Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por SILVA CACUTI, EM COPENHAGA

Esprito de Girabola

22 de Julho, 2019
Há três ou quatro anos, já não sou bom em lembranças, que não consigo fazer uma cobertura aos campeonatos nacionais de andebol. Algumas vezes porque a sua realização coincide com período de férias, circunstâncias de índole pessoal ou agenda de trabalho, que me impedem de o fazer.
Neste ano, não foi diferente!
Estava expectante. Queria conhecer o trabalho que o Alex Fernandes desenvolve no Namibe. Para os do Namibe, os campeonatos foram como uma feira, onde exibiram o seu potencial. Felicito as pessoas que estão à frente do projecto do andebol no Atlético do Namibe. Por esta via, o Namibe voltou às provas de seniores masculina e feminina, sabe-se lá quanto tempo depois!
Tive também particular interesse em ver o que seria a prestação das equipas do 1º de Agosto, o A, B, e a Marinha. Edgar Neto resume o assunto e fala em "equipas do abecedário". Vi no campeonatos provinciais. É algo que, no princípio, me fez torcer o nariz. Pensei logo na verdade desportiva. Por cá, esta tal "verdade" já anda distratada há muito. Convenceram-me de que não. Aceitei, mas sabia que alguma coisa não estava bem até surgir um jogo, para a Taça de Angola, em que uma das equipas, do A,B,C...,depois de um surpreendente primeiro tempo, perdeu \"telemetria\" e fez lembrar o Angosat1, no segundo tempo. Fazendo uma pequena rebusca, as memórias levaram-me ao episódio de falta de sistema que deu escândalo no Girabola passado.
E, por falar em Girabola, fico com a ideia de que o espírito desta prova de futebol chegou mesmo ao andebol. Há pequenas diferenças, como o caso do sector feminino ser o mais forte no andebol, ao passo que o masculino anda em coma, como acontece com o feminino no futebol.
Nisto de ter a massa e prioridades, cada um manda no seu nariz! Nós que estamos na periferia dos que jogam, notámos o desinvestimento no andebol masculino. A especialidade já marcava passos. Já conseguiu lugar quase cativo nos pódios continentais, impulsionado pelo 1º de Agosto, que chegou a ser a selecção nacional, mais um ou dois. Chegou a ser quase todas as selecções masculinas.
O padrasto escamoteava bem a sua preferência pelas filhas biológicas. Estas têm tudo e mais alguma coisa. Hoje, infelizmente, está às claras que o andebol masculino é secundário, no 1º de Agosto. Vem ganhando campeonatos, sem direito a participar na Taça dos campeões (última vez foi em 2013), enquanto as meninas até ao mundial de clubes, torneios em substituição da selecção e outros têm direito. Isto começou no Petro de Luanda. Mas lá, o retorno do sector masculino já foi com estatuto de secundário.
É o espírito do futebol que toma o andebol. Sintomático foi ver equipas a jogarem andebol, com camisolas timbradas a Girabola Zap. Podia ficar por aqui. Está tudo dito. Só falta dizer que é inaceitável que uma agremiação que tem equipas e núcleos espalhados por todo o país, que assume uma folha salarial de três equipas femininas em seniores e, não sei quantas em juniores, exibe investimentos milionários em infra-estruturas, apresente a sua equipa masculina com estes sinais de pobreza. Esquecemos as demais "equipas do abecedário", que já sabemos serem secundárias.
Os homens estão a ver fumo! Acho que contraíram grande paixão pelo andebol, por isso ainda jogam. "Quem ama sofre", dizem os poetas! Me parece não ter rumo o andebol masculino e a passagem de testemunho para o Interclube, que começa a ressurgir como investidor na classe, também pode ser algo de ocasião, nunca se sabe!

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