Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

E agora? (1)

18 de Outubro, 2018
Quem diria? Madagáscar está no quarteto dos países já matematicamente qualificados para o CAN, em Junho do próximo ano. Os outros são Egipto, Senegal e Tunísia.
Madagáscar dá graças em ter aparecido uma confederação regional que prima por realizar campeonatos anualmente, a COSAFA, onde primava sobretudo por aproveitar os torneios de jovens. A diferença entre lá e cá, é que aqui esperamos que nos paguei para fazer desporto, enquanto lá pagariam, se pudessem, para fazer desporto.
Fruto de um atraso cronológico e estrutural, Angola vai aos poucos dando sinais de ter começado a ver as coisas com olhos de ver e a perceber que o fenómeno político não deve desprezar as suas valências lúdicas, culturais e desportivas, que é onde se criam as empatias.
Hoje o nosso país já tem novo rosto lá fora e cá dentro. O desporto e particularmente o futebol têm estado a contribuir para isso. Quem se interrogou sobre a importância de o Vice-Presidente da República, Dr. Bornito de Sousa, ter visitado a selecção durante um treino dos “Palancas Negras” é porque não repara na dimensão política do futebol e no seu factor de coesão social; outros há que simplesmente tiveram dificuldade de deglutir, engolir e digerir tamanha honraria, que aos demais deixa invejosos.
Contrariamente, a derrota no terreno da Mauritânia, mesmo sendo clássico o anfitrião ganhar, foi mais um jogo no processo de a selecção se entrosar, de o meio-campo se consolidar, de a defesa conseguir selar em verticalidade e horizontalidade as linhas de passe, jogando para o ataque usando a inteligência, para além do físico e da força.
Em países desenvolvidos e, sobretudo, com uma visão colectiva das actividades na sociedade, uma das formas de se garantir um futuro é investindo nele agora, no tempo presente; além de não ser habitual fazermos assim é preciso compreender-se o quanto é indispensável chegar a um compromisso ou pacto social segundo o qual os agentes desportivos e clubes em particular façam orçamentos inclusivos de uma percentagem da despesa como sendo despesa de investimento destinada à formação inclusive de formadores.
O atraso do nosso país em matéria do desporto de formação e desporto jovem em geral, disfarçado aqui e ali por uns campeonatos nacionais de juvenis, agora mais povoados em futebol, embora com apenas 5 províncias a praticar, contra um número já de 8 províncias lançadas em juniores, não existia um meio termo coercitivo por parte da federação (FAF), por que se espera forte activação doravante.
A partir do dia 27 de Outubro, todos os clubes têm que apresentar contas acertadas e nenhuma dívida a terceiros, antes de poderem competir. E a isso devo acrescentar que os clubes devem igualmente inscrever-se em 2018-19 nos escalões juvenil e júnior.
Lá fora, no resto do mundo, também já se lhes pede levarem as contas auditadas. Há um combate que se generaliza, à má governança e corrupção. Entre nós agora já não é tabu falar disso, mas mais eficaz do que ficar a dar socos na ponta da faca, é lutar simplesmente por transparência. Nada impede as pessoas de se relacionar e negociar com transparência e este é cada vez mais um quesito liminar das ligações comerciais e relações negociais, de modo tal que nada avança se não for com lisura e ética, com conformidade e sem irregularidades, com legalidade e transparência.
Deixou de haver dúvidas quanto ao facto de para haver bom futebol e bons atletas são necessários primeiro bons profissionais. Mas em Angola não se está a produzir muitos jogadores ainda, de modo tal que da quantidade se possa obter alguma qualidade. Para detectar isto são necessárias valências como a competência e a experiência. Agora estou sem perceber se tem falhado competência no ‘scouting’(ou ‘casting’, são ambas formas de detecção) ou se uma maioria dos nossos meninos tem perna de pau.
Actualmente o país inteiro grita Gelson e já o vêem como o futuro grande expoente acima, até, de Akwá e Mantorras, porém, ele precisa ainda de aprimorar a sua técnica, como ficou demonstrado agora na Mauritânia, se fosse mais trabalhado do ponto de vista do seu jogo de pés, quando desperdiçou o empate na cara do guarda-redes adversário.
São naturalmente precisos mais Gelsons e isso deve começar-se pela base e a base são os clubes. Apesar de os últimos campeonatos nacionais de jovens terem aumentado o número de equipas participantes, os mesmos ainda têm uma geografia somente correspondente a menos de metade do país, que é formado de 18 províncias, todas com um histórico de futebol no passado recente inclusive, casos do Bengo, Cunene, Cuando-Cubango, Lunda-Sul ou Zaire.
Consequentemente a base ainda é pequena. E a safra magra. Um dos queixumes após a derrota de Angola na Mauritânia, foi pedir que desenvolvam o futebol jovem na Huíla e Cunene, a ver se os Palancas Negras reduzem o défice atlético e de altura, em relação aos adversários. Modernamente procuram-se inclusive guarda-redes altos que gostem pouco de basquetebol. Mas tamanho e força não são de todo documento em futebol.
O melhor jogador do ano, croata, Luca Modric,é daqueles que acredita que o futebol é para ser jogado com inteligência. \"Há equipes que mostram que podes ganhar e dar um bom show ao mesmo tempo, existem diferentes maneiras de jogar futebol, mas eu acho que é possível combinar as duas [físico e inteligência].
“A condição física dos jogadores é hoje melhor do que nunca, mas ainda há espaço para talento e técnica, para buscar beleza, e esse sempre será o caso, porque futebol é um desporto que é jogado com a cabeça, podes ter toda a força física que quiseres, mas sempre haverá uma coisa chamada inteligência do futebol, inteligência do jogo, que sempre será essencial, [enquanto] o físico nunca suplantará a inteligência ”, sentenciou o melhor futebolista do ano.
A inteligência do futebol e do jogo é uma das partes importantes que se aprende na academia, de resto, joga-se por instinto e raramente movido pelo interesse no colectivo para se chegar ao golo. Cada vez mais perante os actuais sistemas implacáveis de marcação, graças ao modelo defensivo homem-zona com as ajudas que deixaram de ser exclusivas do basquetebol, surgiu e desenvolveu-se no futebol o jogo sem bola. E nestas condições é importante o papel dos monitores das academias e dos escalões de formação nos clubes, pois são eles quem molda os jogadores do amanhã.
Por isso venho dizer que a capacitação dos treinadores é cada vez mais um assunto na ordem do dia, pois deles depende a qualidade restante do trabalho, da preparação e do desenvolvimento, dos processos e procedimentos próprios desse labor técnico com crianças e adolescentes. E quem precisa de tomar isto seriamente e a peito é o Estado, na pessoa do regulador e fiscal das associações desportivas, que é o Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD).
Só no espaço CPLP há grande multilateralidade para o desporto, porém, escassas iniciativas mesmo entre federações, o que reflecte uma dinâmica de relações institucionais pouco mobilizada no espaço pluricontinental que fala a língua portuguesa. E esta matéria deve igualmente entrar para as agendas bilaterais. Hoje Angola tem mais que não ter vergonha de admitir que desportivamente se está a atrasar.
Veja-se o exemplo dado de que a cooperação vale mais que as guerrinhas de competição. Em Las Rozas, na Espanha, realizou-se há poucas semanas o terceiro curso de formação contínua da UEFA, no qual se reuniram treinadores de todo o mundo. O evento teve como protagonistas os técnicos Karanka, Pellegrino, Lucas Alcaraz, Guti, Berizzo,Caparrós ouMauricioPochettino, entre muitos outros. Ao longo de dois dias passaram mais de 400 treinadores pelo crivo, para renovarem a sua licença e ampliarem os seus conhecimentos com técnicos ilustres como Emery ou JaviGracia.
Angola atravessa infelizmente uma criseque não sendo de identidade, só poderá ser um complexo que se tem exprimido pela dificuldade de ouvir os outros ou aceitar a diferença, ao mesmo tempo que nos convencemos de que continuamos actualizados mesmo sem ir lá fora nem aceder a literatura especializada, nem a vídeos tutoriais. Em regra todos os nossos treinadores estão mais que actualizados e aprendem muito nas quartas-feiras europeias.
Na UEFA, os treinadores encontram-se anualmente e partilham saber, mas sobretudo inovação, e isso é o resultado de sociedades desenvolvidas e que compreenderam que a cooperação favorece mais que a competição entre todos. Já não falo de África, mas de Angola; e o nosso país sabe que não nos basta ter uma associação de treinadores, nem um sindicato, é precisa Academia, esse conjunto de formadores de gabarito e actualizados em que urge que alguns dos nossos estudiosos se tornem. Por outras palavras, os próximos “Victorinos”.
O nosso país conta hoje com um leque já nada pequeno de pós-graduados em desporto ou motricidade ou outra especialidade, mas que não interagem na sua esfera técnico-profissional; por exemplo, estranha em Angola não haver por parte das associações de treinadores, palestras e mesas-redondas com alguns dos renomados treinadores que têm feito praça em Angola e que partem tal como chegaram, sem alguma vez terem experimentado ou sido solicitados para interagir com os treinadores locais.
Sem essa janela, a maioria dos treinadores nacionais sufoca, vegeta e padece. Para a infelicidade dos atletas, muito dirigentes e clubes negligenciam alguma vez ou muitas com o treino desportivo e este parece tão pouco parece dizer respeito a uma associação de treinadores, nem de jogadores, exigindo dos profissionais constantes actualizações.
Quantos dos treinadores angolanos renomados tem contribuído para haver também formação jovem no andebol, basquetebol ou futebol?
A formação dos quadros técnicos do desporto – e não só, também os gestores e administrativos – é um caso mais sério e transversal do que possa parecer e tem um papel de importância e realce particular, visto ser os cultivadores do desporto e numa análise ainda mais redutora, serem as sementes do viveiro de treinadores precisos às centenas, pelo país fora.
O assunto deve assumir cada vez mais importância para a nossa sociedade em virtude de o desporto ser um dos poucos sectores ainda capazes de criar emprego, sendo esperado que a concorrência fosse maior, porém, não é caso. Muitos jovens e por vezes já profissionais desperdiçam uma oportunidade inclusive de carreira como técnico desportivo qualificado e certificado. Países desportivamente avançados como Cuba ou Espanha, para falarmos de quem conhecemos, são um exemplo de sociedade desportiva onde há demasiado saber e conhecimento concentrados para os angolanos irem beber.
E assim, enquanto o chicote vai e as nossas costas descansam, qual há-de ser o próximo passo?
Arlindo Macedo

Últimas Opinies

  • 21 de Outubro, 2019

    Zap e Unitel apanhados mais uma vez fora do jogo!

    Angola precisa de quadros capazes, corajosos e valentes não só para dar impulso ao marketing desportivo, bem como através desta aliciante ferramenta proporcionar um comprometimento e envolvimento para uma área que exige muita arte, em termos criatividade, imaginação e emoção, e muito “jogo de cintura” em termos de cientificidade, levando em conta a nossa realidade, adaptando-a ou ajustando-a, há uma melhor compreensão dos fenómenos mercadológicos e da complexa dinâmica do mercado. 

    Ler mais »

  • 21 de Outubro, 2019

    Cartas dos Leitores

    O objectivo do 1º de Agosto é manter a liderança até ao final do campeonato.

    Ler mais »

  • 21 de Outubro, 2019

    O desporto adaptado

    Ainda na ressaca da recente conquista do título africano pela Selecção Nacional de Futebol para Amputados, saltou à vista o apelo da titular da pasta da Juventude e Desportos no sentido de se apoiar as pessoas portadoras de deficiência. 

    Ler mais »

  • 19 de Outubro, 2019

    Primeiro quarto sob signo de equilbrio

    À passagem da oitava jornada da época 2019/2020 do Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão, prova que nos últimos tempos passou a designar-se com o cognome de Girabola Zap, é nota marcante o equilíbrio que se faz sentir no seu seio.

    Ler mais »

  • 19 de Outubro, 2019

    Quem quem no nosso Girabola Zap?

    A medida que as jornadas se sucedem, o Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão vai aquecendo, tomando melhores proporções competitivas que provoca igualmente um maior arrasto dos prosélitos.

    Ler mais »

Ver todas »