Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Equipas do Girabola afinam as mquinas

05 de Fevereiro, 2018
Com o calendário do Girabola 2018 reajustado para 6 meses (Fevereiro a Agosto), para conformá-lo com as recomendações da CAF, as 16 equipas que vão disputar o campeonato do futebol nacional começaram já a acertar as últimas agulhas, ou seja, a afinar as suas máquinas para a esforçada empreitada que lhes espera, passando a fazer num semestre, aquilo que faziam em cerca de um ano.
Na verdade, quem não se adaptar à nova realidade futebolística ficará pelo caminho, dado que os escolhos que terão que vencer são muitos para as equipas concorrentes , sobretudo as mais fracas, onde avultam a falta de recursos, sobretudo financeiros, cujo caso extremo é o da equipa de Cabinda, que para além da falta de dinheiro, como ocorre com outras equipas menos coutadas do nosso “desporto rei”, padece do fatalismo geográfico da descontinuidade territorial com o resto do país, tendo que fazer 15 jogos fora de casa, com recurso a meios aéreos (ou no extremo dos limites de barco, não podendo fazê-lo por via rodoviária), o que fica efectivamente mais caro.
Tal circunstância acresce à crise que sobre si se abate, fazendo apelo ao empresariado local para o devido apoio à sua participação na presente temporada; participação que não se esgota, como as demais equipas, nos gastos com os transportes aéreos, embora estas poderão fazer apelo à estrada para disputar determinados jogos em províncias mais próximas, ainda que seja para poupar alguns trocados. (Ou, “mutatis mutandis”, a recíproca seja verdadeira, pois as demais concorrentes deverão ir a Cabinda disputar 15 jogos?….)
Mas, a crise não atinge só de forma grave a equipa cabindense, mas também a popular equipa do Progresso do Sambizanga, cuja direcção efectuou já cortes orçamentais e reduziu pessoal, e o 1º de Maio, que já foi uma das equipas mais fortes do país, vencendo campeonatos nacionais de futebol em várias edições no princípio dos anos 80. Foi assim que forneceu os jogadores que constituíam a base da selecção nacional à época: 7 jogadores, onde se destacavam Maluca, Sarmento, Ndisso e Vicy. Por essa altura, a “equipa dos trabalhadores”, conforme era também conhecida, vivia do apoio da África Textil.
Infeliz e desafortunadamente, Benguela que já teve três equipas no Girabola, - o maior número depois de Luanda e seguida do Huambo e Huíla, com duas equipas cada (Mambrôa e Recreativo da Cáala, e Chela e Ferroviário, respectivamente), a saber: Nacional de Benguela, Académica do Lobito, vê-se a braços para manter a sua única equipa no Girabola. É motivo para se dizer, neste aspecto, oh tempo volta p´ra trás!...
Entretanto, Bento Kangamba já deixou escapar que “quem não tem dinheiro não joga”. A desistência do Bravo do Maquis há coisa de dois anos foi um sério aviso à navegação, dado que deixou de contar com o apoio do seu principal patrocinador, a Caixa de Segurança Social das FAA. Nestes termos, não tardará que hajam desistências durante o campeonato, não só por falta de capacidade financeira, como de arcaboiço físico para suportar esta autêntica super-maratona de longos e penosos seis meses. Este factor de não menos relevância deverá pesar na capacidade de resistência das equipas, pois será um esforço físico redobrado e que supera de longe o dispendido nas edições passadas, traduzido na disputa das partidas ao meio e ao fim de semana. Para já uma saída se nos afigura razoável: as equipas serão obrigadas a usar os demais jogadores da suas duas dezenas e meia que constituem os seus planteis, poupando os titulares para as partidas mais renhidas.
Tal circunstância permitirá tornar o campeonato mais equilibrado, por um lado, e, por outro, o surgimento de novos nomes, que normalmente ficam no banco dos suplentes sem jogar, ou nem sequer chegam a ser alinhados nunca durante a temporada toda, retirando-os deste modo da ociosidade em que ficam mergulhados, acrescidos dos sentimentos de angústia e os complexos de frustração atinentes. Tal cenário aqui aduzido serve pelo menos para justificar os salários que ganham e o pão que comem, concorrendo a montante para um maior rendimento para si, em virtude dos prémios de jogos, e um melhor provimento das suas famílias…
Outro tanto haverá a dizer em relação à preparação para o jogo jogado propriamente dito. É interessante notar que, prova de que esta temporada deverá ser disputadíssima é, por exemplo o empate arrancado pelo Domant do Bengo ao Petro nos últimos dias nos Coqueiros, apesar de alguns dos craques petrolíferos terem estado a evoluir na selecção no CHAN, em Marrocos.
Haja em vista assinalar que, com o presente modelo semestral adoptado, forçosamente, pela FAF na disputa da Girabola, estarão mais uma vez destapadas as assimetrias regionais que influenciam pela negativa o a disputa do futebol no mais alto escalão nacional, dado que as equipas mais fracas, o grosso das quais do interior profundo, correm um sério risco de extinção, para não falar daquelas províncias que nem sequer têm representantes e cujas equipas há muito foram eliminadas do Girabola, por falta não só de competitividade para tanto nos seus locais de origem, como de infra-estruturas desportivas que suportassem tal intento de inscreverem os seus potenciais talentos na mais alta roda do futebol nacional.
Basta ver que não se contam pelos dados de uma mão as equipas provinciais que têm uma palavra a dizer no Girabola no final de cada época. As honrosas excepções vão para o Libolo e, no extremo dos limites, para o Sagrada Esperança...
Portanto, já lá vai o tempo que o Girabola contava com o concurso de equipas de Malange (Kambondo), da Lunda Sul (Sassamba), Uíge (Construtores), do Namibe (Santa Rita). Decididamente, um investimento local mais intenso a nível do futebol e das demais modalidades desportivas nas distintas províncias do país pode mudar a geografia do nosso futebol, a bem da coesão e unidade nacionais, bem como concorrer para a integração dos jovens, muitos dos quais perdidos no sub- mundo do desemprego, da marginalidade, do alcoolismo, da prostituição e mesmo da criminalidade, de um modo geral, tanto na capital como no resto do país.
NORBERTO COSTA

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