Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Eleies, mas que futuro para o desporto?

23 de Agosto, 2017
Hoje está-se a votar no futuro. E deste modo iremos para novo ciclo desportivo em Angola? Mais importante do que quem irá governar o desporto a seguir, será vir-se definir sem ambiguidade para onde se quer levar o desporto e a educação física e a cultura física de recreação em Angola.Um país que não lutar para ter educação física, ginástica e atletismo, não será um país com cultura física, nem terá uma população com bons hábitos físicos; o desporto que temos já virou utopia, então precisamos de livrar-nos dela. Porém, tal só será possível se a teta do governo que dá mama ao desporto actualmente, deixar de ser a teta que dá leite à toa, tanto mesmo, que até a própria vaca mama.

Então o que é, e o que vale hoje esse desporto para nós, angolanos?! Para onde e até quando iremos com ele?Como sempre, o meu julgamento provém de um privilégio ao ter vivido todas as mutações do nosso desporto. Tudo havia começado no dia em que se fizera luz para os desportos em Angola, ao ser dada a orientação em 1979 para se criarem as federações desportivas do país e sediar as mesmas nas respectivas casas-mãe, na sua maioria residentes na Suíça.

E em pouco tempo Angola dava sinais de uma vontade inquebrantável no desporto. De uma assentado organizaria logo em 1980, o primeiro Afrobasket Júnior e ganhava esse troféu, tendo já no ano seguinte, 1981, organizado para 12 países e em 8 modalidades, o seu primeiro evento regional.

“ A realização destes jogos em Angola não acontece por acaso, nem é fachada vistosa que utilizamos para esconder as debilidades dum desporto sem princípios, sem organização e sem praticantes. E nem persegue sequer outros objectivos do que aqueles e bem generosos; eles são os que norteiam as relações desportivas internacionais, particularmente entre os Países do nosso continente”. E foi com estas palavras que Rui Alberto Vieira Dias Mingas, ao tempo Secretário de Estado de Educação Física e Desportos da então Republica Popular de Angola, discursou a 20 de Agosto de 1981, na abertura dos 2ºs Jogos da África Central.

Era realmente uma época de tecnificação, no desporto. Mesmo se Rui Mingas, que era director do desporto escolar no Ministério da Educação, já não mais partilhava da ideia de o desporto escolar ser parte integrante da educação física e desportos, ideia que o então director havia defendido antes, a verdade é que a tecnificação e exploração das ‘linhas de crédito’ de países ‘Amigos’, tais como Alemanha Oriental, Bulgária, Cuba, Jugoslávia, Roménia e União Soviética.

A par de uma forte estruturação e especialização em curso na secretaria de Estado, graças a muito reconhecidamente competentes quadros que haviam sido aderentes da independência nacional de Angola e que souberam dar um papel restruturante e também de formador à estrutura pré-existente do sistema desportivo do território, adjacente ao qual havia um bom instituto de formação na educação física e introdução aos desportos, que era o INEF, em Luanda.

Ora, assim dotados, era preciso haver sinergias para as coisas arrancarem. Um fruto e alento proveio do sector das forças armadas e paramilitares, depois que o clube dos petróleos, aproveitado de um Atlético mais tradicional, porém adormecido, acabou por ficar à mãe de semear, tendo o então co-fundador da Sonangol, Hermínio Escórcio, baptizado o clube Atlético Petróleos de Luanda. E os militares não mais quiseram ficar-lhe atrás.

Com pressupostos tão efervescentes como esse, para além do exaltante temperamento ferrenho de um pequeno grupo de generais que haviam trocado a bola por uma arma, em que se destacara inicialmente Ndalu, Orlog ou Toka, para citar alguns dos generais que promoveram o desporto, fundaram o desporto militar e apoiaram a integração e carreira desportiva, até de técnicos, a muitos, muitos jovens.

A partir de então, se os técnicos de andebol e basquetebol se destacaram na formação de primeiros treinadores com carteira, o futebol e os desportos de combate acabaram por primeiro absorver as ajudas do ‘internacionalismo proletário’, e assim foi que o futebol angolano começou a ser tratado por jugoslavos, enquanto no boxe se destacava a ajuda cubana. O atletismo era, então, o mais desamparado de todos esses desportos, apesar de ser dirigido por devotos angolanos, que haviam feito a luta clandestina, mas ainda assim entendiam da modalidade.

Como os métodos aplicados eram correctos, os desportistas começaram a crescer, e também a multiplicar-se. Apenas e em relação ao futebol, percebia-se um atraso nos métodos, derivado do empobrecimento dos recursos humanos da modalidade, com técnicos de idade avançada e uma nova vaga de treinadores, a maioria deles antigos atletas, mas nem todos preparados para ser bem sucedidos como técnicos.

Já nessa altura era obsessiva a ideia de treinar os seniores, de viver para o ‘Girabola’, enquanto a federação optava por seleccionadores estrangeiros, e aos poucos até os antigos clubes eram recorrentes a treinadores estrangeiros. Um caso sério, este do futebol angolano, sem estudantes bem sucedidos. E com cada vez menos bolsas para estudar fora, ou se irem actualizar os técnicos.

A psicose em relação aos seniores e ao ‘Girabola’ também veio comprometer o esforço por se desenvolver o futebol de formação, porque o défice acentuado dos recursos humanos da modalidade tem que incluir os especialistas em iniciar crianças e adolescentes. Hoje faltam treinadores certificados, tanto para seniores, como para infantis, donde se percebe o crítico estado do chamado desporto-rei.

Ainda assim, nenhum solavanco abalou tanto a esfera desportiva como a imposição da nova geração, uns licenciados sem prática, outros antigos craques presumidos bons gestores desportivos também, em meio a um silenciar pouco inteligente dos antigos dirigentes, tendo a juventude cortado o cordão umbilical ao conhecimento e experiência acumulados pelos seus criadores. Juntando a essa irreverência a sua apetência por uma gestão de risco dos meios financeiros postos à disposição das federações, e até de clubes, eis que, presentemente, o desporto angolano vive a sua maior seca de sempre.

Sem bairrismo e sem sócios pagantes, os clubes têm passado mal. Tirando aqueles sobreviventes do saneamento económico e financeiro, que fazem como o meu patrão quando desconta a quota do grupo desportivo directamente do salário do sócio forçado, também há os clubes que vivem orçamentados na respectiva casa-mãe, por exemplo Interclube, Petro Atlético ou Primeiro de Agosto.

Hoje é uma tristeza ver a maioria dos outros clubes, de cócoras à espera da lei do mecenato e sem arrancar um pé do chão para entrar pelo bairro adentro e caçar simpatizantes e apoiantes, ou seja enraizar-se, semear o clube no seio da comunidade e edificar uma existência mais auto-sustentável. Mas parece que ninguém tem ainda essa percepção. Ou interesse.

Sem marketing adaptado nem imaginação, menos ainda tempo para copiar exemplos de rentabilidade, os clubes continuam mais institucionais do que da comunidade e do bairro, o que não implicaria em ser clubes pequenos; na modernidade há clubes monodesportivos, por exemplo de futebol, ou de rugby, ou ainda de futsal, que são grandes na respectiva localidade e que costumam gerar recursos, através de uma feira ou quermesse, que nem os nossos pensam e fazem, talvez porque dê trabalho, mas também daria receitas.

Toda a comunidade aprecia diversão, farra e comes e bebes, mas até em dias de jogos em casa, custa ver o que esses clubes indolentes fazem por render, que seja, o salário do guarda. E mal sabem que se fosse boa a sua implantação popular, ajudaria em cada clube se cada adepto seu deixasse de beber uma cerveja por semana e doasse esse valor ao clube; sucede que os clubes caíram em descrédito no dia em que começaram a tratar por tu as finanças e a dar ralhetes à sua contabilidade.

Hoje nenhum clube aceita ser auditado, poucos prestam contas, sequer, e muitos trabalham com números errados.No meio desta farsa crescente do desporto em Angola, uma coisa é certa: de todos os recursos de um país, só os humanos requerem a preservação do seu valor, pois apenas os seres humanos perdem valor, seja por morte, auto-destruição, ou ociosidade, e este tem sido a doença de trabalho mais comum à maioria dos casos do desporto que caíram no descaso, como seja o exemplo de milhares de potenciais de treinadores por este país for a, sem contar com os finalistas do INEF, formados sem a mesma escola valiosa de outra, e jovens votados de início ao desemprego.

Assim reduzidos a cada vez menos actores desportivos, embora se queira fazer crer haver crescimento desportivo, estamos hoje remetidos a uma época, ainda assim de saneamento económico e financeiro do nosso desporto, porém, forçados a fazer um caso sério do desporto, ou fazer-se novamente do desporto, um caso sério. O primeiro, corrompido e viciado, é como um cancro que se está a alimentar contra a nossa própria esperança de vida desportiva, enquanto o segundo é o que nos falta de novo.

O desporto de militância active foi o que perdemos, mas que precisamos de resgatar e empreender de novo. Boas são as notícias dos esforços redobrados da Solidariedade Olímpica em Angola, por via do comité nacional olímpico, COA, quem sempre fez mais pela formação desportiva em Angola. E parece estar a estender de novo a sua mão benfeitora.

Depois que no atletismo, após o futebol, o voleibol, ou o hóquei em patins, mas também os desportos de combate, o ciclismo, por exemplo, perderam a vivacidade do seu viveiro técnico, esses desportos pararam de evoluir localmente e sem isso, comprometem a sua sobrevivência.A par disso e talvez por um empobrecimento cultural do desporto entre a juventude que cresce futebolizada apenas, fruto da falta do desporto escolar que dá mais opções aos miúdos, pois essas seriam competentemente orientadas e dadas através da escolar, eis que as rachas no tecido desportivo se acentuam mais e periclitantemente colocam o futebol numa situação de um treinador para, se calhar, cem atletas; ou pior, ainda, se falássemos de atletismo, ou de voleibol.

Não são cifras exactas, nem andam longe da realidade. O empobrecimento dos recursos humanos do desporto é hoje a principal causa do retrocesso. E portanto Angola não preservou as sementes deixadas na cultura desportiva pelos agentes do ‘internacionalismo proletário’. Mas este, em cuba por exemplo, continua com a sua dita penúria económica, a criar riqueza humana, tendo mostrado em sucessivas ocasiões os seus promissores juniores, já não só em atletismo, boxe ou voleibol, mas também em basquetebol e futebol.

Em condições normais, seriam os dirigentes das federações, associações e agremiações desportivas, os primeiros a dar o grito do alarme, mas não se ouve. Nem já sequer das associações de treinadores. Parece tudo bem do lado deles, então, pergunto, donde tem vazado a força desportiva das modalidades na actualidade? Estão a crescer, ou a minguar a cada dia?
Arlindo Macedo

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