Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

E se santos de casa fizerem milagres!

04 de Outubro, 2017
É comum dizer-se que o hábito faz o monge, ou também em casa de ferreiro, espeto de pau. Assim, será que uma antiga desportista poderá perfazer hoje a ministra, e que a mesma logre como nunca antes, a fusão da juventude e desporto?

Tais são as interrogações mais razoáveis de todas as que já ouvi e li, até, em redes sociais. Outras há, de índole mais soez e menos cavalheiresca, sem consentimento da igualdade no género, na dúvida da comparação com a mulher para as necessidades de luta e de canhão, porém, saibam que em Angola também temos as padeiras de Aljubarrota e Marias da Fonte.

Elas crescem cada vez mais na nossa população e em números que até traduzem a política cada vez mais conjugada no feminino. E este é o caso da juventude e do desporto em Angola, que é um canteiro do MINJUD e tem agora à testa uma mulher.

Mas não me fico por aqui quanto a denúncias derrogativas das chances da novel ministra; e não me vejo como um delator se contar que não são poucos os que reagiram com interrogação acerca do poder de fogo e capacidade de luta desta nova escolha do MPLA para a juventude e desporto de Angola: - ali por onde já passou, interrogam-se muitos, o que já fez a ministra quando foi secretária de estado? Mas, convenhamos, tal é uma velha questão da nossa idiossincrasia.

Nunca na história dos nossos dias e aqui concretamente no nosso país, foi bem visto o adjunto pensar e agir de ‘per si’ (latim, per se) em seguimento estritamente do seu rol de atribuições, sem o mesmo se arriscar a ser julgado em fora-de-mão e acelerado.

Ora, nada é pior no percurso do serviço público, do que se deixar soterrar na intriga palaciana, como se diz. Porque a solidez dos alicerces sai sempre abalada do efeito ciclónico do ‘diz-que-disse’ e em que acabam muitos casamentos de pastas ministeriais. E se não houver fumo sem fogo, transbordou para fora do MINJUD que ali já se viveu o ‘reality show’ da caça às bruxas. E oxalá não haja uma próxima edição.

Então, o que esperar de Ana Paula do Sacramento Neto? E á agora, o que dela se espera.

De um lado, a Ministra tem a seu favor o facto de conhecer a velha agenda do MINJUD, podendo introduzir nela melhorias e correcções ao que mal estiver. E até aí estará a seguir a máxima da nova presidência de Angola, que é precisamente ‘corrigir o que estiver mal e melhorar o que estiver bem’. Mas, para essa melhora, a titular vai precisar de muitos mais, e até, melhores quadros, do que os que já tem o MINJUD.

Por outras palavras, as pessoas do ministério estão muitas no limite das suas energias e inspirações, após 30 anos de serviço ou mais.
Eles podem ter um plano de reforma, porém, não se conhece no MINJUD o plano de reforço do quadro. Depois podem vir os trocadilhos do género ‘fazer-se a renovação na continuidade’ ou, ainda, ‘fazer-se a mudança na continuidade’. Em qualquer dos casos, vai ser precisa mais do que uma frase balofa dessas, para mover as rodas.

Coincidentemente há no MINJUD tanto o problema de mudança na continuidade, como o de rejuvenescer o esforço de mudança. Mudar em andamento representa menos um desafio do que mudar o andamento, e neste caso acelerar.

A busca célere para o provimento de cada vez mais recursos humanos e técnicos é daqueles pressupostos sem o qual ficará comprometido o desiderato da emanada directiva presidencial de se eleger como safra principal a do desporto escolar. Não é propriamente a solução que venha calçar por igual ambos os pés do desporto, mas já é bom dar uma sapatilha ao desporto para o mesmo se poder fazer na escola.

Porém, o início do uso da sapatilha deve ser, sim, para o ensino da educação física, uma especialidade que anda pobre de professores; e completar o clico do ensino da ginástica, com o da iniciação no desporto. Mas, o simples facto de se ter os putos a correr atrás da bola nos recreios, não deixa de dispensar a orientação de monitores preparados, inclusive em pedagogia.

A par deste imbróglio, a Ministra deve ter outros por resolver, sendo o das infra-estruturas, um dos prioritários. Do mesmo jeito que o desporto escolar vai requerer um levantamento prévio, também as infra-estruturas precisam de ser inventariadas, afim de saber o que ainda resta do património público, e o que foi de que se apoderaram indivíduos ou grupos de indivíduos mancomunados em dar outro destino e aproveitamento a partes do canteiro desportivo nacional, como é ultimamente o caso do vasto e luxuoso complexo começado a erguer na periferia de Benguela, para jogos da nossa comunidade de países, que acabaram por não ser ali.

Mas significará isso que aquilo deva ficar inacabado e depois indisponível? Além disso, a alienação de complexos desportivos, ou apenas de recintos para tal, representará sempre um empobrecimento para o desporto, a contrastar com o ganho de um activo pelos contemplados de tamanho ganho patrimonial privado usurpado positivamente ao bem público e comum.

Já basta para exemplo de coisas mal paradas, o facto de o desporto nacional não saber em rigor o montante que atinge o fundo para o desenvolvimento do desporto, nem a sua aplicação real. E, a exemplo dessa, são várias as outras receitas que o desporto não tem efectivamente, porque é desconhecido o tratamento das mesmas. No entanto, esse caso também pode mudar de figura, se além da continua denúncia, houver a vontade política de se governar com letra no juramento feito.

Eu acredito na antítese e espero bem que o facto de a Ministra da Juventude e Desporto ser, desta feita, mulher, mãe e irmã, há-de poder fazer dela uma apostadora na harmonia, mais do que outra fomentadora de divisões no seio da instituição; seria uma grosseira mentira não admitir que o desporto e a juventude vivem crises, tal como a sua estrutura dirigente.

Nada mais era preciso para experimentar a antiga internacional ponta-esquerda do Petro e da selecção de andebol, Paula, como era conhecida e tratada. E agora ela tem tudo para lograr cometer um acto histórico.

O país, a sua juventude e desporto já precisam de decisões históricas, e parte delas ficam a depender da iniciativa do MINJUD. Se por um lado, é um facto que a juventude angolana quer mais desporto, pois são cada vez mais irrisórios os números de praticantes de ambos os sexos e de jovens atletas federados, por outro lado, a juventude cresce a um ritmo galopante e de pouco lhe vale ter um ‘instituto’ burocratizado e pesado, incapaz de reverter o quadro do desemprego que grassa entre os jovens.

A nossa juventude desconhece quase por completo o estudo de oficinas, desde a serralharia ao corte e costura; a educação moral e patriótica não é a única que é precisa no ensino regular no nosso país. A faixa de emprego nas artes e ofícios é diminuta, mais por falta de arte, que de obras; e o MINJUD pode ter um programa para capacitar jovens para o Mercado de trabalho, lá está, incluindo o próprio desporto.

E para tal, há sempre a possibilidade de explorar-se protocolos entre instituições. Se o MINJUD tiver que se entender – e tem mesmo – com o Ministério da Educação, felizmente nas mãos de outra mulher tenaz, é óbvio que o MINJUD poderá também explorar com outra guerreira, a Ministra da Indústria, como poderão três mulheres mudar em um ciclo de quarto anos, o panorama do fomento do ensino professional de base em Angola.

Além do ensino técnico-profissional, o ministerrio pode impulsionar a formação de monitores desportivos para a descomunal obra do desporto em Angola, tanto maior quantos mais anos vão passando sem acrescentar nada, antes pelo contrário, anos de sucessos perdas cumulativamente já grandes. E cada jovem com paixão pelo desporto poderia, sem depender do INEF, ter um ‘atelier’ onde aprender a server o desporto. E um dia poder estudar mais para se tornar em um novo treinador.

As políticas para a juventude têm sido amontoadas sem se passar em concreto, das casas da juventude, a algo mais em prol dos jovens de todo o país, pois, uma coisa é o quadro dito razoável nas grandes cidades e em particular do litoral, porém, outra realidade será a do interior do país e ainda o meio rural, onde o desporto também deve existir e florir, apesar de essa juventude ter crescido e aprendido a brincar sem brinquedos.

Ali vai ser preciso fazer chegar ao mesmo tempo as bolas e os enquadradores. Sem técnicos para ensinar a jogar à bola com as mãos e os pés, nem sequer seria justo chamar-se-lhe recreação física, pois, o escopo da ideia do desporto para todos não é apenas o da recreação, mas o da apredizagem correcta do desporto. As nossas selecções nacionais não devem continuar a ser apenas feitas na capital, pois além de isso não traduzir a real força desportiva, é um atentado ao sentimento nacional, consabido que edificar a nação tem sido a maior das nossas dificuldades como país.

E este vai ser o verdadeiro desafio da ministra, a juventude. E por colagem, o desporto.

Se aproveitar a juventude para refazer a base desportiva deste país, a Ministra saberá certamente da importância e força que carregam os emblemas desportivos na nossa sociedade –de resto acontece e cada vez mais em todo o mundo – mas não será por a globalização nos trazer empatia e dividir uns em Real Madrid, outros em Barcelona, ou Manchester, ou ainda em Benfica e o resto, que se deva deixar por terra um fenómeno social que é vital saber-se capitalizar.

O clubismo importa e tem morrido; de resto, o balanço das receitas em quotas fala por si e nada tem a vez com baixa renda da população, mas sim, falta de cultura social e de bairrismo. Por esta razão, sobressai da provável agenda da novel ministra, a necessidade de se reajustar à nossa realidade de facto, os excessos da lei que regula o nascimento de clubes se os mesmos não forem para ser ‘coisas em grande’.

O desporto anda cada vez mais empobrecido também financeiramente e o horizonte mostra-nos cada vez mais emblemas cambaleantes e em risco de tombar, e sem saberem quando se voltarão a pôr de pé. Ora, como dona-de-casa, sempre uma mulher bem formada sabe como fazer na cozinha para alimentar todos. E para ser justa em relação aos que comem demais, grite quem gritar, pois mulher que se preze deve saber gritar baixo com o marido. E esta é uma metáfora para um sector masculinizado, como o do desporto.

Mas, não seria nada que um fórum do desporto federado não resolvesse, caso as federações e clubes discutissem em conjunto uma estratégia para definir a prazo, os destinos desportivos do país em termos de objectivos correntes e objectivos a prazo. E especializar-se o nosso parquet desportivo, onde é torpe deixar morrer o voleibol, ou é contra-producente não se apoiar as lutas tradicionais, ao invés de vivermos iludidos que temos desportos de combate e colectivos fortes para acreditar em amanhã.

É que os desportos vivem de praticantes e quando estes escassearem, algo há por se ler nas entrelinhas. Há actualmente demasiadas modalidades sem eira nem beira, e a precisar de um ‘ultimatum’ financeiro. É errado persistir em querer dar uma ideia de ecléticos, que já não somos.

O braço da juventude no MINJUD deve considerar também dar a si mesmo a oportunidade de reinstalar no seio familiar a discussão do desporto feito no feminino, pois, as raparigas ainda permanecem demasiado afastadas do exercício físico e do desporto, o que é mau para futuras mães, em si produtoras de novas vidas que trazem marcado em si um ADN familiar; e já basta quando o marido for mais chegado ao exercício somente de levar a caneca à boca. Afinal, tudo está correlacionado e planear uma juventude saudável e com desempenho satisfatório, inclui tal mudança de hábitos.

Agora vou sentar-me e esperar para ver como as pedras se hão-de começar a movimentar no xadrez das muitas incongruências com que temos que acabar, sendo o sector da juventude e desporto, daqueles que mais anda com elas.

Afinal, 100 dias não custam a passar a ver. E a julgar. Enquanto outros se esforçam, ou não, por corrigir o que está mal e melhorar o que já estiver bem.
ARLINDO MACEDO

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