Jornal dos Desportos

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Opinio

E agora? (fim)

20 de Outubro, 2018
“A condição física dos jogadores é hoje melhor do que nunca, mas ainda há espaço para talento e técnica, para buscar beleza, e esse sempre será o caso, porque futebol é um desporto que é jogado com a cabeça, podes ter toda a força física que quiseres, mas sempre haverá uma coisa chamada inteligência do futebol, inteligência do jogo, que sempre será essencial, [enquanto] o físico nunca suplantará a inteligência ”, sentenciou o melhor futebolista do ano, Luca Modric.
A inteligência do futebol e do jogo é uma das partes importantes que se aprende na academia, de resto, joga-se por instinto e raramente movido pelo interesse no colectivo para se chegar ao golo. Cada vez mais perante os actuais sistemas implacáveis de marcação, graças ao modelo defensivo homem-zona com as ajudas que deixaram de ser exclusivas do basquetebol, surgiu e desenvolveu-se no futebol o jogo sem bola. E nestas condições é importante o papel dos monitores das academias e dos escalões de formação nos clubes, pois são eles quem moldam os jogadores do amanhã.
Por isso venho dizer, que a capacitação dos treinadores é cada vez mais um assunto na ordem do dia, pois deles depende a qualidade restante do trabalho, da preparação e do desenvolvimento, dos processos e procedimentos próprios desse labor técnico com crianças e adolescentes. E quem precisa de tomar isto seriamente e a peito é o Estado, na pessoa do regulador e fiscal das associações desportivas, que é o Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD).
Só no espaço CPLP há grande multilateralidade para o desporto, porém, escassas iniciativas mesmo entre federações, o que reflecte uma dinâmica de relações institucionais pouco mobilizada no espaço pluricontinental que fala a língua portuguesa. E esta matéria deve igualmente entrar para as agendas bilaterais. Hoje Angola tem mais que não ter vergonha de admitir que desportivamente se está a atrasar.
Veja-se o exemplo dado de que a cooperação vale mais que as guerrinhas de competição. Em Las Rozas, na Espanha, realizou-se há poucas semanas o terceiro curso de formação contínua da UEFA, no qual se reuniram treinadores de todo o mundo. O evento teve como protagonistas os técnicos Karanka, Pellegrino, Lucas Alcaraz, Guti, Berizzo, Caparrós ou Mauricio Pochettino, entre muitos outros. Ao longo de dois dias passaram mais de 400 treinadores pelo crivo, para renovarem a sua licença e ampliarem os seus conhecimentos com técnicos ilustres como Emery ou Javi Gracia.
Angola atravessa infelizmente uma crise que não sendo de identidade, só poderá ser um complexo que se tem exprimido pela dificuldade de ouvir os outros ou aceitar a diferença, ao mesmo tempo que nos convencemos de que continuamos actualizados mesmo sem ir lá fora nem aceder a literatura especializada, nem a vídeos tutoriais. Em regra todos os nossos treinadores estão mais que actualizados e aprendem muito nas quartas-feiras europeias.
Na UEFA, os treinadores encontram-se anualmente e partilham saber, mas sobretudo inovação, e isso é o resultado de sociedades desenvolvidas e que compreenderam que a cooperação favorece mais que a competição entre todos. Já não falo de África, mas de Angola; e o nosso país sabe que não nos basta ter uma associação de treinadores, nem um sindicato, é precisa Academia, esse conjunto de formadores de gabarito e actualizados em que urge que alguns dos nossos estudiosos se tornem. Por outras palavras, os próximos “Victorinos”.
O nosso país conta hoje com um leque já nada pequeno de pós-graduados em desporto ou motricidade ou outra especialidade, mas que não interagem na sua esfera técnico-profissional; por exemplo, estranha em Angola não haver por parte das associações de treinadores, palestras e mesas-redondas com alguns dos renomados treinadores que têm feito praça em Angola e que partem tal como chegaram, sem alguma vez terem experimentado ou sido solicitados para interagir com os treinadores locais.
Sem essa janela, a maioria dos treinadores nacionais sufoca, vegeta e padece. Para a infelicidade dos atletas, muito dirigentes e clubes negligenciam alguma vez ou muitas com o treino desportivo e este parece tão pouco parece dizer respeito a uma associação de treinadores, nem de jogadores, exigindo dos profissionais constantes actualizações.
Quantos dos treinadores angolanos renomados tem contribuído para haver também formação jovem no andebol, basquetebol ou futebol?
A formação dos quadros técnicos do desporto – e não só, também os gestores e administrativos – é um caso mais sério e transversal do que possa parecer e tem um papel de importância e realce particular, visto ser os cultivadores do desporto e numa análise ainda mais redutora, serem as sementes do viveiro de treinadores precisos às centenas, pelo país fora.
O assunto deve assumir cada vez mais importância para a nossa sociedade em virtude de o desporto ser um dos poucos sectores ainda capazes de criar emprego, sendo esperado que a concorrência fosse maior, porém, não é caso. Muitos jovens e por vezes já profissionais desperdiçam uma oportunidade inclusive de carreira como técnico desportivo qualificado e certificado. Países desportivamente avançados como Cuba ou Espanha, para falarmos de quem conhecemos, são um exemplo de sociedade desportiva onde há demasiado saber e conhecimento concentrados para os angolanos irem beber.
E assim, enquanto o chicote vai e as nossas costas descansam, qual há-de ser o próximo passo?
Arlindo Macedo

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