Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

E j l vo doze...

14 de Junho, 2018
Em Angola nunca foi discutido o segredo da rota de sucesso dos “Palancas Negras” para chegarem em 2006 à Copa do Mundo FIFA, na Alemanha. Uma receita perdida no tem e que nunca mais nos levou, praticamente, a lado algum de jeito.
Guardo comigo a lembrança de uma Angola capaz, pelo menos, de travar os melhores. Mesmo jogando – como criticara Mourinho – ‘dez’ atrás da linha de bola, jamais perdemos clamorosamente e, lá isso de facto, éramos mestres a empatar. Podíamos não construir grande coisa, mas que empatávamos o adversário, lá isso, sim, e os empates rendiam-nos um ponto por jogo.
Foi assim em toda aquela campanha de Angola deveras singular para nós, quando em jogos-treino nos medimos com meia elite mundial dessa época, como Argentina, Estados Unidos ou Turquia, sem desprimor também para Coreia do Sul e Japão, que não são nada pera doce. E os principais condimentos disso foram mesmo o plano de ‘fitness’ traçado pelo já malogrado Professor Mabi de Almeida e a influência dos então “expatriados” nossos em Portugal.
O que então havia de comum em ambos os ingredientes era a mais elevada qualidade dos mesmos para nós, e parece-me que não voltei a ver iguais. E com algum arrojo direi mesmo não haver iguais – ah, quase me esquecia que revi, sim, um “fitness” aproximado àquele, no último CHAN. Então e quando felicitava o adjunto Sasha por tal, ficara sentenciado que eu teria depressa o troco.
Mais aberto e à medida que íamos ganhando a confiança um do outro, o “líder” Srdjan convidou-me a sentar e explicou diante de todos que na actualidade não há preparadores físicos, pois, todos os técnicos têm essa “cadeira” na actualidade; percebi logo que, tratando-se de trabalho de equipa, não se pode mais chamar preparador físico a um treinador visto a dar preparação física. Mas, lá está, será que todo o nosso treinador domina a componente física do treino o bastante?
A razão da minha pergunta é simples e tem a ver com o seguinte: os treinadores angolanos, na sua maioria formados entre os Anos 80 e 90, dificilmente conseguem recurso financeiros para ir lá fora manter-se em dia; alguns fazem estágios de uma semana ou duas, dizendo que bastou; outros, sobretudo no andebol, superam-se em “clinics” que para eles equivalem a autênticas elevações de graduação, porém, exageram.
O banco da escola ainda é o melhor assento do conhecimento quando se tem professores tarimbados e essa não parece ser a sorte dos nossos treinadores, pelo que veremos adiante as consequências dessa “cabulice”, ou simplesmente4 ausência das aulas por falta de recursos; ah, também temos os treinadores que não gostam de falar em aulas, pois, para si mesmos, eles são já uns sabichões.
Então estamos onde eu queria, que é discutir a razão da falta de técnicos capazes no futebol de formação, que é o único em que vale a pena continuar-se a centrar esforços se quisermos chegar a algum lado, e lá voltar, e voltar, e voltar.
Os clubes de futebol angolano são, alternadamente, a bóia e a chumbada do futebol angoalno; bóia porque, como a própria nova Ministra demonstrou quando em início de mandato chamou clubes da capital para saber do que precisavam. Sim, o MINJUD estava preocupado com o “circo” do desporto mais na óptica do espectáculo de animação de fins-de-semana, do que na óptica do país que quer voltar a estar entre os melhor posicionados do futebol regional e africano.
Não estive lá e nem escutei nas paredes, mas acredito que nenhum clube falou da falta de treinadores actualizados angolanos; de certeza que falaram de mais verba, que parece ser o “leit motiv” do novo dirigismo desportivo nacional. E depois fica-se a gastar muito mais com técnicos e jogadores importados, pois, Angola deixou de fabricar ambos bem lá atrás, nos Anos 90.
Mas, claro, quem não tem cão caça com gato e assim os tais dirigentes sentem-se aliviados, enquanto os seus “importados” aliviam em ritmo ainda maior, as parcas economias ou reservas em divisas dos clubes.
Repare-se que ainda não estou a falar de futebol, mas, de formação; em Angola ludibria-se a formação! Os clubes enganam a federação sabendo que sem futebol de formação não podem disputar nem “Girabola”, nem “Segundona”; e a federação faz vista grossa, pois, acabaria por arranjar um sarilho com o poder político se a regra fosse aplicada a sério.
Sim, diz uma das regras lapidares do regulamento de provas séniores da FAF, que nenhum emblema sem investimento na formação seria autorizado a competir naqueles dois torneios nacionais máximos. O certo é que a maior parte dos clubes do país não liga a isso e a caravana passa, senão, deixaria de haver espectáculo.
Ora, tal desfaçatez da maioria dos clubes – visto os participantes nos nacionais de jovens parecerem ser sempre os mesmos poucos – é uma das principais causas da quase letargia do nosso futebol jovem. E se os poderes políticos adulam tanto o futebol na caça ao voto, deviam fazê-lo também no quotidiano para enraizar o destino do voto.
A falta de cultivo do bom exemplo é já uma espécie de insuficiência nossa crónica, sobretudo quando se trata de trabalhar e, se necessário, emular. Felizmente e para provar que em tudo há sempre a excepção, temos orgulho na AFA que temos, de resto, enganam-se aqueles que julgarem que atrás do sucesso da AFA está o dinheiro, pois, aqueles não são resultados de dinheiro, mas, sim, de saberes ali reunidos.
Haverá outro clube jovem, escalão de formação de clube consagrado, ou ainda, academia, que reúna tanto saber profissional? Este é que me parece ser o cerne da nossa questão. Os técnicos não têm apoios para se ir refrescar nos “grandes”, os presidentes dos clubes dificilmente lhos dão, sob as desculpas mais variadas e certas vezes absurdas e disparatadas, mas a realidade é essa que contei. Então é quando se fica à espera que o ministério venha ver isso..., mas não virá; contará que não tem meios ou que isso nem é da sua responsabilidade (!)
Em suma, coitados dos nossos garotos. Além de não investir nos jovens, nem nos técnicos nacionais, os clubes nacionais preferem empregar como técnicos alguns antigos atletas, nem sempre suficientemente preparados para dar um treino responsável. E se juntarmos à falta desse preparo, a falta igualmente de algum sentido pedagógico dos treinadores formados à pressa ou nas bancadas e campos de jogo, corremos o risco de julgar que as coisas estão a andar bem com os putos.
Mas, não estão; o que estão é a piorar e a perder de vista os fundamentos mais preciosos e que tem a ver com a execução técnica, a noção táctica e a visão de jogo com e sem bola, como convém a todo o “estudante” a crescer calçado de chuteiras.
Claro, agora ganhou-se mais esperança na escola, do que no futebol em si mesmo, ao julgar-se que a melhoria dos nossos desempenhos desportivos passam pela iniciação na escola, só não sei com que “professores desportivos” o hão-de fazer.
Processos e procedimentos não devem saltar etapas; nem carroças saltarem os bois. Sem um centro formados de quadros aptos, não haverá nem desporto escolar, nem futebol de jeito. Ou qualquer outro desporto que se preze.
Sem o pressuposto da rede de monitores de futebol preparados para motivar e liderar crianças e adolescentes, teremos sempre esta ilusão de quem vamos chegar longe, mal conseguindo sair da nossa própria cova; não porque estejamos mortos, mas porque fomos nós próprios quem cavou o buraco em que se encontra o desporto nacional. E é falso se disserem que o problema é a falta de recursos, excepto se for recursos humanos, pois, é disso mesmo que estou a falar e de que o MINJUD se tem de ocupar.
Se você habituar o pedinte a receber sempre dinheiro, ele jamais há-de se dar ao trabalho, ou querer trabalhar.
Eu gostaria ainda que a FAF pudesse ser recta e punir em 2019 todo o clube que não fizer desporto jovem a sério, pois, se o fizer, vamos poder ver o “Provincial” deles, ao invés de continuarmos com campeonatos nacionais de 8 a 12 equipas, metade das quais da capital.
Já é tempo de deixarmos de nos andar a enganar a nós mesmos, de resto, uma prática que parece morar em cada vez mais corações que mal se habituaram a isso em tempos julgados por mim como sendo dos mais nocivos e amorais da história da sociedade da pátria angolana.
Ora, a deixar isso arrastar-se assim, é óbvio que Angola não poderia estar hoje na Rússia, nem parece que venha a estar em 2022 no Qatar, mesmo com abertura a 48 equipas, enquanto em Angola persistir uma maior preocupação com o futebol de diversão, do que com o futebol espectáculo, e se alguém perguntar por quê, responderei que só se torna espectáculo aquilo que tiver qualidade.
Se o MINJUD insistir com a ideia de manter o estado actual do “circo da bola”, que o faça desde que dê formação aos “domadores do circo”, para estes por sua vez poderem ensinar aos nossos garotos o ABC, técnica e prática do futebol como deve ser.
Em condições normais, o país precisa de pelo menos um treinador jovem com certificado, por clube, e no mínimo três a quatro formadores por província – com a excepção de que em Luanda e Benguela se precisaria de pelo menos o dobro – perfazendo um total de 33 treinadores de futebol jovem, e não de antigos atletas mandados para ensinar crianças.
Sobretudo para um ministério que não nos revela o seu projecto, patrocinar umas bolsas já seria um acto de responsabilidade social e, até, patronal.
Perguntava um colega meu porque falo tanto no MINJUD e eu respondi-lhe que era para respeitar as hierarquias..., no sucesso e no fracasso. E para que o desporto não se torne uma farsa.
A selecção que se segue, vem aí.
Depois de um torneio da COSAFA que deixou a muitos indignados pelo balanço (3 jogos, 3 pontos, mas não também 3 golos...), convém fazer sobre o assunto um pouco mais de luz. Acredito que o seleccionador Srdjan esteja hoje numa rádio a explicar o que se passa e desejo que ele fale sem rodeios, pois, pachos de água quente só nos ajudam a enfraquecer mais.
O combinado de quase veteranos e aspirantes que se juntou levara a missão de ensaiar e observar novos altetas com o objectivo de os melhores serem os primeiros a cimentar posições na selecção. O técnico não levara ao CHAN alguns chamados “internacionais” que o clube impedira, não tendo sido muito diferente o panorama encontrado às portas da “Cosafa”, pelo que fez algo que eu faria no lugar dele, quem sabe fossem melhores que os “indispensados” de sempre.
Mas, daí a chamar àquilo a selecção de Angola, os “Palancas Negras”, ainda vai uma distância considerável. Porém, não estão a parecer novos jogadores grande coisa, nem eles trazem a Primavera ao futebol.
Eu só saberei dentro de dias o diagnóstico feito pelo técnico ao saldo da participação na ‘Cosafa’, mas, sei que ele vai repetir a mesma pergunta de há meses: por quê Angola não tem “9”?
Realmente, o futebol angolano tem um ADN perdido e reflecte na actualidade uma inferioridade técnica que infelizmente nos recorda as palavras de Mourinho acerca do futebol com dez atrás da linha de bola, ou seja, um empata-futebol que é preciso desmamar e substituir urgentemente por um futebol mais futebol.
Se a formação for dada mais cedo e melhor, não teremos por que duvidar de que possam – e devem decerto – reaparecer os nossos “9” ou ponta-de-lança. Nessa altura Mourinho certamente vai contar menos que 10 atrás da linha de bola, esperando que ele possa igualmente contabilizar safras dos angolanos que rendam mais do que um golo em 3 jogos.
E assim a brincar-se aos futebóis no nosso país, temos hoje os “Palancas Negras” em reconstrução e à espera de jogadores com no mínimo 8 anos de academia. Até me faz recordar um insólito, quando foi pedido a um ex-governador que se relvasse um terreno – e só Joanesburgo tem 2.500 desses campos abertos relvados - porém o mesmo dirigente teve uma ideia, já não sei se genial, se descabida; é que ele foi do entendimento de que em vez de se gastar dinheiro a arrelvar, se mandasse cimentar e pintar de verde.
Arlindo Macedo

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