra. Trata-se de uma retórica com “adornos políticos” que não vale. É que, em boa verdade, o pior cego - como se diz - é aquele que não quer ver.

Acho, portanto, que o Carlos Calongo tem razão, ao sublinhar que, desde que o Estado por via (in)directa deixou de ter recursos para servir o desporto como noutros tempos, as dificuldades acentuaram também para os clubes.

Quem vê com olhos de ver sabe disso. Muitas equipas tinham o suporte de grandes empresas, públicas e privadas, de ministérios e de outras instituições, mas muitas destas instituições agora confrontadas com um contexto, social, económico, financeiros e político que já não facilita, orçamentos, subsídios e apadrinhamentos hoje ainda reclamados pelos clubes... como se o cenário fosse o mesmo de ontem. Está errado!

Hoje, a maioria dos clubes têm de ser geridos como fontes geradoras de lucros. Sempre defendi, desde o momento de inicio do então Programa de Saneamento Económico e Financeiro e das políticas similares subsequentes, que o Estado encetou para reformar “tudo e todos”, em particular no aspecto financeiro.

Vamos só, de novo, reter o que disse no passado final de semana o senhor Hilário Silva, dirigente do Progresso da Lunda Sul - equipa que, face às dificuldades financeiras, agora ameaça claudicar do campeonato: \" clube tem passado várias situações que não quero aqui apontar, coisas que não se admite em nenhuma equipa de futebol (...). Uma equipa que não treina, que tem problemas administrativos e financeiros não pode jogar futebol nem ganhar jogos\".

Se a Federação Angolana de Futebol exigisse provas suficientes de capacidade financeira das clubes para as suas equipas , razões de desistências não aconteceriam quase de forma recorrente. Tirando o 1º de Agosto, Petro de Luanda, Interclube e o Sagrada Esperança, vamos ainda continuar a assistir ameaças desta índole. Devem organiza-se melhor. Mesmo as grandes equipas, como fez este Petro de Luanda em 2014, decidindo não lutar pelo título até 2018 devido a sua crise financeira.

Tomás Faria, seu presidente, tinha dito honestamente o seguinte: \"Para a história do clube e da prova, o Petro vai entrar para o Girabola sem objectivo de lutar pela conquista do título. Neste momento, a estabilidade financeira do clube é prioridade\". Em 2011, o presidente da Académica do Soyo, chegou a dizer que a equipa desistiria do Girabola devido a dificuldades de ordem financeira, pois \" sobrevive graças ao meu esforço financeiro.

Tivemos um apoio do governo provincial do Zaire e temos tido o apoio da Força Aérea Nacional para a transportação da equipa”.
Em 2012 a equipa principal Sporting de Cabinda atravessa sérios problemas financeiros e correu o risco de desistir do Girabola 2012.
Como estas duas equipas, antes já tinha visto, em anos diferentes, a mesma \"conversa\" dos dirigentes da Académica do Lobito, do

ASA, do Porcelana FC, do 4 de Abril do Cuando Cubango, Bravos do Maquis, do Domante do Bengo e, neste ano de 2017, o presidente do Santa Rita de Cássia, Nzolani Pedro, já veio a público dizer corajosamente que “ estamos a pedir o contributo para mantermos o Santa Rita de Acácia, temos aguentado com o pouco que conseguimos, mas quem está no futebol sabe que não é nada fácil. Gasta-se muito dinheiro”.

Últimas Opinies

  • 19 de Março, 2020

    Escaldante Girabola

    O campeonato nacional de futebol da primeira divisão vai dobrando os últimos contornos. A presente edição, amputada face a desqualificação do 1º de Maio de Benguela, abeira-se do seu fim . Entretanto, do ponto de vista classificativo as coisas estão longe de se definirem. No topo, o 1º de Agosto e o Petro travam uma luta sem quartel pelo título.

    Ler mais »

  • 17 de Março, 2020

    Cartas dos leitores

    Estamos melhor do que nunca. A pressão é para as pessoas que não têm arroz e feijão para comer. Estamos sem pressão, temos todos bons salários e boas condições de trabalho. Estamos numa situação de privilégio e até ao último jogo tivemos apenas duas derrotas.

    Ler mais »

  • 17 de Março, 2020

    Jogos Olmpicos2020

    A suspensão de diferentes competições desportivas a nível mundial em função do coronavírus, já declarada pela OMS-Organização Mundial da Saúde como Pandemia, remete-nos, mais uma vez, a reflectir sobre a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Pelo menos até aqui, o COI-Comité Olímpico Internacional mantém de pé a ideia de realizar o evento nos prazos previstos.

    Ler mais »

  • 14 de Março, 2020

    FAF aquece com eleies

    Cá entre nós, o fim do ciclo olímpico, tal com é consabido, obriga, por imperativos legais, por parte das Associações Desportivas, de um modo geral e global, a realização de pleitos eleitorais para a renovação de mandatos.

    Ler mais »

  • 14 de Março, 2020

    Cartas dos Leitores

    Acho que o Estado deve velar por essas infra-estruturas.

    Ler mais »

Ver todas »