Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Ei-lo, senhor campeonato!...

14 de Junho, 2018

Por entre expectativa de milhões de habitantes do espaço terrestre, registados e identificados como membros da tribo do futebol, eis aí o Campeonato do Mundo. Com ele chegou a folia, capaz de nos tornar, nos próximos dias, em verdadeiros reféns, do espectáculo que promete proporcionar. Para o nosso caso particular, prevêem-se dias de temperaturas altas, susceptíveis de abafar o cacimbo que vivemos.
A partir de hoje é para a milenar Rússia, terra de citas e eslavos, que se move o mundo. Durante longos e infernais 31 dias, é do futebol que se vai tratar, ainda que de permeio esteja a política, infestada com a guerra sagrenta na Síria e pelos devaneios de Donald Trump e Kim Jong-Un. Nos cafés, nos transportes públicos, nas escolas, nos locais de trabalho vai-se cantar o hino da bola. O futebol tem esta força, este poder, esta magia, não sendo sem razão que se transformou nos dias presentes numa \"linguagem universal\".
Mesmo sem as cores da nossa bandeira representadas no evento, na mesma está Angola sensibilizada para viver a festa dentro dos seus limites. Países lusófonos, com os quais mantemos fortes laços históricos, e africanos que representam o continente, podem vir a ser o foco, ainda que existam entre nós aqueles que vestem, há muito, camisolas de selecções europeias e sul americanas. São outros quinhentos. O futebol é liberal e permite.
Por isso, abramos os braços para desejar boas-vindas ao senhor campeonato, ao espectáculo, à consagração de novos ídolos. Enfim, à festa, que pôs engalanadas onze cidades do país da antiga potência do Bloco do Leste, numa manifestação desportiva jamais vista, sendo que os Jogos Olímpicos de 1980, apesar da sua grandeza expressiva, tiveram apenas como sede a cidade de Moscovo. O caso não é comparável.
Competitivamente, espera-se tudo mais alguma coisa na prova.Mas, em primeira instância, o campeão, que pode, eventualmente, não ser novo. Mas o mesmo de 2014, caso a Alemanha consiga fazer valer o seu estatuto e superar a concorrência de outros pretendentes, também eles, sedentos e ansiosos. A refrega, para já, não será pouca, bastando, para tanto, olhar ao leque de selecções que aportaram à Rússia rotuladas como candidatas.
Alemanha e Argentina, finalistas da edição passada, poderão travar uma luta à parte, sem esquecermos o Brasil. Os canarinhos, agora às ordens de Tite, registaram nos últimos tempos uma forte evolução do seu jogo, e podem estar a pensar na possibilidade de saldar as contas, depois dos humilhantes 7-1, diante dos alemães, em 2014, no seu próprio reduto. Mas Low e pupilos não são gente de abrir a mão a desafios. Daí, talvez, o que interessa seja saber que são ambos fortes candidatos.
Seguem-se outros, como Espanha, França e Bélgica. Portugal, que chega à competição nas vestes de campeão europeu, não deve ser colocado fora das estatísticas. Aliás, Fernando Santos, qual profeta, que no Euro’ 2016 disse que não deixaria Paris antes da final, já afirmou, à chegada a Moscovo, que a sua equipa está cheia de fé e de confiança. Se calhar, é bom tomar nota disto.
De resto, estamos a falar de uma fase final, onde não se chega de mãos beijadas, mas com resultados que reflictam um trabalho consequente e metódico, levado a cabo por equipas que comungam o mesmo propósito. Equipas com espírito ganhador, logo capazes de ter fortes argumentos a apresentar na prova, em vez de se renderem, vulneravelmente, ao poderio de adversários mais dotados e cotados.
Favoritos existem, e não há como negar isto. Mas, convenhamos, favoritismo como tal não ganha jogos, sendo a partir deste pressuposto que devemos escrever que, aqueles que aspiram posições mais honrosas no campeonato não é com \"dá cá esta palha\" que poderão lográ-las. Terão que mostrar nas quatro linhas que são capazes e superiores.
A par da disputa entre selecções, espera-se igualmente pelo brilho individual das estrelas. Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Mo Salah, Griezmann, Neymar, Suarez e outros, que não cabem aqui, vão, na certa, protagonizar um espectáculo à parte, não se descurando a aparição de novos astros, sendo uma dialéctica da vida o processo de sucessão, entre aqueles que chegam ao fim de carreira e outros que entram para a ribalta.
O mundial é, indubitavelmente, a maior montra de futebol à escala planetária, onde os melhores não escapam ao crivo de olheiros, presentes na prova com propósito específico de fisgar o que de bom esteja exposto, a favor de emblemas para os quais trabalham. Por tudo isso, com o campeonato, que hoje começa, abre-se também uma soberana oportunidade para cada jogador presente, sendo o resto uma questão de mostrar as suas aptidões.
Com emoções moderadas e espírito de fair-play, vivamos o campeonato mundial de futebol, o ópio do povo, na esperança de que corra tudo à contento, sem quaisquer tumultos, que, nos últimos tempos, têm deixado o mundo meio estarrecido. Futebol é festa. Nele, apesar da tristeza e alegria, determinadas pelos resultados, andarem de mãos dadas, só cabem sorrisos e abraços. Viva, pois, o futebol e venha até nós, senhor campeonato!...

Matias Adriano

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